Recado na parede

Lauro no Guaciara, por Eugenio Vieira (http://www.flickr.com/photos/eugeniovieira/1489937782/in/set-72157603725940046/)

Como eu demorei para escrever o post comemorativo de um ano do blog, fica  aqui a homenagem aos grandes amigos que tocam o site comigo e que passam por aqui.

Não sei como era a temperatura do lugar onde os pioneiros do paleolítico resolveram se refugiar. Devia ser brabo. Eles precisaram esconder-se nas fendas que se abriam no chão e nas pedras: tal como cavernas, grutas e gargantas.

Neste mês deste ano, prefiro elaborar o raciocínio não nos termos do que aprendi com a paleontologia, arqueologia, em textos vagabundos de história da civilização ou no livro do Lewis Mumford, mas a partir da minha experiência com a caricatura americana: dos Flinstones e do Elo Perdido. Inventar como o pessoal da época devia inventar naqueles desenhos que deixavam na pedra, só para render um papo.

Por isso, parece legal supor que eles fugiam de um calor tal como o que fez no Rio de Janeiro nos primeiros dias do primeiro mês do ano. Com a pele castigada pelo sol, não dava para continuar atrás daqueles mamíferos gigantescos, de subir em árvore, de bater perna por aí. Melhor entrar em algum lugar mais ameno, com sombra, lugares para encostar e  água fresca.  Ficar por lá, conversando fiado, emitindo sons e tentar conhecer outros nômades que estavam por lá.

Lá dentro do buraco, em um determinado momento, o pessoal resolveu contar o que aconteceu com eles. Falar o que ocorria com quem vinha do leste para o oeste para quem ia do sul para o leste. Registrar algumas coisas e, assim, eles  criaram algo maior que a linguagem, maior que a cultura: algo como o que faríamos com a história bem recentemente.

Porque não se devia apenas contar e marcar o que acontecia de um lado para o outro, mas alimentar a imaginação e, coerente no meu anacronismo, alimentar a conversa e um universo de imagens e linguagens compartilhadas que quem passasse por lá podia levar adiante. O lugar tornava-se um monumento. Um lugar para se estar.

A idéia do blog teve muito a ver com esses desenhos e registros em cavernas. Quando o Lauro propôs a idéia para os moradores originais, o que eu achei mais legal foi a possibilidade de deixar coisas por aqui e as pessoas poderem olhar e conversar. Falaríamos sobre tudo com os nossos amigos e com gente que nós nem conhecemos.  O Guaci sempre foi um lugar para se estar. Um lugar melhor que qualquer outro que eu havia morado desde que cheguei em São Paulo.

Quando me mudei para o prédio pensei, pronto, agora dá para fazer festa, para combinar outras coisas e até para inventar um pouco, como eu fazia lá em Pouso Alegre. Sobretudo por estar com o Lauro e o Jay, depois com o Demétrio, o Alê, o Marcão e o Ede: os meus chapas.

O Guaciara sempre foi um lugar muito gregário. Onde os amigos podem fugir das piores roubadas ou aparecer nos momentos em que ninguém tem nada o que fazer. Não custa lembrar que, pra cá, já veio gente que separou da mulher (ou do marido) e que a casa caiu (como ele mesmo afirma, em todos os sentidos). Muita gente do Brasil e do mundo se hospedou aqui quando veio para São Paulo.

Mas o Guaci acabou entusiasmando as ambições de alguns dos moradores. Já tentamos desdobrá-lo em sessões periódicas de filme, em uma coleção audiovisual e em um lugar para festas improvisadas, inventar histórias e rirmos de nós mesmos. De tudo o que inventamos, o que deu mais certo foi o blog.

Nele, aprendi uma porção de coisas. Embora 2009 tenha sido um ano muito movimentado, conseguimos conversar uma porção de assuntos e apresentar uma porção de coisas que nós gostamos para os outros.

Isso fez um bem danado para mim, justo na época em que tinha menos tempo para conviver com os outros. Mas, ao menos, conseguia alimentar uma ilusão quase doentia que tenho, que eu faço algo que melhora a minha vida e a dos outros.  Não tenho muita vocação política e sei que a política institucional tem seus limites. O jeito que arranjei para me iludir foi mostrar as coisas que eu gosto para todo mundo. Mas sem exibicionismo e nem pouca vergonha.

Embora esses meios eletrônicos tenham algo de trágico na aproximação das pessoas, pois dizem que esse espaço na vida concreta é cada vez mais reduzida, acho que é e será muito legal ter esse blog. Conheci muita gente e assuntos que eu não tinha a menor idéia. Mostrei idéias que eu escondia e textos que estavam esquecidos. Só posso agradecer.

20 comentários sobre “Recado na parede

  1. Bom demais o texto Tiago, fiquei emocionado até. Ninguém melhor pra falar do Guaci do que seu guardião e principal mentor intelectual.

  2. Bom…eu queria só registrar que o sentinela do Guaci é uma das figuras com quem eu mais aprendo nessa vida e mudar para a ministro godoy foi uma das melhores coisas que eu já fiz. Ali, além da mais pura e líquida descontração, eu fiquei muito mais chapa de gente que eu não consigo mais ficar longe, mas principalmente dele e da governanta do lugar, o Jay. Aliás, dois, que dia é a próxima bebericagem na semana que vem?!

  3. lorose no mais puro estilo, guaciara impecavel!

  4. tiagose no mais puro esmero linguistico!
    cativeiro acolhedor!

  5. Texto lindo Tiago, emocionante… Não conheço o Guaciara e cada vez gosto mais.
    Bjocas

  6. Casa caiu, Guaci surgiu. Salvo pelo Guaci, viva o Guaci!! Viva o Guaci!!! Vivam o Guaci!!!

  7. Opa, falei do milagre mas não contei o santo. Foi o demétrio que viveu essa história do desabmento. Aliás, foi ele que me ensinou o que era essa cidade. Muito legal o que você escreveu aqui.
    Demais as considerações do Waldomiro de London. Esse apreciou o cati. De resto, embora o laurose me dê mais honras do que eu mereça, acho que sou eu que morei aqui o tempo todo. De certa forma, tenho o usocapião daqui.
    Por fim, demais ler de quem conhece esse lugar tão bem, e de quem ainda há de conhecer.
    obrigado

  8. Obrigada a todo pessoal do Guaciara por proporcionar um espaço tão aconchegante e discussões tão esclarecedoras!

  9. Bingo!

    E você conhece este conto, Lauro?

    Tem num livro chamado “A Grande Muralha da Chica” com dois contos. Um sobre o título e o outro esse tal, o “A Toca”.

    Li faz um tempão, mas comprei o livro depois para meus “guardados”.

  10. Escrevi errado, é “A Muralha da China”. E vi agora, procurando no mr Google, que tem outra título traduzido “Na Construção da Muralha da China”. Fala, basicamente, o que movia aqueles caras que iniciaram a construção que iria durar séculos, ou, que motivação teriam se nem suas mais remotas descendências seriam protegidas por elas. E toda a “filosofia kafkiniana ou kafkiana” desse pensar.

    Acabei achando uma edição, na Europa, só com o conto A Toca. Aqui: http://www.wook.pt/ficha/a-toca/a/id/2990804

    A que comprei, que tem os dois livros juntos, foi em Lisboa, um livro de bolso. Nem sei se consigo achar mais aqui na minha bagunça.

    Onde quero chegar? Ufa, passar por mentiroso é que não dá. Abração, e, mais uma vez, feliz aniversário para o blog. Gosto muito daqui.

  11. Lauro,

    Não tinha visto, obrigado. Ando numa correria que o blog está, digamos, desatualizado. Todos os grandes escândalos, acho eu, estão colecionados, mas a completude da coleção está deixando um bocado a desejar.

    Super obrigado pela lembrança.
    Abraço

  12. vida longa ao guaciara! E que continue nos trazendo sempre coisas variadas e pertinentes. De minha parte posso dizer que sempre aprendo muito com vocês. Parabéns!

  13. Opa, pra quem me ensinou tanto, dizer que aprende comigo é um baita elogio. Obrigado Rgério
    Pax, sua presença aqui é muito bem vinda sempre

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