Depois dos videocassete e dos carro loco, é hora da Internet

O Plano Nacional de Banda Larga tem tudo pra se tornar o próximo palco de batalha midiática no Brasil. Lula defende que levar a internet em alta velocidade a 90 milhões de brasileiros é missão do Estado. O anúncio foi feito em primeira mão no twitter de Marcelo Branco, principal organizador da Campus Party, e  provocou um salto de 20% nas ações da Telebrás, contestações sobre o procedimento de se divulgar uma reunião presidencial por twitter e fez as empresas privadas fazerem biquinho.

A especulação é antiga, mas Lula disse que finalmente o terreno está pronto pro investimento estatal. A coluna do Silvio Guedes Crespo, no site do Estadão, aponta três principais motivos para essa decisão do presidente:

Uma é que o governo quer que o preço da banda larga caia 70%; outra, que as classes C e D tenham acesso à internet rápida; por fim, que a meta do governo é atingir 4.238 municípios até 2014.

A internet no Brasil é mesmo cara, lenta e chega a poucas pessoas. A distribuição do serviço aumenta a desigualdade social gigante por aqui. Mesmo com o barulho em torno da nova classe média, do acesso de bens de consumo a banda larga continua longe das cidades menores e mesmo da periferia das metrópoles. O setor privado lucra muito, mas reclama das dificuldades.

Os grupos de telecomunicações no Brasil são mesmo engraçados. Desde a década de 90, o setor se consolidou como um dos monstros de influência na política e na economia nacional e por trás do interesses desse setor se escondem personagens como Daniel Dantas, Carlos Jereissati e outras peças de muita influência e que não fazem nada bem pro país. Qualquer sinal mínimo de concorrência, faz as companhias se mobilizarem para não deixar a chama do oligopólio morrer.

O último exemplo disso foi a compra da GVT pela Telefônica. O serviço ficou mais concentrado em menos donos. Enquanto isso, banda larga popular que é bomnão tem data pra começar…

Com a entrada da Telebrás como player provavelmente a briga começa pra valer. Primeiro é saber se o governovai mesmo entrar na jogada ou se vai afinar. Os sinais do Lula parecem bem favoráveis a entrada da Telebrás na jogada. Na mensagem de abertura do Congresso Nacional lida por Dilma Roussef aos deputados, o Plano Nacional de Banda Larga foi a única medida particularizada pelo texto presidencial.

O presidente da República e mais seis ministros se reuniram pessoalmente com os representantes da sociedade civil e mandou a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, se reunir com os empresários. Deixou clara a sua disposição política de atuar não só como regulador, mas também como competidor e agilizar de uma vez por todas a situação. A única iniciativa relevante nesse sentido é o Programa Banda Larga nas Escolas, que levou conexão rápida à internet a dois terços das escolas públicas urbanas do país.

Para variar a iniciativa no Brasil nunca é privada.O papel da Anatel e do Ministério das Comunicações nessa lentidão é claro. Ao invés de estimular a competição, regular os preços e cobrar melhoria da qualidade da telefonia, a agência trabalhou pela oligopolização do setor e sufocou as tentativas de criação de um novo pólo concorrencial. Até que a necessidade bateu na porta.

A falta de acesso compromete o desenvolvimento econômico do país. O acesso à rede é um dos trunfos de indianos e chineses pra internacionalização de produção. É o outsourcing de produtos e serviços que garantiu a internacionalização dessas economias e o acesso às tecnologias que elas se apropriaram e reproduziram em seus sistemas produtivos.

Além disso, é só com o acesso generalizado da população à banda larga que o brasileiro pode se apropriar de todas as ferramentas tecnológicas e começar a criar, cobrar transparência do governo de maneira mais organizada e ter mais acesso à informação e a canais diretos com autoridades, empresas etc.

Provavelmente, muita briga vai correr solta contra a iniciativa partir do Estado, a imprensa já tem se mostrado assustada nesse sentido e já dá os seus faniquitos. É a medida mais importante do governo para esse ano e uma das poucas com relevância para um salto social e econômico, espero que o lobby empresarial e a ideologização eleitoreira da imprensa não comprometam.

12 comentários sobre “Depois dos videocassete e dos carro loco, é hora da Internet

  1. Eita, excelente tema e post.

    De prima, sem pensar muito:

    1 – Claro que o modelo atual privilegia demais os grandes fornecedores/players e prejudica os consumidores.

    2 – Com certeza concordo com qualquer iniciativa que estimule a inclusão digital. É o futuro inexorável. E o capital humano brasileiro precisa dele.

    3 – Deveria estar dentro de um plano maior, me parece, que é o de uma profunda reformulação na proposta educacional brasileira, uma discussão enorme.

    4 – Sim, acho que o Estado deveria dirigir o assunto. A livre iniciativa, ou, se quisermos, a visão neoliberal sobre o assunto, não me parece a mais apropriada. Ao menos não está funcionando aqui.

    5 – Tenho dúvidas se o Estado deveria ser provedor – ou um dos donos dos meios de produção – ou somente um incentivador/financiador/regulador eficiente.

    6 – Tá dentro de um problemaço: As Agências Regulatórias, as ANAS (ANATEL, ANEEL, ANAC etc) viraram cabides de empregos políticos e não fazem o que entendo que deveriam: estimular a concorrência / inibir os cartéis (e com isso, melhores preços e qualidade para os clientes), e garantir os direitos dos consumidores.

    Bem, como disse, de bate pronto. O que vale, me parece, é a discussão. Com certeza entendo que a razão não está nos chorões que hoje ganham fortunas provendo péssimos serviços com preços absurdos.

    p.s1.: só para exemplificar com meu drama, moro na zona rural, aqui não pega celular nem tem qq oferta de banda larga. Pago R$ 470,00/mês para um link satélite – uma antena/panelão direto na Embratel – de 200 kpbs.

    p.s2.: muitas vezes preciso usar alguma Lan House de um bairro popular que está entre o centro da cidade e a zona rural onde moro. E lá encontro a galera direto e reto, usando o que não tem em casa. Fico feliz de ver e confirma o acerto do post. O que entristece é saber que os usos, muitas das vezes, é bem bobo, pouco educativo, de BBB para baixo.

  2. O plano mais revolucionário que vi nos ultimos tempos foi o da campanha da Marta nas ultimas eleições que era de ter internet grátis em São Paulo toda. Custava 50 milhões, segundo a propaganda. O Kassab, que já estava prefeito, disse que ia aproveitar o plano dela. Balela.
    O fato é que as LAN são um fenômeno de inclusão. Se fosse grátis, imagina quanto melhor. Imagina o impacto no trânsito. E o acesso à informação, ao ensino, e o fornecimento de um serviço a partir da favela de graça… Imagina a praticidade de não ter que ir no banco para a população mais pobre… Revolucionário em vários aspectos… Vc pode não gostar da Marta mas….
    A burrice do Kassab é não copiar a ideia da Marta… mas ele deve ter boas razões para isso. Alguma ideia?

  3. Qualquer político de qualquer esfera que implantar a web grátis terá seu manto de glória. O lobby das empresas de comunicação pode chiar. Mas seria bem razoável web a 3 mega grátis pra toda população. Wi-Fi geral! Quem quiser mais que isso paga. Ai dá pra manter o publico e privado. Já que a web na Coréia já tá em 100 mega, é uma pechincha!

  4. Concordo com o Gus e tb acho que implantar a web grátis é indispensável. Qualquer país com projeto de futuro deve ter esse horizonte. No Brasil eu só conheço um caso nesse sentido que é o projeto Floresta Digital. A coisa ainda tá começando, mas tem muito a ver com o que a Marta queria fazer.

    Quanto ao fato do governo entrar como provedor, eu acho que diz mais sobre o comportamento do setor privado e da voracidade por dinheiro público.

  5. Uma coisa a ser considerada mesmo é o impacto no trânsito. Na hora que milhões resolvem seus afazeres pela web e não precisam sair de casa… É miopia dos políticos não enxergarem isso. Quem for o “pai da web grátis” ganhará a eleição.

  6. Muito bom o post.

    A banda larga é muito cara no Brasil e o serviço é de péssima qualidade. Fora que ainda eles fazem uma propaganda enganosa, já que falam que a internet é de 3 mega, mas na verdade eles garatem só 10% da velocidade.

    Quando vai se reclamar das empresas privadas elas alegam que a carga tributária é alta, mas se você verificar os balanços das empresas que prestam esse tipo de serviço, você vê que as margens são altíssimas em relação as matrizes ou concorrentes de outros países.

    Acredito que o Governo tenha que entrar com a mão pesada na regulação, por que se deixar na por conta das empresas, daqui a dez anos, vamos estar na mesma “inhaca”.

    Abs.,

    PR.

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