LULA E FHC, continuando a conversa do Polítika etc.

No Polítika etc. o Raphael Neves voltou ao tema das distinções e semelhanças entre o governo dos últimos dois presidentes brasileiros.  É um tema recorrente em mesa de boteco.

Quem não gosta do Lula costuma ler todas as qualidades do seu governo como conseqüências do governo Fernando Henrique. Quem odeia os tucanos só vê problemas, mesmo na estabilidade da moeda e na Lei de responsabilidade fiscal e na melhoria da instituição da receita federal (embora saiba-se que a gestão do Everardo Maciel não foi tão técnica quanto ele costume alardear por aí). Eu sou eleitor do Lula e vejo muitos problemas de condução da política de estado sob FHC, mas ele tem alguns méritos.

Agora, quem coloca atribui todos os louros à FHC nunca me convenceu. Ninguém responde por que o segundo governo FHC foi tão mal avaliado. Aliás, nem acho que tenha sido tão ruim quanto a população brasileira julga, olha que eu não me vejo votando no ex-presidente para nenhum cargo.

É claro que as políticas de Lula não rompem com o Real, no que fazem muito bem, mas isso não significa que sejam iguais às do seu predecessor. Goste-se ou não do presidente, é inegável que Lula recebeu o país em uma situação muito difícil. Existia o risco de não se ter o suficiente para pagar a dívida. Em oito anos, o ex-presidente tucano dobrou o número da relação dívida/PIB. Se saiu de uma relação de 20,7% para outra de 37,4%.

Além disso, o Brasil era muito vulnerável às movimentações internacionais de capital. A qualidade do investimento era ruim. Fora o investimento em privatizações, o resto do capital internacional que circulava aqui era muito volúvel. Diante da maior crise dos últimos setenta anos, o Brasil se saiu bem.

Abaixo, mostro algumas das diferenças que me parecem sensíveis entre um governo e outro, mas é só um começo de conversa. Não entendo economia, portanto muito do que falo aqui é leitura de curioso e muito eu aprendi com grandes amigos, sobretudo o Murilo Brasileiro, o Alexandre Brito Rocha e o Demétrio Toledo.

Na política econômica mais fundamental parecem existir mudanças importantes na política de Lula em relação a FHC. A primeira foi a resolução do problema da dívida externa. O Brasil pagava os montantes em dólar, ao se negociar com sucesso a passagem das parcelas para o real, o país pode resolver o problema de décadas. Foi um processo duro, que custou um ano de popularidade do Lula mas que foi muito bom para o país.

Outro aspecto da maior importância foi o crédito, como foi lembrado pelo Raphael Neves em post no Polítika etc. O acesso a recursos a serem transformados em dividas às pequenas empresas  e à população de baixa renda aqueceu o mercado interno.

Mas foi a política comercial é que parece se distinguir de maneira mais clara em relação ao governo FHC. A prioridade aos acordos bilaterais e ao comércio com os países do sul, a aproximação com o continente africano e com os vizinhos é uma característica marcante do governo Lula. Só com ele, o país alcançou uma liderança latino-americana incontestável.

Por fim, me parece essencialmente diferente a política de infra-estrutura e de indústria do governo Lula. O modo como o estado atua na economia real é bastante distinto. Basta ver o investimento em estradas, máquinas e o modo como o governo se relaciona com as empresas. Quando o Lula cobra que a Vale verticalize a sua estrutura produtiva e não só extraia o ferro, mas lamine o aço, ele mostra uma diferença bastante clara em relação ao governo do FHC.

Acho que ainda existem problemas graves na economia e na sociedade do Brasil, mas acho que estamos em um bom caminho (que aliás, só tem melhorado). Não entendo de economia, mas os problemas que saltam aos olhos em um primeiro momento são a previdência daqui uns vinte anos, a dívida interna e a melhoria da qualidade do ensino e da pesquisa no país (que é uma tarefa de longo prazo).

27 comentários sobre “LULA E FHC, continuando a conversa do Polítika etc.

  1. Tiago,

    Acho ótimo você lembrar de outros fatores que eu deixei de fora, como a dívida externa e a relação dívida/PIB. Dando uma de advogado do diabo, ou melhor, dos tucanos, eu me pergunto até que ponto isso só foi possível graças à austeridade dos anos FHC, à (má) política dos juros, enfim, a linhas macroeconômicas semelhantes. O artigo do Gaspari incomoda porque aponta para continuidade naquilo que seria a “marca registrada” do governo Lula: as políticas sociais.

    Mas, veja só. Como procurei mostrar, há quem discorde. O presidente do Ipea, por exemplo, apontou lá as diferenças. Da mesma forma que hoje vemos os benefícios e resta a dúvida se isso é fruto do governo atual ou do anterior, acho que precisamos esperar para ver os efeitos da ampliação do Bolsa Família, do aumento do salário mínimo, da valorização das carreiras públicas etc.

    O fato é que Lula se comprometeu, antes da eleição, a não ser radical, e ele não foi. Mas há diferenças importantes.

    Abraço,
    Rapha

  2. Poxa, Tiago! Valeu pela menção! Agora – enfim! – realizo o sonho de ficar famoso! BBB 9!!! 😉

    Eu não sei muito e nem sou do ramo de Economia. Mas o que aprendi é que o governo Lula (principalmente via Palocci) dá um banho macroeconomico no FHC. E comprovo. Mas antes, só pra usar palavras mais apropriadas, quanto ao perfil da dívida, não se trata de “pagamento de parcelas”, o que ocorreu e ocorre é reemissão de títulos, e emissão de novos, mais em real e menos em dólar, além de taxas mais favoráveis (questionáveis, ver BC). Nossa dívida pública ainda é grave problema. No link abaixo há um resumo comparativo, na esfera macroeconomica, que foi preciso pra desmentir aquela Rede Jubileu (que se diz de esquerda; do tipo favorável a calotes): http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/leitores-questionam-texto-sobre-a-divida-interna/

    Sobre o custo previdenciário, maior do que o custo da dívida pública, é “menos grave” do que a mídia desonesta prega, porque há nele muita política social urgente. Aqui pedimos colaboração do amigo LuFes! 😉

    Não posso entrar nos números do tal Cláudio Salm porque são em outro campo, ligado a dados do PNAD. Mas reafirmo que o governo Lula tem uma política intervencionista em todos os setores que não tem NENHUMA relação com a ausência das políticas públicas dos tucanos. Sem julgamento do que é melhor (embora a crise já tenha indicado o que arrisca menos).

    O excerto do Pochmann (IPEA) colado no Politikaetc já exibe diferenças contundentes. Há curvas crescentes com inclinações semelhantes de 1993 a 2008, mas há – sem dúvida – inflexões positivas em algumas áreas a partir de 2003. Não digo que os fatores relacionados no PNAD são menos importantes, mas estruturação de país a longo prazo se dá mais naqueles de inflexão pró-Lula. Pra mim, o ponto crítico entre os estruturantes continua sendo EDUCAÇÃO! Mas mesmo assim há avanços inegáveis com o Min. Haddad.

    O post do Rafael é necessário e muito bom. Mas, além de o Gaspari me parecer desonesto em fechar no estudo do tal Cláudio Salm (que não sei quem é), achei meio ingênuo a hipótese de que a democracia (ou sua maturidade) “obriga” o governante a continuar e incrementar políticas sociais. Pode ser, mas isso não vale para justificar avanços no período FHC. A distância e a criminalização de movimentos sociais, por parte dos demotucanos (no caso dos demos, há 509 anos), comprovam essa irrealidade. Ou o FHC teria forçado a derrota do seu partido em 2002?

    Trabalho no Saneamento e vi que o Ministério das Cidades fez mais de 2003 a 2007 do que em toda a década de 1990. Os resultados podem, ainda, não aparecer porque o setor tá em obras e ainda estar digerindo a Lei Nacional de Saneamento (11445/2007), que é teoricamente FODA na busca de universalização dos serviços.

    Enfim… o papo não acaba. Espero que o Demétrio, que é quem entende, venha logo! 😉

    Abraços!

    P.S.: Quem tiver saco pode conferir dados sobre a dívida pública, tem tudo no link: http://www.bcb.gov.br/?INDECO – várias planilhas facinhas!

  3. Onde eu citei Rafael, eu quis dizer Raphael Neves. Desculpas!

  4. Legal, Alexandre! Valeu pelos links e pelos esclarecimentos.

    Com relação ao argumento sobre democracia, eu acho que, no longo prazo, produz sim mais igualdade. Aliás, o Estado de bem-estar e a social-democracia (por favor, não confundir com PSDB) só foram possíveis à medida que a classe operária foi incorporada na política. Durante a ditadura brasileira, para dar um contra-exemplo, o crescimento impulsionado pela inflação e pela falta de reajuste salarial só foi possível porque havia um aparato repressor.

    Portanto, eu acho que, em linhas gerais e, repito, no longo prazo, a democracia ajuda a incorporar setores até então excluídos (pense nas ações afirmativas hoje) nas políticas sociais.

    Abraço,
    Rapha

  5. Rapha, também acredito que a democracia ajude a distribuir renda e diminuir a desigualdade social, mas aí o Élio Gaspari precisaria retroceder até o governo Sarney para ver avanços. Nessa ótica, o real, inclusive, ótica poderia ser visto como um esforço acumulado de mais tempo (seguindo o raciocínio do Gaspari). Viria das políticas do Funaro até o governo Itamar e suas crises e se consolidaria no primeiro mandato do Fernando Henrique (até o momento em que ele não deixa que o real se desvalorize e começa a torrar reservas para manter o dólar baixo, acho que aí o plano foi para as cucuias).

    A grande colaboração do governo FHC, ao meu ver, foi a Lei de responsabilidade fiscal. A política educacional e universitária até apontava problemas verdadeiros, mas tirava o que tínhamos e não colocava nada no lugar. Ainda bem que não deu certo. Mas o que foi feito já trouxe alguns problemas graves.

    A privatização das teles também poderia ser uma ótima, mas as barbeiragens do Pimenta da Veiga tornaram o sistema horroroso. Ambas poderiam ter sido políticas interessantes.

    Agora, o que me parece pouco sólido no argumento da continuidade é a não incorporação das políticas de crédito, emprego e investimento como parte das políticas distributivas.

    Para começarmos apenas nas políticas de renda mínima: o comunidade solidária era muito tímido e periférico. O governo acreditava na possibilidade de energias patronais e institucionais entrarem como parceiras naquela jogada antes do estado mostrar que acreditava em um país menos desigual. Não por acaso, o Fernando Henrique utilizou a terrível expressão “Inempregáveis” para se referir a parcela significativa da população brasileira. ele não acreditava que parcela significativa do povo pudesse ser incorporada pela política nacional.

    Por isso, me parece que o Lula incorporou uma população muito maior na sua política nacional. O comunidade solidária aparecia mais como uma correção diante da impossibilidade de incorporação da população miserável, o Bolsa Família (depois da gestão do Patrus) me parece inclusive uma estratégia de aquecimento do mercado interno.

    Até agora, iniciativas do tipo do comunidade solidária, como forma de correção de uma dívida social imensa são muito mais que minoritárias. Eu tenho muito respeito pelo o que a Ruth Cardoso fez, mas acho que funciona mais como uma forma de mobilização de entidades não estatais e de remediar situações insolúveis.

    Agora, me parece curioso, sobretudo por vir do Élio Gaspari (primeiro amigo do Serra) essa mudança de rumo na interpretação. O Bolsa família era visto como o cão na campanha anterior. Agora a oposição pede teste de DNA para conquistar a paternidade da política.

  6. Ceará, eu que agradeço por você me ensinar tudo. Aliás, vou ler tudo isso que você passou. agora, o que você disse sobre as políticas de infra-estrutura e indústria me parecem cruciais para entendermos outra diferença marcante entre um governo e outro. Me parece pouco provável que o governo do PSDB teria apoiado estratégias de inovação na Petroras por exemplo, e gastado do dinheiro da viúva incentivo para o aumento da rede de água e esgoto. Além disso, hoje o Ancelmo Góis deu o número de leitos de hospital abertos recentemente. A coisa é séria, esse Temporão parece um craque.

    Agora, a conversa tá boa hein? espero que o pessoal apareça

  7. Caros,

    Não acho que exista total continuidade, mas é inegável que não houve uma ruptura brutal. Aliás, eu no post todo falei das diferenças. Apenas em uma frase, ao mencionar a Carta ao Povo Brasileiro, falei das semelhanças. Isso que o Tiago disse sobre a incorporação maior da população é verdade. Mas o que está em jogo, no artigo do Gaspari, é o quanto isso impacta, em termos percentuais, em algo que já estava ocorrendo (segundo os dados da Pnad).

    O Marcos escreveu um artigo legal na Folha falando sobre o aumento da inclusão, mas também num “grande acordo de base”: http://www.google.com/notebook/public/06037467334135054305/BDQND5goQhcTq098k?hl=en

    Esse artigo sobre o Salm é meio estranho, né? “representando o candidato José Serra”? Bom, ele é formado pela UFRJ, foi doutor pela Unicamp e trabalhou sim no Ministério da Saúde de 2000 a 2002. Mas não dá pra desqualificar o cara por isso. O próprio Ipea, ao analisar os dados das Pnads mostra que os benefícios para a população pobre vem crescendo.

    Acho que Lula melhorou muito o Estado, tem mais acertos que FHC. E é puro exercício de adivinhação saber como estaríamos hoje sem a purgação que os tucanos fizeram em termos de estabilidade e responsabilidade fiscal, como também é difícil saber como estaríamos se Gustavo “Milosevic” (sim porque o que ele fez é digno de criminoso de guerra) Franco não tivesse f* o câmbio.

    Abraços,
    Rapha

  8. Rapha, você não acha que existe uma diferença estratégica em um programa e outro? Isso me parece a diferença essencial na área. O bolsa família não é só renda complementar, mas incorpora o SUAS (Sistema Único de Assistência Social), a interiorização da presença da união, o desenvolvimento do mercado interno e até uma dissolução dos poderes locais na alocação de recursos de renda mínima. Por isso, acredito que se trate de outro tipo de política. O Patrus até falou disso em uma entrevista para o Kenedy Alencar (se alguém tiver o link, por favor, coloque aqui. é a entrevista escrita, não a em vídeo). Lá, ele comentava que a unificação dos programas além de simplificar o cadastro, organizar a casa, também servia para dar um sentido político único; que alinhasse a política a um programa nacional.

    Sobre o tal Claudo Salm, acredito que ele participou de um daqueles debates, comuns nas universidades, em que cada um representa o ponto de vista de um candidato. Provavelmente ele é eleitor do Serra, o que não esqualifica a sua pesquisa, mas faz pensar se ele não tem o interesse em atribuir certos sucessos de agora a políticas de mais de 10 anos atrás.

    Abração e obrigado pelo texto do Marcos Nobe. Lerei agora

  9. A opção partidária do Salm realmente não desqualifica seus estudos. Mas vou até checar a base de dados dele porque tem coisa cabulosa ali.
    Outra coisa: o termo “impregável” (seria inempregável? urgh) existe (tecnicamente) e não tem origem tucana, mas tem é associado a uma hipótese de economia predominantemente industrial, ou seja, equivocadíssima. A propósito, o governo FHC e o primeiro ministro da agricultura do Lula (o unidimensional Rodrigues) desconsideraram fomento à agricultura familiar, erro primário legitimador da falácia ”inimpregáveis”. Demorô Reforma Agrária!

  10. Mas a coisa não é PT ou tucanos, o grave é um presidente dizer que parte da população brasileira é “inempregável” (de resto, um neologismo feioso). Dizer que essa parcela não tem jeito, já era.
    Nas palavras do princípe:
    “Não adianta ficar de braços cruzados lamentando um processo real. (…) Ora, se isso é assim, nós nos países em desenvolvimento temos que prestar atenção a esses processos [de globalização econômica] e descobrir meios pelos quais se diminui, ao menos, esse processo. (…) E não é fácil. Mas existe isso, existem os que são, crescentemente, inempregáveis. Não é que não tenham emprego, inempregáveis por razões, por um lado, pela falta de qualificação e, pelo outro lado, pelo desinteresse do setor produtivo mais avançado em empregá-las. São dispensáveis.” (Cardoso, 1997)

  11. O pior do “inempregável” é que pressupõe uma industralização plena, total: o progresso. Joselitos!

  12. É. Que o mercado de trabalho gere inempregáveis (aliás, hoje em dia, com a míngua global do emprego formal que, aliás, aumentou no governo Lula) a gente já sabia. Faltava dar uma alternativa às famílias que ficam sem renda por causa disso.
    O fatalismo histórico-social-econômico marcou os anos 1990, do pós-modernismo ao neoliberalismo. Uma idéia de que não existe mais idéia possível de futuro. Tudo é uma gestão do fim da história: de um lado os vencedores e as suas batatas, do outro o entulho social descartável.
    O ridículo de uma idéia tão pomposa hoje é evidente. Bastou colocar as coisas para funcionar. Uma diferença entre Lula e FHC que acho importante é que o fato de Lula ter preservado e ampliado (e acrescentado, em ampla escala) políticas de Estado mostra a intenção de fazer dele um elemento realizador e indutor de transformação. O Lula foi abrir mercado para as empresas brasileiras no exterior. Estimulou, via BNDES, a abertura de frentes econômicas, a inovação e a aquisição de empresas estrangeiras por empresas brasileiras. Com bancos públicos, aumentou o crédito, como todos falaram. E um crédito que, por ora, e ainda mais com o aumento do salário mínimo, não parece que vai gerar endividamento (apesar de esse ser o risco). O governo investe, e de forma qualificada.
    Seria incompatível com a proposta (chamaremos de neo-desenvolvimentista?) do governo Lula desativar políticas de Estado que haviam sido criadas para resolver problemas reais. Continuidade entre governo é algo de que o Brasil sempre precisou. Ou alguém, mesmo o mais empedernido dos tucanos, prefere “planos” e “choques” a políticas de longo prazo que são incoporadas à capacidade de ação do Estado?
    Apontar continuidades é elogio, quando feito sem maldade (via “esquerda” – PSoL etc. – ou via direita – que está hoje na oposição. Aliás – esquerda que bate na esquerda e vota com a direita é o que?).

  13. Oi, Tiago,

    Esse tema me interessa bastante e muito bem lembrada essa citação do FHC. Parece coisa que o Zizek diz como crítica e que o nosso ex-presidente, ocupando o cargo, fazia como exercício de fatalismo e explicação para seus fracassos…

    Fazendo um pouquinho auto-propaganda, escrevi um texto tangenciando esse tema do seu post no meu blog [http://remidia.wordpress.com/2009/11/25/lula-ganhou-o-jogo-no-campo-do-psdb/], que seria [e meio é, só falta os outros textos] epílogo de algo maior e mais detalhado sobre o tema. Uma questão importante nessa diferença de política econômica é que as grandes massas de capital controladas pelo estado brasileiro [BNDES e fundos de pensão] assim como a Petrobras, o BB e a Caixa, foram usados como ferramentas de crescimento no governo Lula. Enquanto no período tucano essas massas de capitais [muito significativas] estavam mobilizadas para financiar a privatização [ou seja, a aquisição de capacidade produtiva já instalada, não sua ampliação e/ou modernização] e essas 3 estatais estavam em compasso de “espera” para não dizer de desmonte gradual.
    Valeu pelo texto.
    abraço

  14. O endividamento público cresceu sob o Lula pela primeira vez neste ano, é o caso de saber se isso é consistente ou não. Mas acho que a nova perspectiva histórica do Lula foi a de saber que era possível atuar na ordem internacional e apostar no crescimento do mercado nacional (que ainda não é grande).

    Mas acho que a política industrial mais agressiva só começou. Por exemplo, o Brasil consume pouco os insumos que produz. Na cadeia produtiva editorial, por exemplo, isso é nítido. A Aracruz com a Votorantim são gigantes no negócio de celulose, mas o Brasil ainda importa papel. Parece que o custo de produção é alto e o empresariado ainda arrisca pouco.

    Queria entender isso melhor.

  15. No fim-de-semana que passou, em bate-bola curtinho n’O Globo ( http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2010/1/2/2018nao-vejo-razao-para-otimismo2019 ), o Carlos Lessa elogiou o novo marco regulatório para o pré-sal, falou besteira sobre “apagões de energia” (entende do assunto menos até do que eu) e outras maldadezinhas no meio de alertas e obviedades…

    Disse também que estamos “atrofiando as exportações industriais e ampliando as primárias”, tema antigo que precisa de maior atuação do governo mesmo, mas que não condiz com o caso Vale e com o que o BNDES diz que vem priorizando. Quero saber mais disso, e principalmente, entender uma velha dúvida que nenhum economista midíatico me convence:

    Por que a China pode controlar o câmbio sem danos e nós não podemos? Tem a ver só com nossa dívida? Ou é também porque precisamos de bons preços pra importação de tecnologia? Ou seja, há interesse em ferrar exportações neste momento porque não temos tecnologia de bens de capital e de ponta? Ou tô falando uma bobagem muito grande?

    Espero que alguém responda aqui.

    Abraços!

  16. Ceará, sempre me questiono sobre como eles mantiveram por tanto tempo o Yuam desvalorizado.
    Aqui na Argentina, o modelo é esse: peso desvalorizado, sempre. O resultado, 20% de inflação e no final tudo dá na mesma. Mas a Argentina não cresce 10% ao ano e nem tem poupança chinesa.
    Mas nunca vi ninguém analisando todo o contexto e as vantagens e desvantagens do modelo chinês. É sempre uma visão do lado de fora, sem avaliar muito o que seria melhor pra China. O único prejuízo que se aventa é a possibilidade de retaliação comercial.
    Pessoalmente, eu acho que algum custo deve existir. Tudo tem seu preço (tanto que eles estavam valorizando o Yuan aos pouquinhos, até a crise esplodir). Mas, talvez, por ser uma ditadura, em que as pessoas não contam nada e não têm direitos, ele não seja cobrado.

  17. Carlinhos, fera, a Argentina não vale! 😉

    O Mantega (que não manda nada, e ainda bem) sugere que não haveria dano com dolleta a 2,60 reales. O Meirelles desconversa e não justfica devido a eventual explosão inflacionária, mas pelo rigor do BC, pra provar autonomia e macheza ( 😛 ), sob argumento de não criar dispositivo artificial na política econômica, não dar sustos, manter transparência, não arriscar credibilidade… essas canjicas todas.

    Não é inflação, Carlinhos. Até porque os preços no Brasil são os mesmos de quando o dólar bateu 3 reais.

    Conspiration moment: Tem acordo comercial escondidim com EUA/EU? Por que?

  18. Tipo aquela pixação do MR8: “Abaixo a CANALHA entreguista”!

  19. Sei não, bicho.
    Uma coisa é o dólar caro, a 3 pilas, porque quem compra e vende acha que esse preço é o certo. Outra, é imprimir reais ou pesos pra comprar dólar e botar ele nesse valor. Tem que ter demanda pra essa base monetária que foi criada (o que com um crescimento de 10% é mais fácil), senão gera inflação.
    Eu andei olhando na internet e parece que o regime dos chineses se baseiam em duas coisas: 1- não existe mercado de Yuan, ele não é conversível. 2- o governo compra toneladas de títulos americanos. Mas… Se não existe mercado de câmbio, quem vai aceitar Yuan? Não sei. Imagino algumas coisas. Pode ser que, como não existe um mercado de Yuan, é parte do que China ganha com os bens exportados, que vira bônus do tesouro americano e são guardados embaixo do colchão, não entra na economia para o chinês comprar coisas novas e importadas legais. Ou pode ser que os Yuans sejam utilizados para comprar coisas chinesas pelos ocidentais que os receberam em troca de dólares, o que anula o problema da base monetária porque o dinheiro é usado para comprar algo que foi produzido e não fica rodando na economia à toa.
    Mas o modelo chinês parece ser impraticável em outro lugar.
    Sobre a China X EUA, tem um artigo do Gary Becker. É uma idéia típica dos caras de Chicago: “deixa esses chineses otários subsidiarem o nosso consumo que a gente manda um monte de papel do governo pra eles em troca e fica tudo certo”. Um pouco de excesso de otimismo, crença que as coisas vão continuar bem, mas é interessante.

  20. No que se refere ao que acredito ser o cerne da questão, o Lulão dá um banho, mas sou suspeito pra falar por ser muito fã do ÔMI: no quesito sobre interpretar o que é o Brasa véio e pra que lado que tem que tocar a carroça, acho que o Lula se sai muito melhor. A estória que o Tiago contou mais em cima, sobre o FHC falar dos inempregáveis, diz muito sobre o a visão que os caras tinham do país, uma Ingleterra tendo que conviver, ou melhor “suportar” uma Nigéria. Lula me faz acreditar que temos um país viável, que as diferenças regionais e interclasses podem ser atacadas e dirimidas, que o Brasil tem um papel a cumprir no mundo (não é um “país do futuro”), que pode contribuir com essa coisa de criatividade e persistência (um tanto romanceada, vá lá) que se atribui às nossas camadas mais pobres, pra que tenhamos um mundo mais pacífico e justo.
    Sim, nós podemos!!!

  21. Excelente esse artigo do André Singer, reforço a dica do Ceará.

    E sugiro, já que primeiro post do ano veio para mostrar o lugar do Guaciara no topo de bons blogs, o último artigo do Raphael Neves, dando um chega para lá na histeria do Reinaldo.

    Um excelente 2010 pra vocês.

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