Os midiáticos

Quem já passou um tempinho em redações sabe que a dificuldade em conseguir fotos gráficas e chamativas para uma publicação é um dos dilemas para quem cobre o jornalismo de idéias. Quando se escreve sobre literatura ou pensamento sobra pouca coisa para se registrar que não a foto do autor e a(s) capa(s) do(s) livro(s) sobre o qual se fala.

Muitas vezes o discurso do sujeito em si pode parecer meio cifrado pro leitor comum de jornal.

Os problemas dessas pessoas acabaram – no sentido mais tabajara possível -quando fundaram a instituição do colunista coringa, do intelectual midiático. O sociólogo Pierre Bourdieu em Sobre a Televisão, por exemplo, se dedicou a estudar esse nicho intelectual que ele apelidou de fast thinkers. Aos leitores que buscavam o debate perdido em meio a tantas fotos e propagandas de sapato e bolsa, a impressão era de que finalmente havia um cantinho pra saber o que as pessoas estavam pensando, quais eram suas dicas.

O papel deles no princípio parecia ser esse mesmo: introduzir assuntos e estimular o debate. Só que com a polarização ideológica no Brasil pós-democratização, esses personagens se tornaram uma espécie de Marlene ou Emilinhas das redações. Aparecem nas revistas, recebem toneladas de cartas dão verniz de autoridade para os jornais e palavras prontas para os leitores repetirem com seus amigos.

E parece que o leitor precisa de declarações definitivas e burras como: “não há literatura no Brasil”, “arte contemporânea é empulhação”,”o Brasil não é um país racista”, “Lula manchou sua mão de sangue por causa de um acidente de avião” etc.

Na atualidade, eles mais que isso, preferem dar passa-moleque nos inimigos do proprietário do jornal. A fauna à disposição dessas redações é variada e raramente faz alguma diferença na produção acadêmica brasileira. São quase sempre muito irrelevantes no campo de pesquisa onde atuam, mas mobilizam e direcionam um leitor “media oriented” que dificilmente acredita em produção cultural fora do escopo das grandes empresas culturais e/ou de comunicação.

Talvez na economia, o debate nos meios de comunicação seja mais criterioso e intenso pelo impacto que cada opinião pode causar no bolso de quem investe.

O fato é que, se esses personagens circulavam só no campo das idéias, há algum tempo também existem versões midiáticas para as artes visuais, para a literatura, para a política etc. No geral, são de novo personagens que causam estardalhaço nas páginas de jornal e revista, na Internet e na tela da TV, mas que fazem pouquíssima diferença na sua área de atuação e mesmo na sociedade como um todo. O nicho deles é o cada vez mais reduzido público de revistas e jornais. Mesmo por que na maior parte do tempo requentam preconceitos ou debates muito antigos.

O problema é que ao invés de ter o papel de introduzir um assunto, no Brasil, esses personagens têm sido agentes de mistificações e preconceitos. Ao invés de serem um radar do que vem sendo pensado na academia, nas esferas dos três poderes ou nos estúdios e galerias de arte, esses sujeitos têm atuado como avalizadores da ignorância e do erro.

Nas artes, por exemplo, isso se transformou em uma campanha irracional contra a arte contemporânea. O papel dessas figuras midiáticas não é convidar o público a conhecer coisas novas, mas servir como um filtro pra tudo que ameaça a limitação intelectual. É o discurso da facilidade em si, mais ou menos assim: “se você não conhece, é melhor nem conhecer. É coisa sem sentido pra uns esnobes metidos a besta.”

O problema é que essa lógica de palavras fáceis, com alto potencial de marketing e baixíssimo potencial de reflexão se espalham além do debate intelectual e agora se transformam também em:

– imagens – em que as artes visuais têm de ter imagens fáceis de se identificar e atreladas a uma tradição que se encontra em qualquer enciclopédia. Qualquer distropia é vista como “empulhação”.

– cinema –  em que o maior desafio ao espectador tem de ser a descoberta das referências pop do diretor. A narrativa tem de ser linear, os diálogos naturalistas, de preferências com algumas sacadas…

– música – em que a seqüência de notas não pode ter estranhamentos e as canções têm de grudar, qualquer coisa nova tem de estar no arranjo, no usode alguma nova tecnologia ou na distribuição comercial. (Ah, e música é exclusivamente feita para ser gravada).

– e literatura – Onde a narrativa tem de ser necessariamente fluente e em discussão com gêneros e temas próximos da literatura americana. Fora disso nada é suficientemente “universal”.

A campanha contra tudo que saia do gosto médio não deixa de ter o mesmo sentido da grande indústria cultural que quer todos assistam os mesmos filmes, escutem as mesmas músicas e tenham uma opinião parecida sobre o mundo.

Em todos esses campos, a criação artística é classificada mais como uma definição do estilo de ser da pessoa do que como uma maneira de refletir sobre o mundo. Uma coisa parecida com a moda. O gosto expressa as escolhas da pessoa, a bandeira que ela veste, o grupo social com que ela se relaciona.  A relação é sempre de adesão ou repulsa, nada além disso.

O esforço de criação fica só na tradução das palavras dos outros para a do leitor/espectador. Às vezes, nem isso…

14 comentários sobre “Os midiáticos

  1. mas será que não tem um outro lado também não? será que não se radicaliza também um certo fetiche pelo conceito e pela originalidade formal? não acho que tudo que não seja vanguarda automaticamente possa ser inscrito como acadêmico. E me incomodam conceitos como “narrativa clássica”, como se toda a história se resumisse a preparar o mundo pra chegar em James Joyce. Meu critério de apreciação artistica nunca fugiu muito da capacidade de uma obra me provocar reflexão, criar novas perpectivas de percepção e me emocionar sem recorrer a sensorialismos.Meu problema com as vanguardas vem exatamente do discurso de ruptura como um fim em si. Como se não bastasse formular uma nova estética mas também destruir o que lhe seja oposto. Se dependesse dos concretistas todo mundo leria Souzandrade e ignoraria Jorge de Lima. Isso que durante muito tempo teve um caráter desafiador hoje me chega como estratégia marqueteira de gente muito bem posicionada. Mas concordo com quase tudo que o Lauro escreveu. A tentativa de acomodar toda a pluralidade de formas possíveis a um gosto mediano e massificado é assustador.

  2. Rodrigo, se tem gente que está por baixo hoje em dia são os concretistas. Na verdade, eles são muito melhores do que a maioria.dos seus detratores. Também vejo uma porção de problemas, mas a intolerância deles não me parece maior que a desses colunistas culturais. Além disso, o trio noigandres, apesar da ortodoxia, apresentou para o Brasil uma série de autores e compositores importantes.

    Também acho que eles interpretaram a cultura do século XX como uma via de mão única e que isso era um problema. No entanto, na via deles, pelo menos, existia a a possibilidade de se modificar o significado do que era arte. Não por acaso eles elogiaram desde os artistas concretos e neoconcretos, mas também se interessavam pelo Japão, pela tropicália, pelos Mutantes e etc.

    Para esses Romanos de Santanna (de resto um crítico kitsch) e outros colunistas de jornal nem isso é possível. eles parecem falar contra toda a ousadia o tempo todo. Arte para eles deve representar uma dada manifestação de identidade. A visualidade se parece com o que eles consomem. Acho intelectualmente muito miserável.

  3. Acredito que os impressionistas não foram bem recebidos pela crítica em seu início. Quantos quadros Van Gogh vendeu em vida? Os concretistas? Idem.

    Escrever para os outros é bem diferente de escrever para si, sobre sua própria avaliação, se é que há um bagagem de conhecimento capaz de produzir uma. Querer público é um fato, real, “concreto”, pagável até. Fazer crítica séria significa, digamos, outra coisa. Falar o que todo mundo quer ouvir é bem mais fácil que tentar entender o novo. Ou criticar (com viés de aceitação ou não) o que existe e influi na sociedade.

  4. Tiago, não acho que os conncretistas estejam assim tão por baixo. O movimento é considerado uma das etapas fundamentais da cultura brasileira no século XX. E a herança do que eles deixaram é muito bacana, o tropicalismo, o filme Pátio do Glauber que é o melhor curta metragem que eu já vi na vida, Leminsky, Arrigo Barnabé.O meu problema era essa via de mão única que voce mencionou. Afonso Romano de Santana eu simplesmente desconheço. Pra mim tá num nível de um Roberto Drummond. Nem sabia que ele fazia crítica de arte.

  5. |Primeiro obrigado pelos comentários do Rodrigo, do Tiago e do Pax. Vou tentar responde-los aqui, mas nem sei se dou conta, mesmo por que as questões se ampliaram bastante com os comentários.

    Rodrigo até me incomoda bastante esse tipo de comentário que só aceita o que é novo e que propões novas formas o tempo todo, em que a arte é revolução permanente. Mas acho que esse tipo de coisa é hegemônico em espaços muito restritos.

    O problema do jornal pra mim é esse nivelamento na base da polêmica. A idéia não é pensar ou sugerir uma questão, o tom é sempre o da polêmica e o “cartas para redação por favor”.

    É bem o que o Pax diz. E o que me incomoda nisso é que nos jornais, os novos conceitos atualmente,são sempre uma celebração do status quo.

    Nesse sentido se consagrou uma arte (que não necessariamente é ruim) que tem de apelar pro imediato, que exige pouco do espectador.

    Tudo que exige um pouco mais vai pra prateleira do acadêmico, do chato, do pouco claro, tudo por que o debate não vem tão pronto. Também acho que isso pode também ser reflexo de um debate acadêmico que às vezes gira em torno de si próprio, mas reduzir a questão a isso é bobagem.

    No sentido mais político, o personagem do intelectual midiático é só um escudo dos veículos de comunicação pra defender seus próprios pontos de vista.

    Essa falta de vontade de se entender o novo é muito ruim pro país.

    Gosto dos irmãos Haroldo e acho que se não conhecesse o Afonso Romano Sant’Anna minha vida teria 30 minutos a mais de tranquilidade.

    Continuema conversa que está boa a coisa por aqui.

  6. lauro, parabéns pelo post. olha rodrigo (prazer, rafa) acho que, por via das dúvidas, vou no desconcerto sim. deve ser minha teleologia. veja bem, se o cara falou uma coisa que te incomoda muito, uma forma que vc não consegue encaixar em uma relação cusal histórica mais auto-explicativa, se ele não tranquiliza, acho que vale a pena dar uma conferida (não se ele te irrita por um comentário racista, ou por ser muito lugar-comum) mas se ele, por exemplo, rompe escancaradamente uma tradição e não paga determinado imposto. acho uqe sempre vale a pena ver o que o cara tem pra dizer. é que nem futebol: se o cara faz uma coisa de forma diferente de todo mundo e está escalado pra jogar, vale a pena tentar ver o que o técnico e os colegas viram nele. uma abraço a todos

  7. realmente Lauro, os intelectuais midiáticos perceberam um nicho e se prestam a amplificar opiniões que são da própria grande imprensa . O melhor jeito de interditar um debate não é censurando e sim desqualificando as opiniões e especialmente os emitentes de opiniões contrárias.
    Agora que é consenso que o Afonso mando não é uam voz qualificada gostaria de saber a opinião de vocês sobre esse cara aqui. Luciano Trigo. Ele era um bom crítico de cinema e sempre me pareceu um sujeito sério.

    http://www.lucianotrigo.blogspot.com/

  8. Oi Rodrigo, eu acho ele até um jornalista legal. Tem uma entrevista do Bourdieu que eu linko aí que é ele que fez, mas acho que ele comete alguns erros como crítico que é destacar a parte como todo.

    Outro dia a Folha publicou um texto dele sobre uma tal de Sarah Maple, que o blog do Nassif republicou. Acho que vale a pena ler o texto, mas ler tb os comentários do Tiago (no post) sobre o assunto: http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/01/12/a-empulhacao-na-arte-contemporanea/.

  9. Prazer Rafa, gostei muito da sua comparação com o futebol e acho que é um ótimo balizamento. Craque pressupõs técnica elevada mas tem muitos jogadores interessantes sem tantos recursos que chamam atenção por um outro motivo. E nem sempre técnica torna o cara interessante. O Denilson mesmo tendo técnica era dispensável e o Robinho tá indo pelo mesmo caminho.É fantástico quando aparece um time como a Holanda de 74 que descontrói todos os conceitos estabelecidos sobre as funções dos jogadores em campo, ocupações de espaço e tramas táticas, mas tem que fazer gol, né Rafa? a Holanda fazia gol pra cacete.

  10. Rodrigo, acho que você matou a questão da técnica quando falou do futebol,. Concordo com você. Mas acho que tecnicamente o Denílson é ruim, aliás, porque ele não entende a sua própria técnica. Acha que futebol é firula. Isso é uma questão técnica. é como achar que tocar bem é fazer firula, não música e desenhar bem é seguir os modelos de desenho do século XVII e não elaborar uma obra visualmente interessante.
    Acho que o que falta nesse pessoal que, por exemplo, mete o pau na arte contemporânea como um todo homogêneo é falar do que eles gostam. Até agora eles não mostram as armas. Aí, quando falam, aparecem uns Sirons Franco, Vik Munizes da vida.

  11. a vida andou corrida e fazia um tempo que não passava por aqui. demais o post, viu, laurose!

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