Folhetim da congestão I

Mais uma vez, começo uma série aqui no blog. Diferente da outra, aqui não farei episódios independentes, mas aproveito um texto que ficou comprido demais para um post só e o desmembro em um folhetim. Nos últimos meses, tenho vivido situações que negam a promessa da cidade a toda hora. Resolvi reunir algumas delas. Penso muito a partir das análises do crítico e historiador pacifista Lewis Mumford, por isso, falo dele agora, depois conto os casos.

Andreas Gursky "99 Cents I"

Um dos maiores americanos do século XX foi Lewis Mumford. Atuou como um intelectual profundo e combativo. Entre a década de 1950 e 1960, desenvolveu as idéias de aglomeração e congestão urbana. São algumas das noções mais ricas para pensarmos momentos em que temos certeza que as cidades entrarão em colapso.

Recentemente vi um barranco deslizar na rua de casa. Ele cresceu por um mês e permanece impedindo o tráfego por dois. As estruturas das casas lá no alto se mostram de modo obsceno a quem anda na rua. O asfalto está enlameado e mal se vê cimento nas crateras da calçada. Como os bichos querem sobreviver, abriram mal do matagal e estão aqui, convivendo conosco e tentando escapar da nossa fúria e do nosso nojo.

Nessas horas, fica evidente a catástrofe da urbanização. Se na história ocidental, as cidades sempre foram um lugar para se melhorar a vida; hoje, São Paulo parece mais um sistema irracional de investimento que, pelo jeito, não melhora nem os lucros.

Mas Mumford já havia matado a charada da interversão da promessa da cidade. No livro A cidade na história, o autor trabalha com a demografia, com o urbanismo e com a circulação de mercadorias. Faz das formações urbanas, resultado de disputas e de ideais em tensão irresoluta.

Não sobra para ninguém. Ele crítica os americanos, soviéticos, europeus, a acumulação e a burocratização. Em certo sentido, lembra a sociologia de Wright Mills, o pensamento de Murray Bookchin, Herbert Marcuse e – por que não?— Ralph Waldo Emerson.

Quando começa a falar das cidades modernas, volta ao tema do uso extenuado da malha urbana. Diferente dos malthusianos, os conceitos de congestão e de aglomeração não estão associados ao crescimento da taxa de natalidade. Mas a uma forma de lógica da cidade onde todas as relações são reguladas para o trabalho e para a produção de lucro. Os deslocamentos passam a atender uma lógica de investimento, o tempo livre e até a idéia de sucesso e fracasso.

Ele fala das formas de urbanização sem limites, da indistinção, inclusive, entre campo e cidade. O lugar da natureza passa a ser o que as funções do trabalho determinam a ela. Não se trata mais de uma área não urbanizada, mas de um trecho entre cidades.

Sul de Manhattan em Nova York, em foto pintada de 1906

Daí ele desce o sarrafo nos funcionalistas e no utilitarismo. Pensa que a lógica da utilidade, de se atribuir uma função a cada espaço, na verdade é a lógica da exploração irrestrita do terreno e dos meios de circulação. Ele defende uma arquitetura e um urbanismo que não colonizem as atividades vitais e desvinculadas da produção como “tempo livre”, ou lunch time.

Quando fala dos utilitaristas do século XVIII, por exemplo, Mumford é categórico:

A liberdade pedida pelos utilitaristas era, na realidade, a liberdade de terem ganhos irrestritos e crescimento privado. Lucros e rendas teriam de limitar-se apenas pelo que o tráfego pudesse suportar: aluguéis costumeiros aceitáveis e preço justo estavam fora de cogitação. Somente a fome, a penúria e a pobreza podiam compelir as classes inferiores a aceitar os horrores do mar e do campo de batalha [no século XVIII e XIX]; e somente aqueles mesmo úteis estímulos os haveriam de incitar e induzir a trabalhar nas fábricas

Mas na definição das idéias de congestão e aglomeração ele é mais preciso. Os conceitos revelam algo desse raciocínio proto-natureba do Mumford.

Segundo ele:

o congestionamento verifica-se naturalmente quando um número demasiado de pessoas começa a competir por um número limitado de apartamentos e quartos; e quando um proletariado industrial começou a afluir em massa para as grandes capitais da Europa no século XVI tais condições se tornam crônicas. (…) Os fatos do congestionamento metropolitano são inegáveis; são visíveis em todas as fases da vida de uma cidade. Encontra-se congestionamento nos constantes engarrafamentos do tráfego, resultantes da acumulação de veículos em centros onde só se pode manter o movimento livre pela a utilização das pernas. Encontramo-lo no apinhado do elevador do escritório ou no ainda mais densamente amontoado metrô. Falta de espaço para escritórios, falta de espaços para escolas, falta de espaço para as habitações, até mesmo falta de espaço nos cemitérios, para os mortos. A forma que a metrópole alcança é a forma da multidão: a praia de banhos, enxameante, à beira-mar, ou o corpo de espectadores no ginásio de boxe ou estádio de futebol. (…) No ato de tornar acessível o núcleo de metrópole, os planejadores do congestionamento quase a tornaram inabitável

É claro que existe no argumento um romantismo de fundo, mas um idealismo democratizante. Que acredita que o controle local e a inversão de prioridade do desenho urbano dissolveriam algumas das contradições apontadas. Esse romantismo que origina um ponto de vista meia oito, no entanto, parece demonstrar não as soluções, mas algumas razões da crise. Os interesses empresariais parecem ter conseqüências negativas inclusive na vida de quem controla essas empresas.

É triste que essas idéias pareçam velhas e que os liberais de plantão insistam em uma cartilha ideológica onde os interesses empresariais parecem não exercer pressão política alguma. Como esse liberalismo, renovado nas últimas décadas do século passado, foi para as cucuias, acabaram-se as soluções mágicas. Aliás, mesmo a promessa igualitária de Mumford, retomada , entre outros, pelo grande Mike Davis, parece distante. Mas os problemas que ele vislumbra ainda são muito reais.

Todos nós identificamos nas notícias e nos dados algo que confirma essa discrepância entre a prioridade alienada das cidades (quase como entidades burocráticas automáticas) e a vida de cada um. Os consultórios psiquiátricos dão uma boa medida disso.  No entanto, uma coisa é ter notícia, outra é viver situações que, de tão exemplares, parecem caricatas. Aí fica preocupante. Em janeiro e fevereiro, tenho vivido essas experiências sistematicamente, mas isso fica para depois.

5 comentários sobre “Folhetim da congestão I

  1. Como estamos falando do Lewis Mumford, acho que o movimento de inchaço, depois de dispersão e de nova concentração que descreve, bem genericamente, as restruturações das cidades americanas nos últimos 50-60 anos contribuem para pensar nas cidades contemporâneas. Os americanos deixaram as cidades pelos subúrbios na bonança do pós-guerra. Deixaram para trás a cidade do século XIX congestionada, suja, identificada, no imaginário puritano, com promiscuidade, falta de higiene e corrupção moral. A cidade virou “inner city” – periferia só que no centro, espaço degradado deixado aos latinos e negros, sem emprego e sem infraestrutura. Nos últimos anos, no entanto, e com a recuperação dos centros das cidades puxada pelo mercado imobiliário, os americanos têm feito um movimento de “repovoar” as cidades. Morar no centro voltou a ser atraente. Azar dos moradores da inner-city, que provavelmente serão expulsos para os subúrbios – onde não haverá nem empregos nem infraestrutura.
    A cidade contemporânea produz e reproduz as mazelas da modernidade – pobreza, desigualdade, exlcusão, violência de classe. Uma das reportagens mais impressionantes que li sobre os efeitos da crise financeira nos EUA falava de famílias nas califórnia que tiveram de ir morar em motéis de beira de estrada. No antigo mundo da fantasia de Orange County, o sujeito perde sua casa e não tem aonde ir. A cidade não tem opções de aluguel para família de baixa renda. Ou vc paga a uma hipoteca, ou mora na rua. Não tem meio termo. Uma cidade que não oferece proteção para os riscos do capitalismo – desemprego, em especial – não serve para nada. Aliás, isso vale para uma sociedade que não oferece proteção, mas isso é outra história.

  2. Legal o que você disse Jay, parece uma reforma Haussmann revisitada. Agora, o que eu acho forte no raciocínio do Mumford é a tentativa de se atribuir uma funcionalidade voltada para o trabalho e a acumulação tornou a cidade inabitável. Essas melhorias acabam sendo traiçoeiras. A higienização está a pleno vapor no Rio de Janeiro. E não é ação de um ou outro governante. Os candidatos com maior chance de vitória no estado devem fazer, basicamente, a mesma coisa.

  3. Acho que minha vida em São Paulo é pautada por situações onde esse desconforto constante das megalópoles tem um papel crucial. O Lewis Mumford é muito massa mesmo. Na primeira vez que li o Mike Davis, lembrei no ato do Lewis. Tem um livro português que eu comprei em algum evento anarquista, que tem um diálogo muito bacana entre ele e o Murray Bookchin, uma brochurinha. Certamente é um pensamento muito meia oito, como as teorias urbanísticas dos situacionistas. Mas esse idealismo, como aponta o Tigas, num é vazio de prospecções para a atualidade – acho que até pelo contrário: faz alguns anos que eu acho que a grande batalha nas metrópoles passa diretamente por questões urbanísticas. Textaço e agora quero ver tuas crônicas sobre.

  4. Sobre esse processo de periferização das grandes cidades, noa anos 50, 60 e 70, e de posterior higienização e expulsão da população dos anos 80, acho que um livro muito legal a respeito é o Fortaleza da Solidão, do Jonathan Lethem. Na verdade o livro em muitos sentidos que mostra como a vida na cidade, a falta de espaço e a periferização da cidade criaram toda a estética do hip hop.
    Além disso, morando em Brasília, dá pra entender bem como essa definição de utilidade aos espaços públicos, ao fim, serviu para a criação de um espaço sem muita multiplicidade e que, essencialmente serve à expeculação imobiliária.

    Acho que os esforços de gentrificação no Rio tb têm uma proposta parecida. A densidade populacional da região central e da Zona Sul da capital carioca restringe muito qualquer ação de ocupação urbana setor público e, principalmente, pelo setor privado. A discussão que o Jay havia aberto sobre as olimpíadas no Rio revela isso.

    A lógica ainda hoje é sempre se adequar ao melhor lucro que o sistema produtivo pode oferecer, independente das conseqüências urbanísticas, humanitárias ou ambientais.

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