Dilma disparou no Guaci

Clique aqui e defenda o PNDH

Continuo um pouco a onda da egotrip Guaciara para conversar sobre um fenômeno muito interessante que aconteceu no blog recentemente. Como vocês viram no meu post anterior, o maior sucesso aqui é um texto chamado Depois da Ditabranda. Até dois meses, essa discussão não estava nem entre as dez favoritas do Gua Gua.

Eis que o termo mais procurado entre os que chegam aqui via buscadores, como o Google,virou “guerrilheira dilma roussef” no final do ano passado. Acho que isso tem muito a ver com três tópicos que andam (ou andaram) bem em voga pelo Brasil recentemente.

Um é a contestação a qualquer Conferência Nacional. Já tratei do tema aqui antes, mas o novo tópico é que esses grandes eventos – comuns no Brasil desde a redemocratização e dinamizados depois da ascensão do PT ao poder – são um reduto da esquerda “radical e imprudente”. São um local de expressão de imprecisões e de visões exóticas da sociedade.

É o típico comentário de quem nunca pôs o pé nessas conferências. Na verdade, o evento reúne gente necessariamente envolvida em uma causa, em uma questão pontual. Por isso, reúne especialistas no tema. Gente interessada em construir políticas públicas bem delimitadas. Muitas vezes, a presença desse público necessariamente qualificado e interessado estimula o boicote de quem se põe acima da sociedade.

E é verdade, em vários desses fóruns há um ponto em comum: as grandes indústrias de comunicação desfavorecem as culturas locais; trabalham em favor de poderosos e antigos grupos políticos, principalmente nos municípios e cidades com economia mais pobre e menos diversificada; e, terminantemente, defendem um ponto de vista que só tem o o objetivo de fazer o capital delas crescerem.

Nada mais justo para uma empresa capitalista, mas a sociedade tem o dever de fiscalizar esse comportamento para que ele não se torne um canal privilegiado de geração de lucro, de construção de poder e de delimitação das expressões culturais. Pergunta pra um americano que gosta de música independente ou de uma programação radiofônica menos careta o que os Clear Channel da vida fizeram com as cenas musicais nos Estados Unidos?

E eis que qualquer diálogo em favor da construção de um marco regulatório para um setor da economia se tornou pretexto para o escândalo. Uma gritaria que necessariamente se converte na criação de um novo personagem eleitoral que tem muito a ver com a pecha de “baderneiro”, “grevista”, “bagunceiro” que os militantes do PT carregavam até 2002 – a do petista como guerrilheiro stalinista, que quer impôr um novo regime ao gigante verde e amarelo.

Como disse um amigo meu outro dia, “não é possível que esses caras não dêem umas risadas ao escrever essas matérias sobre controle social da mídia. O governo Lula não consegue aprovar nem a prorrogação da CPMF. Queria ver se fosse antidemocrático.”

E essa não tão nova pecha de “terrorista de esquerda”  me leva para o segundo assunto. Em artigo publicado na última edição da Novos Estudos, do Cebrap, o cientista político André Singer defende que Lula com os programas sociais, os créditos de moradia e a elevação do salário mínimo conquistou um eleitorado arredio a qualquer tipo de coisa como greves, guerrilhas ou simples movimentos de esquerda. São pessoas mais pobres, fora dos movimentos sociais, necessariamente desorganizadas que gostam das mudannças sociais sem sobressaltos na ordem.

O que o ex-porta-voz de Lula defende é que o presidente conquistou uma nova base social que combina conservadorismo político com uma posição favorável às políticas sociais. E aí é que a oposição vem testando um discurso.

O subtexto é que Dilma Roussef não é uma gestora pública qualificada, mas uma “terrorista”. Muitas vezes, quem lê os jornais acredita que todos inimigos da ditadura militar nada mais eram que versões brasileiras e maconheiras do Bin Laden, em uma inversão de valores que eu acho cada vez mais perigosa. E isso faz a gente voltar às Conferências Nacionais e essencialmente ao 3º Plano Nacional de Direitos Humanos.

A festa dos conservadores brasileiros (principalmente na imprensa) com a vitória de Sebastián Piñera e seu grupo pinochetista no Chile só reforça essa posição de que “os inimigos do militarismo são uns arruaceiros”. Antes disso, os grupos empresariais de mídia e a oposição já tinham mostrado seu pouco apreço à democracia defendendo o golpe autoritário de Honduras.

É bom lembrar que em 2002, ao chamar Lula de analfabeto, e em 2006, ao acusar o Bolsa-Família como esmola, a oposição não mais fazia do que ofender indiretamente uma boa parte da população brasileira, que tinha vivido sob os mesmo padrões do presidente e que era beneficiada pelos programas sociais do governo do PT.

Para eles interessa uma revisão bizarra da ditadura militar, em que não se diferencia a resistência dos torturadores. Em que a política de repressão é justificável. O pior é que tudo é feito em nome de uma falsa manutenção da Lei da Anistia, falsa por que nunca ninguém propôs em se romper com a legislação.

Chamar o desejo mais do que legítimo de se conhecer a história de vingança, é o que esse grupo quer. Por que o que interessa eles é uma verdade seletiva que exclui, necessariamente, a luta pela democracia do horizonte da oposição à ditadura militar. Todos se igualam aos orangotangos da tortura e da violência repressiva de Estado do governo militar. É isso que defendem os historiadores, geógrafos e “especialistas” de estimação dos patrões da imprensa.

A polêmica do PNDH, como já mostrou o nosso chapa Raphael Neves, acabou demonstrando a incapacidade da minoria da oposição de aceitar resultados democráticos e como isso é comprometedor para a realização dos princípios mais básicos que constituem a república brasileira.

Ainda não sei qual pode ser o efeito disso nas urnas no final do ano, mas na história do Brasil, sem dúvida, essa requalificação de um regime violento, excludente, incompetente e assassino nada mais é do que um insulto.

14 comentários sobre “Dilma disparou no Guaci

  1. Lose, explica aí pros pobres mortais iNgnorantes como eu do que se trata esses Clear Channel. Faltei nas aulas de história contemporânea dos Estados Unidos.

  2. Desculpa Arthur, o Clear Channel (http://www.clearchannel.com) é uma rede gigante de emissoras de rádio nos Estados Unidos. O grupo de mídia hoje detém 1500 emissoras pelos EUA.
    Nos anos 90, eles compraram quase todas as emissoras locais e impuseram uma programação padrão a quase todas elas.
    Muita gente fala que isso esgotou uma série de cenas locais de rock, rap, música folk etc., por que enquanto o Clear Channel só queria um espaço no dial pra sua programação, as outras emissoras haviam crescido na divulgação da música local.
    O Wayne, do Eternals, fala que isso fez o circuito de shows para bandas locais diminuir significativamente. Ele fala que bandas como o Love, Ohio Players e muitas outras sobreviveram nesse circuito de rádios e casas de shows locais por muitos anos.
    No Brasil isso acontece muito. Na Feira Música Brasil esse tema foi recorrente. Ao invés de serem o primeiro canal da música local, as emissoras cada vez mais repercutem uma programação idêntica.

  3. eu espero que um dia essa onda conservadora vire um lance de subcultura, tipo neonazismo. mas os sinais são mais ambíguos mesmo. a direita aposta na truculência e na desinformação, duas táticas ironicamente stalinistas. de certa forma, precisam dos “descamisados” da maneira como eles são: pobres e temerosos de que o que é ruim fique ainda pior. mora aí a diferença fundamental entre populismo e política social – tanto (já tive esse papo com o Arthur, logo na época do caso da moça da Uniban) que o resultado da expansão da classe média no país pode ter como resultado a formação de um eleitorado conservador, que tende a votar nos partidos de direita. o cara entra na faculdade, subindo um degrau nos índices de ascenção social, mas chegando lá, vira um maluco reacionário, uma multidão expulsando aos gritos uma colega como se fosse sessão de descarrego.
    a oposição tem uma agenda muito fraca para esse ano, e acho que no fim vai apostar nesse tipo de estratégia.

  4. esse tipo de coisa me deixa com um sentimento de desanimo profundo em relação ao Brasil. 1964 játem 45 anos mas a igreja, o latifundio, a grande mídia, o capital e o exército continuam mobilizados em suas células corporativas dispostos a manter seus rincões de poder na sociedade a qualquer custo e contando com uma simbiose assustadora. O Brasil ainda não cosnegiu ultrapassar o estágio de proibir crucifixo em sala de tribunal. Nossa lei de aborto é uma das mais atrasadas do mundo, o tema continua a ser discutido como assunto de padres. Psicopatas que serviram a um regime de excessão são tratados como equivalentes aos que lhe impuseram resistência, até hoje não existe uma legislação que regule a propriedade cruzada na mídia, enfim…fica dificil considerar os avanços quando o Brasil continua a ser em tantos aspectos um pântano medieval.

  5. E depois de dar uma olhada por aqui, o Demétrio me mandou um precioso material por e-mail.

    É uma pesquisa sobre a 1º Conseg (1º Conferência Nacional de Segurança de Pública). Acho que o material pode ser muito útil pros nossos papos.

    O link é o seguinte:

    http://www.conseg.gov.br/index.php?option=com_docman&Itemid=310

    A pesquisa chama “Redes sociais, mobilização e segurança pública”, é só clicar e baixar o pdf.

    Vale a pena ler.

    O que me entristece mais nessa história toda é que as mesmas pessoas que detonam todas as Conferências Nacionais se recusam a ser agentes políticos ativos, mesmo quando o debate diz respeito a eles (a Confecom é o exemplo mais gritante disso). Daí seguem a desqualificar quem se mobiliza nesse sentido.

    Eu acho que esse aprofundamento da democracia é sem dúvida um espaço chave para se confrontar valores e para colocar as questões políticas mais longes da superficialidade.

    Só com a institucionalização desses meios que a gente se afasta do perigo de um conservadorismo autoritário – comentado pelo Jay – e desse pântano medieval, que o Rodrigo falou.

  6. P.S. A pesquisa foi pela Thais Pavez, pela Renata Gonçalves (leitoras do Guaci) e por mim (também leitor e colaborador bissexto do blog).
    Boa leitura!

  7. e infelizmente o Lula recuou também na questão do aborto. Lmanetável. Com a popularidade que tem se alguém poderia comprar essa briga é ele. Minha esperança é que a Dilma que não tem a mesma genialidade política (quem tem?) mas uma visão de país muito mais ideologicamente delineada, faça avançar essas agendas mínimas. Caramba, isso e o mínimo. Mas primeiro é preciso ganhar.

  8. Também acho que a briga pelo aborto era muito importante, bem como a do casamento gay. O Lulal, que declarou apoio público à causa, poderia sustentá-la sem medo de apanhar.

  9. aborto e casamento gay realmente foram bola fora. A legislação brasileira quanto a isso é mais atrasada do que muitos países latinos.

  10. Menino César corrige os amigos erquerdinhas:

    PNHD III = Programa Nacional-Socialista dos Direitos Humanos.

    Vou detalhar: onde Nacional-Socialista podemos ler também como NAZISTA

  11. É dose. Um amigo meu, super liberal, outro dia me contou que um desses colunistas blogueiros alugados disse que a Polícia de SP é superior à SWAT. O absurdo não tem limites. Acho essa repetição de slogans da internet de uma miséria argumentativa sem tamanho. O sujeito nem conhece o plano, mas é contra, porque ser contra está no pacote.

  12. Realmente, o absurdo não tem limites: “Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de prender as pessoas em função da legislação de Cuba, como quero que respeitem a do Brasil”. (LULA)

    OBS: Sou contra tudo o que o PT fez, faz e fará.

    “Ô sono viu…”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s