O movimento pagode

Almir, Jovelina e Zeca, o trio de frente do pagode dos 80

Não acompanho muito os desfiles das escolas de samba, mas nesse ano confesso que fiquei empolgado com o samba enredo da Vila Isabel homenageando o Noel Rosa. A composição do Martinho da Vila é muito bonita, com uma abertura maior pra um tom melancólico (em menor). Ao mesmo tempo, me questionei muito por que até hoje não foi composto um samba  sobre o pessoal que apareceu lá no bloco Cacique de Ramos no final dos 70, começo dos 80, e que criou um movimento musical gigantesco e muito influente até hoje.

E acho que isso tem muito a ver com que esses músicos representam. O samba feito por eles é de um momento em que a indústria da música e o público de classe média deu de ombros pro estilo mais importante da produção brasileira. O samba estava distante do horizonte da juventude Rock in Rio.

Por meio do blog do Pedro Alexandre Sanches, eu acabei descobrindo uma entrevista na revista Fora de Série, do Brasil Econômico, que colocou juntos Paulinho da Viola e Martinho da Vila. A conversa dos dois já vale pelas opiniões sobre o que aconteceu com o carnaval carioca, sobre ser negro no Brasil e sobre o sentido de comunidade no Rio de Janeiro hoje em dia.

A opinião política dos dois sambistas é bem explicitada e em um momento Paulinho da Viola fala sobre a crise criativa que abateu a carreira dele depois do disco Prisma Luminoso, em 83. Pelo pouco que eu entendo do Paulinho, ele provavelmente procurava contemporaneidade pro seu samba tão calcado no choro e nos compositores dos 30 e 40. Ia acabar redescobrindo esse sentido em 89, com o bonito Eu canto samba.

A letra da música título do disco é bem curiosa nesse sentido:

Eu canto samba
Porque só assim eu me sinto contente
Em vou ao samba
Porque longe dele eu não posso viver
Com ele eu tenho de fato
Uma velha intimidade
Se fico sozinho
Ele vem me socorrer

Há muito tempo eu escuto esse papo furado
Dizendo que o samba acabou
Só se foi quando o dia clareou

O samba é alegria
Falando de coisas da gente
Se você anda tristonho
No samba fica contente
Segura o choro criança
Vou te fazer um carinho
levando um samba de leve
Nas cordas do meu cavaquinho”

Com uma identificação muito maior com os terreiros e com um samba que partia das Escolas e das favelas, Martinho nunca parou, continuou sua pesquisa e buscou o sentido da sua música na canção da África e no interior brasileiro, sempre com sucesso de público (Madalena do Jucú, de 1989, não me deixa mentir).

No julgamento do Paulinho da Viola, os anos 80 são erroneamente entendidos como uma época de baixa do samba, por que o investimento das grandes gravadoras estava no rock nacional e em medalhões da MPB. Paulinho na entrevista fala sobre esse período:

Nessa fase, a Jovelina Pérola Negra, o Almir Guineto e o Zeca Pagodinho enchiam ginásios com samba, pagode e ninguém sabia. Só depois a mídia correu atrás. O falecido Agepê fez um compacto Deixa Eu Te Amar (1984) e estourou no Brasil inteiro. Foi um problema sériopor que o investimento estava em outras coisas, Blitz, Lobão… “

É engraçado, mas até hoje os anos 80 são marcados como a década do rock no Brasil e pouco se fala sobre esse samba que tinha se tornado música predominante das periferias de Rio e São Paulo e que foi desembocar no que hoje a gente conhece como pagode.

Em 1984, principalmente, foi um ano em que o samba ganhou uma força inacreditável não só com os nomes citados por Paulinho, mas também com Fundo de Quintal, Beth Carvalho (que havia aderido a Jorge Aragão, Almir Guineto e Luís Carlos da Vila já no seu disco de 1978, No Pagode), Bezerra da Silva (que havia passado do Coco ao samba), Mauro Diniz, Beto Sem Braço, Marquinhos PQD e muitos outros. Além disso, foi o ano de inauguração do Sambódromo no Rio, quando a predominância do carnaval televisivo das Escolas de Samba sufocou boa parte do resto da cultura do carnaval carioca.

De qualquer forma, mesmo pouco reconhecido e absurdamente desprezado pelos roqueiros e medalhões da MPB, o pagode ou sambão viveu uma renovação absurda nos oitenta e arrastavam multidões para seus shows. Era um verdadeiro movimento musical, que dizia muito respeito a intensa movimentação que acontecia com a música e a sociedade brasileira na década que muita gente ainda insiste em chamar de perdida.

Em 1986, todos esses personagens passavam de 100 mil cópias por lançamento, e no Natal Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra e o grupo Fundo de Quintal cantaram Pagode do Rei, junto com o Roberto Carlos.

Acho engraçado como essa geração de compositores tão rica não seja entendida até hoje no Brasil como uma cena musical forte e muito influente na música popular até hoje. Como mostra o excelente Eu não sou cachorro não, de Paulo Cezar Araújo, a história da música brasileira ainda é contada com um viés de classe muito forte, mesmo quando um estilo parece tão consolidado como o pagode.

Alguns sucessos aí embaixo (cliquem no mais, por que tem mais música). E, por favor, sugiram mais:

18 comentários sobre “O movimento pagode

  1. Bacana Lauro. Quanto à importância do pagode-80 eu não tenho nada o que falar. Você já disse tudo. A única coisa que pode ser dita é sobre a existência de um outro movimento igualmente importante para a música brasileira e deixado de lado pela classe média da época: o Axé. O G1 fez uma reportagem razoável na véspera do carnaval sobre as origens do Axé (http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL1485868-7085,00.html), que, na real, tomou forma ao longo da década de 80. Chiclete com Banana, Luiz Caldas, Margareth Menezes, Banda Reflexus, Bamdamel, Olodum, Ara Ketu, Ilê Aiyê, Gerônimo e outros caras mandavam ver na Bahia e o resto do país nem ficava sabendo. Só depois que a Daniela Mercury branqueou a parada, colocou uns bailarinos a-la-Claudia Raia e entrou numa trilha de novela da Globo que a coisa começou a aparecer. Antes disso era só Faraó-ó ó-ó-ó! Hehe. []s Lucas

  2. Sensacional o texto. E é difícil conseguir os discos dessa época. O rock brasileiro envelheceu muito. E a musica negra é atualissima.

  3. Muito bom o artigo, resgatando a reputação de um tipo de samba que teve sua denominação roubada e vilipendiada por divulgadores fonográficos enganosos e jornalistas preguiçosos e ignorantes .

  4. Eita Laurose porreta!

    Lucas, talvez porque eu morava em Montes Claros, nunca tive essa visao de alcance nacional do axé* via novela (e Daniela Mercury). Vou checar a matéria que você linkou e revisar a cronologia. Valeu!

    (*) – O termo “axé” me incomoda porque o pacote tem de samba a “frevo baiano” e termina não dizendo nada.

  5. Valeu pelo post, Lauro. Tá mesmo na hora de começar a dar mais valor ao pagode. Mas quem sabe o pagone nem precise receber esse reconhecimento, né? É uma outra praia. A imprensa de classe média preconceituosa tem menos poder que imagina, talvez.

    Vou passar a usar esse seu post como referência pra começar conversas sobre pagode. É incrível como, dependendo do contexto, você ter que se armar até os dentes pra falar de pagode, axé e funk.

  6. Use à vontade Eloisa, por favor, e vu lá no seu blog participar do papo. E valeu pelos comentários Lucas, Gus, MdC Suíngue, Camille e Ceará.

    Eu tb acho que nenhum desses estilos precisa de imprensa pra nada, mas o que me incomoda é a historiografia não se preocupar com o impacto dessas manifestações (pagode e axé) que nascem no carnaval de rua ultra popular do final dos 70 e começo dos 80.

    O Tiago (que é meu irmão e assina o blog comigo e como o Joaquim) tem uma teoria bastante interessante. O final dos anos 70 também marca o fim de conversa entre favela e classe média. A aproximação nacional-popular é cortada pelo regime militar. E a relação da classe média com a classe pobre se torna distante.

    O caso do pagode é o mais gritante pra mim, por que é no samba que essa aproximação foi mais forte, de Noel Rosa até os anos 60. O estilo musical ganhou esse caráter nacional na política de rádio dos anos 30. O pagode mostrou que o ouvido da classe média tinha corrido desse estilo e a falta de interesse da hitoriografia mostra o quanto esse momento de ruptura é mal compreendido.

    O curioso é que ainda assim, esse tipo de música tenha sido trazido ao mercado de discos por uma filha do projeto nacional-popular na música: Beth Carvalho e o produtor Rildo Hora. Beth começou na bossa nova e foi parar no samba pelas mãos dos CPCs da vida. No final dos 70, sentiu o esgotamento do estilo e ao invés de reclamar da juventude da classe média foi atrás do que acontecia no carnaval de rua e do povão.

    Por que o samba, diferente do Axé, nunca deixou de ser o gênero musical mais importante do Brasil – em todas as suas variações.

    Diferente do Axé, o pagode ou sambão dos 80 é um aprofundamento de características de um estilo que já existia. O Axé é uma mistura de estilos e pode ser um monte de coisas. Não é à toa que ele foi incorporado pelos tropicalistas. Por que além disso, ele tem esse componente contra-cultural de valorizar as raízes afro da música brasileira. O sambão não tem esse componente contra-cultural. O que tem de novidade é a exacerbação do aspecto de rua do samba e a popularização da linguagem. É o samba da rua pro disco e não do rádio pra rua.

    Os pagodeiros dos 80 radicalizam na fórmula musical e trazem a linguagem da favela e um jeito de cantar bem da rua (não é à-toa que o côro é um elemento quase onipresente nos refrões). É o samba abandonando a estética do fonograma radiofônico dos anos 30 e 40, e a estética contracultural de Candeia, Ney Lopes, Clara Nunes (da africanização) e retomando esse tom de rua e bar. Música das multidões e pra explodir na rua. Não é àtoa que as capas são ssempre cheias de suor e cerveja, cenários da periferia. Era música pra ser cantadas por milhares na Rio Branco ou no Centro de São Paulo.

    Acho que essa conversa rende demais e diz muito respeito ao Brasil.

  7. Lauro, muito bom esse seu texto. Me fez lembrar uma passagem do “Cidade de Deus” em que o Paulo Lins conta da visita de um cantor de “sambão” no morro.
    O cantor já não é representante da cultura popular brasileira e nem fala em nome do Brasil, fala pra favela, anima a festa de bicheiro e traficante e conta histórias não para a classe média mas para os seus vizinhos. Junto com o cantor chega um carregamento de cocaína e o Zé Pequeno organiza um festão.
    Quando eu li, lembrei muito do samba brasileiro dos ans setenta e oitenta. Sobretudo um samba que embora escutasse o Candeia e o Wilon Moreira, estava mais interessado nos Originais do Samba. Bem, só uma lembrança

    Agora, outra coisa que me fez matutar foi o comentário do Lucas. Acho legal a lembrança da música baiana, do samba reggae, blocos afro e do axé. No entanto, tenho a impressão que o Axé não representa mais o que existe de mais pulsante no carnaval de Salvador. Não conheço o tema, mas tenho a impressão que o pagode baiano, duas gerações depois do Gerasamba, agora domina a cena soteropolitana.
    Me corrijam se eu estiver errado, por favor. Mas muito legal o que você disse lauro

  8. DEmais mesmo, e o astral dos caras cantando Deus já deve estar de saco cheio, Coisinha mais bonitinha e Você pagou por traição na praia. O Documentáro é muito legal, fiquei afim de assistir inteiro vou acabar adquirindo com o fera! Valeu demais Tiago.

  9. Confesso que nunca parei pra pensar numa teoria abrangente como a do Thiago, muito menos em outras teorias mais específicas para o pagode ou o axé neste caso.

    Na verdade, eu lembrei do axé-80 (eu também não acho “axé” um nome genial, mas foi esse que acabou pegando) mais porque vejo algumas semelhanças com o pagode-80 do que para fazer uma comparação de importâncias. Cada um é bacana do seu jeito, em tempos e espaços diferentes.

    Por exemplo, ambos tem origens em músicas que mexem com o Brasil inteiro. Assim como o pagode tem sua origem no samba, popularizado pelo rádio a partir dos anos 30, o axé tem suas raízes no frevo e no forró, levados para o Brasil inteiro até hoje por imigrantes-trabalhadores nordestinos miseráveis. Aliás, samba e forró têm tanta coisa em comum que frequentemente são usados como sinônimos de festa – independente do som que estiver tocando!

    Sendo desdobramentos das DUAS músicas mais importantes do Brasil, o pagode e o axé também cumpriram um papel muito parecido no envolvimento da população mais pobre dos seus pólos originais com o espaço público que têm direito. Seja no Cacique de Ramos ou na periferia de Salvador, esses dois movimentos atraíram, reuniram e ajudaram de essas pessoas a ocuparem as ruas, esquinas e ladeiras da cidade.

    Dá pra dizer ainda que, mesmo depois de capitalizados pela “indústria cultural” no começo dos anos 90, pagode e axé não abaixaram totalmente suas cabeças para as gravadoras, produtoras e seguranças de área VIP. O Thiago falou do pagode baiano (Gerasamba, Harmonia do Samba, Psirico* e vários outros grupos mais novos), mas ainda existem outros tipos de resistências, desde os blocos-afro que se organizam cada vez mais no interior das comunidades carentes até os terreiros de candomblé que ainda apitam muito na organização da Bahia em geral mesmo não passando na TV.

    Eu não penso no axé como um tipo organizado e bem definido de música, mas como um baita misturado musical com enorme potencial para movimentar grandes quantidades de pessoas e dinheiro. Basta reparar nos arranjos de algumas das novas duplas sertanejas ou no aparecimento de bandas de Tchê Music no Rio Grande do Sul.

    * Por falar em Psirico, eles tocaram logo depois da Ivete Sangalo no último reveillon de um hotel em Salvador (transmitido pela Multishow). No meio do show, o cantor do grupo convidou dois angolanos que tocaram, tranquilamente, uns 40 minutos de Kuduru sem parar. Não é à toa que o Rebolation foi o hit do último carnaval.

  10. Show de bola o post… Muito bom mesmo….É sempre bom ver um texto destes, e vários videos interessantes, informações riquíssimas.

  11. eu quero saber o movimento do pagode e não tem nada escrito !
    ke bosta de site

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