Pena Branca (1939 – 2010)

Fiquei muito chateado com a morte do Pena Branca. Junto com seu irmão e paceiro, Xavantinho, ele foi dos últimos músicos que fez carreira gastando sola de sapato pelo interior do Brasil. Interpretavam a música caipira com uma suavidade e com a cara alegre que é bem típica de quem mora na roça. Gente que mesmo quando dá notícia ruim, fala com placidez e dignidade.

Além disso, Pena Branca era a história da música caipira personificada. O homem negro que adotou nome de índio em Uberlândia, no interior mineiro – perto do paulista, do goiano – que certamente viveu com intensidade a variedade de ritmos que foram criados na roça brasileira.

A diversidade tem uma ligação profunda com a mistura cultural que aconteceu ali entre negros, índios e brancos que criou o modelo do homem caipira. E que se organizou como estereótipo cultural pra virar produto radiofônico.

Mesmo com uma carreira que começou na Rádio Educadora em Uberlândia, Pena Branca e Xavantinho eram visceralmente pessoais em sua interpretação. É difícil ouvir as músicas que eles cantam (de autoria de Xavantinho ou não) e não pensar na forte carga biográfica, na vivência com que as palavras são cantadas sem nenhum traço de cerimônia.

É na música que a vida dos personagens da roça – que vivem sob forte preconceito e desigualdade social – é celebrada e que seu dia-a-dia é registrado como expressão histórica. Nessas horas, eu penso o quanto se reduz a expressão da cultura negra no Brasil, ao identificar a criação musical negra no Brasil só com o samba, o candomblé ou com as expressões black da música pop, a partir dos 70. A música negra brasileira é muito mais, é quase tudo que foi feito por aqui.

Xavantinho já tinha ido em 99, só tinha 57 anos, Pena Branca vai com apenas  71. Brasil vai ficar com saudade. Um pouco deles no Programa Ensaio de 1991:

Eles cantando a bela Cuitelinho (que não é de Sergio Reis e nem de Almir Sater).

E o Cálix Bento junto com o Renato Teixeira

13 comentários sobre “Pena Branca (1939 – 2010)

  1. Muito bom Lauro, muito bonito. Só lembro que apesar de ser suave e muito polida, a música caipira, em geral, é também muito melancólica. Não por acaso o gosto do interior pelo bolero, a guarania e os cantos de lamento.
    Acho perfeito o que você disse sobre a música negra. Pensando a partir do que está escrito aqui, pensei, pôxa, o Luiz Gonzaga também é música negra. Acho que uma leitura do sudeste da música popular brasileira, especialmente carioca, reduziu a expressão popular ao que era feito nas metrópoles do sul maravilha

  2. na verdade, Cuitelinho foi recolhido do folclore matogrossense pelo Paulo Vanzolini.

  3. “Os zóio se enche d’água e até a vista se atrapaia”
    Bom ouvir o sotaque caipira nas músicas de Pena Branca e Xavantinho, bom saber que tem um Brasil que tem cultura própria (mesmo que de influências externas), que não se massificou, que não se sujeitou por completo nem se envergonhou de se expressar à sua maneira. Espero que isso dure por muito tempo.
    Salve, caboco Pena Branca!

  4. É uma pena para a música brasileira a partida da dupla caipira de maior dignidade e bom gosto, sem concessões, correndo longe do sucesso fácil das excrescências dos sertanojos universiotários que andam pululando por aí. Fiquei chateado com a morte do Pena Branca.

  5. vocês já viram o Cio da Terra encaipirado por eles? Vale a pena. É demais.

  6. Gordo, “sertanojos universiotários” é demais! É a melhor definição para o que este pessoal faz…

  7. Nosso amigo Aluísio Milani gravou um Mosaico e com a Inezita Barroso em homenagem ao Pena Branca, deve pssar na Cultura ou já passou Organizei um show dele há alguns anos.

    Pena branca é um apelido da folia de reis… xavantinho, na dupla que montava com o outro passarinho

    Um cara bem legal

    e massa esse troço de cantor ter referência e nome em passarinho

    cuitelinho… num sabia… é o nome que recebe um beija-flor lá no Mato Grosso..

    Cheguei na beira do porto
    Onde as ondas se espáia
    As garça dá meia volta
    E senta na beira da praia
    E o cuitelinho não gosta
    Que o botão de rosa caia, ai, ai, ai

    Aí quando eu vim de minha terra
    Despedi da parentaia
    Eu entrei no Mato Grosso
    Dei em terras paraguaia
    Lá tinha revolução
    Enfrentei fortes bataia, ai, ai, ai

    A tua saudade corta
    Como aço de navaia
    O coração fica aflito
    Bate uma, a outra faia
    Os óio se enche d`água
    Que até a vista se atrapaia, ai, ai, ai

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