O bode da desindustrialização, uma resposta de Demétrio Toledo ao Guaci

São 30 anos de porta fechando

Recentemente, mandei dois links para alguns amigos sobre um tema que começa a ser falado aqui e ali no debate político brasileiro: a desindustrialização. Nos últimos 30 anos, como mostra estudo do IEDI, a atividade industrial deixou de responder por 30% da atividade econômica brasileira e passou a responder por 23,7% em 2007, 6,3 pontos percentuais a menos. Ou seja, ocorreu uma desindustrialização relativa na economia brasileira e o País utilizou  a exportação de commodities para garantir o crescimento econômico.

A superação dessa queda da participação da Indústria na economia brasileira é ainda uma das grandes lacunas a ser superada nos próximos anos e, mesmo com uma discussão avançada, o horizonte de curto prazo parece ser bem complicado. Para o nosso chapa, o Fred Meinberg que faz mestrado em políticas públicas na Universidade de  Harvard e trabalha com uma análise de redes às exportações do Brasil: “é o tema da década”.

Demétrio Toledo, irmão do Jay, melhor amigo do Guaci e fundador honorário do blog,  estudou as redes empresariais da elite de São Paulo e  trabalha no Observatório de Inovação e Competitividade da USP. Para ele:

O tema continua na ordem do dia, mas não vejo como possa sair muita coisa nova dele em termos de debate. Como diagnóstico, é batido, apesar de continuar a ser uma das tarefas mais importantes do momento e que continuará a ser por mais uns 10 anos, como disse o Fred.

Tem coisa mais quente na área de desenvolvimento. Por exemplo, internacionalização de empresas brasileiras (o tema das multinacionais dos BRIC está pegando fogo); o rearranjo “evolutivo” do sistema brasileiro de Ciência Tecnologia e Inovação (CT&I); o pré-sal e seus spillovers; formação de mega-grupos econômicos apoiados no BNDES.”

A explicação levou o Tiago, aqui do blog do Guaci a perguntar ao Demétrio se a desindustrialização já havia sido superada como tema. A resposta do nosso amigo foi a seguinte:

A questão começa daí: superar ou não a desindustrialização. Existem, na história econômica brasileira recente, linhas interpretativas que debatem violentamente se houve ou não desindustrialização; uns acham que rolou, outros, que a comparação é difícil de ser feita se levarmos em conta variáveis como ganhos de produtividade e de competitividade da economia brasileira; uns, que houve desindustrialização; outros, especialização e adensamento das cadeias produtivas.

Outra questão é a inserção do Brasil nos mercados mundiais, que depende demais, no cômputo geral, de commodities e produtos de baixo valor agregado (ou seja, uma hora de trabalho de um brasileiro vale menos, isto é, agrega menos valor, do que uma hora de trabalho de um americano ou de um finlandês – a gente planta soja, eles vendem celular…)

– por isso a PITCE e a PDP propõem que, como forma de fazer a economia brasileira assumir posições mais vantajosas no comércio mundial, precisamos avançar na cadeia de valor, e o melhor modo de fazer isso (porque a ponta atual da indústria planetária está nisso) é nos produtos e serviços intensivos em conhecimento. Isso exige que um desenho de política industrial aposte pesado na inovação (que, por sinal, é outro capítulo).

A diversificação dos parceiros comerciais do Brasil é importante para, do lado da demanda, puxar uma estrutura produtiva mais variada. E há algumas opções estratégicas que têm que ser bem pensadas. Por exemplo, acho impossível e indesejável que o Brasil não concentre na China e nos EUA grande parte de seu esforço de comércio exterior – mas a pauta exportadora com esses países é basicamente composta por commodities ou produtos de baixo valor agregado. Mas o quadro muda completamente quando olhamos para as relações comerciais do Brasil com a América Latina ou a África.

O futuro, claro, está em grande parte na China e nos EUA e na Europa; mas muitos dos setores mais dinâmicos e intensivos em tecnologia do Brasil estão tomando mercados menos lucrativos e avançando para mercados mais ricos, que é o caso da AL e da África. A história da indústria japonesa, coreana, e de modo geral de todo o Sudeste Asiático depois da II Guerra, e mais recentemente da China, seguiu esse caminho.

Por isso, uma estratégia brasileira de comércio exterior precisa também valorizar o potencial de teste e até mesmo de indução de setores mais dinâmicos de nossa economia por mercados intermediários, de modo a ganhar escala e competitividade para depois dar o salto para mercados centrais.

Mas o diagnóstico de que precisamos avançar na cadeia de valor é, como eu disse, corrente faz algum tempo. A questão é: como fazer isso?

Acho que a questão final dava bem uns anos de debate a respeito de políticas públicas, entraves etc., mas acima de tudo acho que a questão ajuda muito a pensar sobre qual o papel da política de inserção internacional brasileira nesse sentido. Vale um bom debate por aqui.

Na terça-feira da semana que vem (22/3), o Demétrio inclusive faz uma apresentação no OIC sobre 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública, a partir das 11h. Os debates do observatório são sempre transmitidos pela web. Vale a pena acompanhar.

27 comentários sobre “O bode da desindustrialização, uma resposta de Demétrio Toledo ao Guaci

  1. Lauro e Tiago,

    Excelente post!

    É por isso que sempre passo aqui, as vezes para discordar e na maioria das vezes para aprender com vocês!

  2. Para ficar na famiglia, vou fazer um jabazinho aqui e sugerir a leitura de entrevista de Joaquim Eloi de Toledo, economista e pai do Demétrio (e meu também), ao Diário do Comércio.

    http://www.dcomercio.com.br/Materia.aspx?id=40795&canal=8

    Ele discute pontos centrais de política econômica como taxa de juros, investimento, poupança, política fiscal, etc. Só acho que ele aniquilou toda possibilidade de descolar um trampo com o Eike Batista: “O que eu proponho para desonerar a folha de pagamentos, (que teria muito custo para a arrecadação federal) é a elevação dos royalties sobre recursos não renováveis, sobre minérios.”

  3. HAHAHAHAHAHAHAHAHA. O Eike e o Bernardo Paz acho que não vão curtir.
    Agora, eu tenho uma dúvida sobre a carga tributária. O país precisa arrecadar muito para continuar qualquer projeto de desenvolvimento. Embora tenha sido feita de maneira caótica, a elevação da carga tributária durante o governo FHC me parece necessária (deveria ter sido feita de outro modo). Assim, penso, será que desonerando as empresas de tecnologia, química fina, remédios, o país conseguiria manter a mesma arrecadação?

  4. Arrecadação é uma coisa, carga tributária é outra. A arrecadação pode subir com redução de carga tributária, por exemplo, se produzirmos e exportarmos bens de maior valor agregado, intensivos em tecnologia. Políticas de isenção fiscal para setores estratégicos são um dos modos de se fazer isso. Uma política de desenvolvimento moderna, pós-desenvolvimentista e pó-sneo-desenvolvimentista, prtecisa sim escolher setores. Quer cavar o chão e embarcar minério bruto de ferro para a China? Fazer o quê? Paciência.
    Mas se você quer, além de obter o minério, produzir aços e ligas especiais, intensivas em conhecimento e com altíssimo valor agregado, menos sujeitas às flutuações do mercado mundial de commodities, então deve pagar menos tributo do que o animal que continua o que os avoengos deles começaram lá no século XVI: arrancar as riquezas da terra e mandar pra fora in natura.

  5. Então Dema, aí está o nó da treta para mim. Pois, mesmo com a pressão do presidente, as grandes mineradoras não querem desenvolver a siderurgia, por exemplo. A burguesia brasileira tem um comportamento muito conservador nos investimento, mesmo com a desoneração promovida pelo governo em várias áreas. O exemplo da mineração é perfeito. Outro caso exemplar é o modo como esses empresários apóiam iniciativas culturais no país. Ou é por meio de incentivo cultural ou por meio de merrecas.

    Eu que acabo sabendo as fofocas de corredor de museu, soube dos valores doados pelas empresas para uma grande instituição. É irrisório.

    Demétrio, você que conhece o assunto, acha que está se formando nestes últimos anos de prosperidade, depois de anos de instabilidade, primeiro política (na ditadura), depois inflacionária e , por fim, das crises econômicas da nova república, uma nova cultura empresarial capaz de embarcar na inovação e financiar o conhecimento como uma forma de fazer seus produtos serem mais lucrativos e competitivos?

  6. Acho que escolher que setores desenvolver muito problemático. Quem elege os “ganhadores” está sujeito a lobbies, interesses pessoais, pressões de todos os tipos e mesmo uma visão superficial dos problemas.
    Além disso, as políticas desenvolvimentistas recentes são reativas e há pouco debate e reflexão.
    Penso que o melhor a se fazer são reformas horizontais como a tributária.
    Quanto à política comercial, tem-se a visão míope do “exportar é o que importa”. O que importa é volume de comércio.
    Por hora é só, galera. Grande abraço e saudades.

  7. Herlon, o que você quer dizer é que se o volume de comércio é alto e se há algum superávit, tá tudo bem? É isso?

  8. O ideal é equilíbrio. Superávit constante pode gerar sobre-valorização da moeda. Déficit só os EUA conseguem. Se funcionasse direito, o sistema de preços deveria garantir o equilíbrio.

  9. Mas será mesmo que fora das condições ideais o sistema de preços tende ao equilíbrio? De resto Herlon, adoraria saber de quem está na área faz alguns anos, quais tipos de políticas o estado tem promovido para ampliar o volume de comércio?A ampliação ao acesso a produtos de ponta no mercado interno conta ou não? Bem, eu acho que posso estar trocando as bolas. Talvez fosse legal explicar a idéia de “volume de comércio”. Aliás, tu tá devendo um postzinho pra nóis.

  10. Acho as políticas industriais horizontais uma tragédia. Todos os países do mundo que foram bem sucedidos em políticas de desenvolvimento industrial e produtivo escolheram ganhadores. Essa mania de achar que o Brasil, fazendo ao contrário do que todo mundo fez e faz, vai chegar a algum lugar, é pra mim muito problemática.
    Quanto ao perigo de lobby e interesses pessoais contaminando política industrial, é o velho argumento neoliberal do perigo do rent seeking. É excessivamente superficial e ingênua. Nível jornalismo ou extreme neoliberalism. Corrupção é resolvida com polícia e justiça.
    Acho que hoje nem a galera do Consenso de Washington acha mais isso.
    Também discordo do arghumento neoliberal de deixar o mercado escolher em oposição a uma política industrial. O mercado não é o melhor alocador de recursos nem em panfleto neoliberal. Esse papo de que a melhor política industrial é não ter política industrial é conversa para manter o Brasil com o freio de mão puxado. Quem gosta disso é emrpesário incompetente que não consegue segurar o rojão da concorrência.

  11. Aliás, quem tem puxado a concorrência em alguns ramos, bancário e, ao que parece, das telecomunicações, é o estado. O que vocês acham? Dessa dificuldade do mercado brasileiro ousar mais, investir em tecnologia, esses trecos. Muitos empresários só respondem se cair do céu pra eles. Só pra acabar, Demétrio, como voc~e responderia a pergunta feita pelo Ceará?

  12. Vamos lá, acho que o o que Tiago falou tem muito a ver com algumas questões que o Demétrio já havia falado antes, que é a falta de iniciativa empresarial brasileira. Qdo o Lula sugeriu em entrevista que a Vale devia investir em siderurgia e depois, pelo que se fala, tentou compor com o Eike Batista pra tirar o Agnelli do comando da empresa, o recado era esse.

    No projeto de Banda Larga, a estatização da Micronet tb tem a ver com isso, mas daí o fim não é só econômico, mas social e estratégico também. O pessoal viu que o setor privado não tem interesse em investir na rede de banda larga no Brasil. E muito disso tem a ver com a preguiça em apostar em novos negócios e o medo de concorrer em um mercado mais aberto e voltado pra um público que eles desconhecem.

    Apesar disso tudo, acho boa a idéia que o prof. Elói coloca na entrevista de conceder incentivos para quem qualidfica o trabalho e investe em inovação.

    Mas fico dividido na questão dos privilégios. É importante escolher setores prioritários de desenvolvimento, inclusive para se ter um projeto de longo prazo e estabelecer metas com mais clareza (falo isso tudo no meu nível jornalismo de entender as coisas ;)).

    Por outro lado, o que aconteceu nas privatizações brasileiras foi um indicador bem claro que a relação de governos e setor privado não é só um caso de polícia, como diz o o Demétro. É também um caso de laços políticos tb e de como uma coisa contamina a outra (isso em todo tipo de governo).

    Os interesses privados muitas vezes são transferidos para o setor público e algumas vezes são construídos em conjunto com a ascensão de algum grupo ao poder. Isso vai do financiamento em campanha a laços pessoais. Mas isso se resolve mais com a definição de regras e transparência, mas esse tipo de decisão vai sempre gerar ruído e desgaste político.

    Por isso acho que se for pra desenvolver uma política industrial, essa política tem de ser consensuada com setores da sociedade (a experiência do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) podia ser um modelo pra isso, não é?)

    Mas o maior problema mesmo é que, por falta de ambiente, por falta de política e por falta de energia, a política industrial brasileira ainda parece ser muito definida na boca do caixa do BNDES. O que é muito limitador, vcs não acham?

  13. No Brasil, criou-se uma ideia de que o Estado não deve se relacionar com a sociedade ou o setor privado. Até entendo o que leva as pessoas a terem medo disso. Mas a relação entre Estado e setor privado acontece o tempo inteiro! A questão é outra e diz respeito ao seguinte: como criar as condições para uma relação mais transparente com o setor privado? Uma delas é criando canais de diálogo e interação, como o CDES, muito bem lembrado pelo Lauro. Aliás, a escolha de setores pela política industrial, diga-se de passagem, não inventou as relações promíscuas entre Estado e setor privado. Isso é mais velho do que andar pra frente, convenhamos.
    Além disso, é preciso aprender com a história, e a experiência histórica mostra que jamais houve país bem sucedido em termos de desenvolvimento industrial em que o Estado não tivesse interagido e financiado direta e indiretamente o setor privado e escolhendo setores. Todos os paises avançados usaram e USAM o poder de compra do Estado para estimular setores escolhidos: o Estado garante o financiamento e parte da compra de uma tecnologia de interesse estratégico ou de um setor inteiro. QUerer fazer difernete no Brasil é o mesmo que tentar melhorar a roda deixando ela quadrada. Literalmente, não rola.
    Já tenho uns 8 anos fazendo pesquisa sobre empresariado, empresas e desenvolvimento, e posso dizer a vocês que uma coisa que atrapalha demais uma melhor relação entre Estado e setor privado é a ideia que as pessoas fazem do que seja uma empresa. É como achar que todo jornalista é tucano porque a Trolha de São Paulo é, ou achar que todo colecionador de arte é ladrão porque o Edmar é. Empresas e emrpesários são bem diferentes da caricatura brechtiana que se faz deles. E aliás, eles (os empresários) e elas (as empresas) mudaram sim, e podem mudar ainda mais.
    Na verdade, um dos problemas das políticas industriais no Brasil, que estão muito longe de serem apenas reativas (mas às vezes são, justamente porque o empresariado cobra isonomia, isto é, tratamente igual para todos, políticas horizontais) é que elas são executadas por muitas agências e ministérios simultanemante e sem coordenação: o MDIC, o MCT e suas agências (CNPq, Finep), o MS (aliás, existe uma excelente discussão na saúde sobre política de ciência, tecnologia e inovação no setor de saúde), a ABDI (que supostamenter deveria coordenar as políticas indusutriais e de desenvolvimento), a Casa Civil, o BNDES, o MAPA, a Embrapa, a Petrobrás etc. Agora, que o BNDES tem um peso que vem de seu tamanho e poder financeiro gigantescos, isso tem.
    Nossas políticas industriais foram sempre políticas de tirar atraso, mas sem que nunca dessemos o salto ao presente (isto é, sempre caíamos atrás do resto dos países de industrialização avançada, apenas diminuindo a distância deles). O único jeito de fazer isso é nos antecipando, escolhendo os setores mais promissores e investindo pesadamente. Se as políticas forem horizontais, para todos, nada vai mudar e estaremos produzindo soja e gado e frango para sempre, com pequenos arranques toda vez que descobrirmos petróleo no pré-sal ou água na lua.

  14. Dema, como você sabe, não sei lhufas do empresariado, mas o que sei vem do que acompanho em culura, sobretudo em museus. Os caras são mão de vaca. Fora o Bernardo Paz eo Gerdau, ninguém mete a mão no bolso para doar para museu. O dinheiro vem ou de isenção fiscal ou são migalhas. Menos do que esses caras devem gastar de 10% no restaurante.
    Parece que o lance do antonio Ermírio na Beneficência Poruguesa é legal, mas é um caso isolado. Quando eu falo migalha não é exagero, eles dão muito menos do que eu daria se tivesse um bom salário. é dois pila por mês, coisa assim.
    Por isso, minhas dúvidas sobre a iniciativa destes caras paira. Não vejo esses caras se mexerem. Portanto não é caricatura do capitalista cruel, mas a imagem de um empresário meio molenga e super conservador nos investimentos.
    Agora, para aprender um pouco, quais são as iniciativas recentes que vocês consideram mais importantes em política industrial?

  15. Eu não tenho nada de neoliberal radical. O governo tem que meter o dedo sim, mas para promover inovação. Isso é o o motor do desenvolvimento. Os industriais somente sentam em cima do lucro e compram carros de US$ 4 milhões (http://not.economia.terra.com.br/noticias/noticia.aspx?idNoticia=201003221334_RED_78841446.
    Como disse Hobsbawm: “Com frequência se supõe que uma economia de empresas privadas apresenta uma tendência automática para a inovação, mas não é assim. Tal economia tem uma tendência para a busca do lucro.”
    P.S.: Uma política horizontal bem sucedida foi a abertura econômica. O ganho de produtividade é fato.

  16. Herlon,
    A frase do Hobsbawm merece o Nobel da Obviologia – se ele acha que descobriu algo de novo, está muito enganado. E abertura econômica não é política industrial. E as amostragens dos jornais não são representativas. E o problema desse aí é, como eu falei, polícia e judiciário.
    Tiago,
    Exemplos de boas iniciativas em termos de política industrial mais recentes:
    1)Ter de política industrial (lembre-se que no governo do FHC se dizia que a melhor política industrial é não ter política industrial);
    2) A PITCE; a PDP;
    3) A criação e fortalecimento de instituições dedicadas ao planejamento e à coordenação de políticas industriais e de comércio exterior, como a ABDI e a APEX;
    4) O estabelecimento de um marco legal que procura estimular a inovação: Lei da Inovação federal e Leis da Inovação estaduais e Lei do Bem;
    5) Ação agressiva do BNDES em termos de formação de grandes grupos nacionais (discordando do meu pai, acho que é muito importante para o banco e para o país);
    6) Escolha de setores estratégicos (a PITCE mais centrada nos setores e tecnologias chamados portadores de futuro ou estratégicas, a PDP contemplando setores de infra-estrutura, commodities e setores em que o Brasil tem vantagens comparativas, como aviação regional e etanol de primeira geração, além dos setores estratégicos – mais ampla, portanto, e segundo alguns críticos, sem foco estratégico por envolver setores demais.
    Faltaria, desde já, além das óbvias e sempre necessárias tarefas de aumento da coordenação e diálogo entre governo e setor privado, um instrumento largamente adotado para política industrial em economias avançadas: compras governamentais como modo de fazer deslanchar setores estratégicos (por exemplo, poderíamos fazer isso na área de saúde com muito mais intensidade). O mundo inteiro faz e acha mais é que tem que fazer, mas no Brasil, ainda se resiste a isso.

  17. Numa boa Demétrio, aprendi muito com tudo que vc escreveu. Mas acho que essa coisa de se escolher setores prioritáirios tem seus riscos tb. E não são riscos expressos apenas na corrupção ou na falta de fiscalização. Por que qualquer escolha governamental tem impacto nos outros setores. A opção de se deixar setores com potencial até maior de lado é muito grande.

    No setor cultural isso é claro. Depois do desastre do governo Collor, os governantes e institutos de financiamento (como BNDES, BB, além de empresas como Petrobras) criaram um mecanismo só para o audiovisual brasileiro na lei do audiovisual. Nela, o investimento privado é todo descontado no imposto de renda do usuário a partir de um mecanismo que se chama incentivo fiscal que mascara uma série de distorções pra lá de bizarras. Porque na prática o Estado banca a iniciativa do empreendedor privado – tudo aprovado pela lei e nos conformes constitucionais.

    A idéia era estimular a indústria brasileira do audiovisual, criar uma indústria que se consolidasse por meio da atuação direta do Estado no setor.

    Além do fomento governamental, o cinema recebeu facilidades tributárias, postos fixos na Apex e no Itamaraty, uma agência reguladora (Ancine) e uma secretaria única e exclusivamente devotada ao setor (SAV) e mais uma série de benesses. Nenhum outro setor da cultura brasileira goza de tanta atenção. Com exceção de setores estratégicos para o país (água, luz, telefonia, petróleo etc.) acho que nenhum setor da economia do Brasil conta com tanta atenção do Estado.

    A escolha pelo cinema teve e ainda tem ótimas justificativas: é uma indústria transversal (que toca em muitas outros setores da cultura como Música, Moda, Fotografia, artes visuais, design, escrita, pesquisa etc.). Além disso tem um potencial enorme de realmente se tornar indústria, com uma estrutura televisiva estabelecida no país e com canais de exportação já abertos. Além disso, em vários lugares do mundo, é uma indústria muito bem sucedida em gerar riqueza, empregos e reconhecimento ao país.

    Passados quase 17 anos dessa aposta e o governo não formou público, não consolidou uma estrutura industria e consumiu um pouco mais de 40% do orçamento do Ministério da Cultura desde então, além de linhas de fomento do BNDES, fundos da Petrobras e muita energia do governo federal, buscando estímulo a inovação, diversificação da produção (com animação, por exemplo) e mais um monte de políticas pra lá de louváveis.

    A quantidade pode ser irrisória pra quem trabalha com política industrial, mas é um baita dinheiro que afeta diretamente um total de 1.900.000 pessoas envolvidas no mercado cultural no país, segundo levantamento realizado em 2004, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

    E qual o problema? Ao apostar a maior parte das fichas no desenvolvimento industrial de um só setor, o governo deixou brechas enormes no desenvolvimento de setores com potencial econômico tão grande ou maior como Música e Artes Visuais e com potencial de gerar mais ganhos na geração de empregos como o Teatro.

    Qual foi o erro do governo, apostar em um mercado de entretenimento brasileiro que chega ainda a muito poucas pessoas e que tem um nível baixo de investimento baixo em setores estratégicos para se internacionalizar, ao contrário da música por exemplo.

    Tudo isso, por que o governo concedeu facilidades tributárias a um setor e deixou outros ao Deus dará. Essas distorções sofreram várias tentativas de correção ao longo do governo Lula, mas todas foram bombardeadas por um lobby muito poderoso dos sistemas de comunicação e da visibilidade de quem trabalha com a grande indústria audiovisual brasileira. E, apesar dos esforços políticos de diferentes atores governamentais, a questão do cinema ainda está estacionada na política cultural brasileira e onera outros setores que podiam ter um potencial maior.

    Sei que vc é apaixonado pelo tema, mas às vezes os erros da priorização de um setor da indústria vão além da justiça, da corrupção. Para na ineficácia mesmo e no poder dos articuladores de uma cadeia produtiva. Acho que isso deve ser ponderado e às vezes algumas reformas horizontais também são muito bem vindas, inclusive pra romper entraves que são gerais – a exportação de bens de cultura no Brasil são muito difíceis por causa da complexidade e do custo dos impostos; a questão da propriedade intelectual é muito amarrada a agências independentes que atrapalham a iniciativa de qualquer pequeno produtor. O músico por exemplo precisa se cadastrar a sociedades arrecadadoras que repassam a verba de direitos autorais de um jeito muito complexo e por aí vai. Muitas dessas coisas se reslveriam com reformas horizontais bem amarradas. Não é solução da lavoura, mas não é necessariamente mau ou óbvio (pelo menos não no nível da elaboração de política pública).

    Sei que falei de um setor que tem uma particularidade muito diferente da política industrial, mas não deixam de ser produtores importantes que geram ganhos produtivos e simbólicos importantes pro Brasil.

  18. Então, estou só aprendendo, mas ainda não entendi o argumento de quem defende as reformas horizontais e nem a vantagem de se ter políticas que priorizem alguns setores. Corrijam-me se eu estiver errado. Essa eleição implica em especialização do país? Se isso for verdade, não estaríamos sujeitos, mais uma vez, às turbulências internacionais? Os setores de ponta também visam sofisticar o mercado interno?
    No carnaval, estive com produtores agrícolas, gente que trabalha com crédito consignado e produtores de algo muito curioso: Máquinas que fabricam tortillas, nachos, pão sírio e etc. Todos foram unânimes em dizer que o consumidor brasileiro de hoje é mil vezes mais exigente do que o da década de 90. Eles falavam de um mercado mais luxuoso, mas citaram exemplos em Heliodora, Gonçalves, Araçatuba, que não são exatamente centros do luxo.
    Bem, são dúvidas que eu tenho. Mas temo confundir eleição de campeões com especialização, que não me parece uma boa saída. Aliás, os nossos vizinhos nos ensinam isso cotidianamente.

  19. Quem sou eu para debater isso com vocês, mas…fiquei lendo e pensando em uma coisinha:

    no curto e médio prazo, as estratégias de aumentar nossa competitividade industrial para aumentar comércio com grandes (china e eua) são boas…e tb precisaremos ainda por muito tempo das comodities.

    mas no longo prazo essa saída para AL e Africa passa necessariamente por estreitamento nas relações com esses blocos e ações para estimular a melhoria do desenvolvimento desses países. O que, me parece, o Lula iniciou de forma brilhante.

    ou seja, eu acho que a direita brasileira reclama que o lula é “bonzinho” com AL e africa porque eles não conseguem enxergar os benefícios para o Brasil em ter uma estratégia de longo prazo em relação a esses países. No que se refere a AL teria ainda o benefício adicional de, ao reduzir a miséria deles, nós teriamos ganho na redução do trafico de drogas e imigração de miseraveis para o brasil. Ao inves de construir muros, vamos cooperar para que nossos vizinhos se desenvolvam também.

    esse é o meu pitaco. puro sentimento, é claro, não entendo nada de política industrial

  20. adorei essa aula; tinha perdido esse post [foi no dia do meu aniversario e fiquei longe da net por dias]; que bom que o Tiago postou no twitter hoje!

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