2010 é pra pensar no Brasil

2010 é ali, ó!

2009 está chegando ao fim e eu me mudei de cidade mais uma vez. Vida nova de novo. O Guaciara deu uma desaparecida nesse final de ano por causa da correria geral do seu staff.

O Joaquim acaba de assumir como editor da prestigiada Novos Estudos do Cebrap. O Tiago, além de continuar com suas aulas na faculdade, tá mandando brasa em uma curadoria grande e também tá cheio de trabalho. E eu estou em Brasília, desenvolvendo um projeto bem legal no Ministério da Cultura.

Deixo esse momento “meu querido diário” de lado e passo ao que interessa. O Guaci em 2009 não dormiu no ponto e falou um pouco sobre tudo: crise financeira, os ataques israelenses, a eleição de Obama, os 100 anos da morte de Darwin, Brasil, a escalada reacionária e sem noção na imprensa, política cultural, Internet, democracia, artes visuais, cinema, música, pensamento, quadrinhos, cidades, meio ambiente, pornografia, Pouso Alegre, São Paulo, Brasília, Olímpiadas no Rio e até previmos a ascensão do Adriano.

2010 já tá aí e vai ser um ano pra se repensar profundamente o Brasil. Primeiro por que é ano de eleição e Copa do Mundo e nos dois assuntos o Brasil vive um momento de transição. Na África do Sul vai ser a primeira vez que essa geração capitaneada pelo Kaká e Luís Fabiano assume de fato a liderança da competição.

Além disso, e o primeiro mundial em muitos anos com a presença de todas as seleções campeãs, só pra melhorar os jogos acontecem em um dos países mais fascinantes politicamente do mundo. A batata vai assar e eu acho que a competição tem um significado simbólico muito profundo.

E se nos campos a coisa tem um significado simbólico enorme, nas eleições essa simbologia é ainda maior. As eleições presidenciais fecham o ciclo da redemocratização de vez e colocam o Brasil no rol das democracias estabelecidas. 16 anos sem ruptura institucional e com avanços incontestáveis no sistema democrático e na sociedade.

Nenhum dos candidatos tem o carisma e o apelo popular de Lula e até agora não mostraram uma agenda que avance muito em seus programas. É hora de muita conversa sobre o país. E acho que, se a oposição esquecer o discurso do mar de lama e se abrir para conversar sobre o Brasil de fato, muita coisa legal pode acontecer.

Na minha opinião, é hora de se institucionalizar as iniciativas sociais e culturais. Para isso acho que dois nortes comemorativos podem servir de exemplo.

O primeiro é Joaquim Nabuco.  Se o ano passado o Brasil matou saudade dos 100 anos sem Villa-Lobos e Euclides da Cunha, em 2010, é hora de celebrar a genialidade deo escritor, político e abolicionista, que morreu em 1910.  Acima de qualquer coisa, Nabuco foi um defensor dos escravos e um dos maiores articuladores da Lei Áurea.

Além disso em sua obra, é o primeiro a defender a escravidão como um sistema que nos define socialmente, como centro da economia brasileira. Ao contrário dos seus companheiros românticos – e aqui cito um excelente post de Alex de Castro sobre o tema: “os oitocentistas faziam suas auto-críticas do Brasil, os maiores problemas eram vistos como sendo provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo.”Joaquim Nabuco, em O Abolicionismo (1883), é um dos primeiros a arriscar uma interpretação total do Brasil colocando a escravidão no centro de sua análise, como o fator constitutivo do país. Até então, como notou Ricardo Salles (NI, 139), quando os oitocentistas faziam suas auto-críticas do Brasil, os maiores problemas eram vistos como sendo provincianismo, patriarcalismo e patrimonialismo.”

Falo dele por que acho que a maneira como a elite trata a questão da superação da desigualdade social e do racismo no Brasil  evoca uma das frases mais importantes do pernambucano: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.”

O embate entre esses pontos de vista ainda continua muito presente na sociedade brasileira e a superação desse dilema é, sem dúvida, a discussão mais forte sobre o Brasil.

Outra data comemorativa (odeio a palavra efeméride) significativa são os 50 anos de Brasília. A discussão da superação das desigualdades regionais e do posicionamento do Brasil internacionalmente são dois assuntos que tocam diretamente nos debates de 2010.

Outra coisa diz respeito ao modelo de cidade que as pessoas querem, as apostas no carro foram concluídas em desastre urbano em São Paulo no final do ano. E acho que é mais que hora de o país repensar suas políticas de infra-estrutura urbana e de transporte. A reflexão sobre Brasília é um ótimo momento para isso, ainda mais com os escândalos de Arruda e Paulo Otávio, que trabalham em favor da especulação imobiliária e da falta de critérios de expansão urbana.

Em 2010 vem muita alegria, curtição e coisa boa. Mas o bicho vai pegar. E acho que a gente já pode começar a conversa agora. Muita coisa boa pra todos que nos leem.

5 comentários sobre “2010 é pra pensar no Brasil

  1. Acho que 2010 vai ser quente. Como eu sou medroso, e tenda a desconfiar das mudanças no meu dia a dia, fico até receoso com a agitaçao toda. Agora essa história de todas as campeãs estarem na Copa significa que o Uruguai estará lá. É isso?

    Sobre a eleições, infelizmente eu não espero alto nível da oposição. Como eles estão em um mato sem cachorro, acredito que apelem para a conversa mole do último ano. Além disso, muita gente vai insistir no idealizado e pouco claro desenvolvimentismo do Serra. Queria aspectos concretos que comprovassem esse ponto de vista do governador de São Paulo, mas fora as intenções, não vejo nada e ainda não vi ele dar um palpite sólido sobre o mundo após a quebradeira.

    Diferente do Careca que vale por dois, o Nabuco anima sempre ótimas discussões sobre o país. Um dos seus méritos foi deixar de discutir um temperamento “típico” ou atribuir características comportamentais como um aspecto do atraso e discutir a escravidão como uma espécie de “fgato social total”, uma instituição que atribbui sentido às outras.

    Assim, o processo civilizatório local (que depois será discutido pelo Fernando Novais como um capítulo da civilização européia) era feito em nome dos mais nobres valores e os mais violentos processos de segregação social.

    O Nabuco foi quem primeiro pensou a escravidão como um processo social violento, que define as posições sociais rígidas e excludentes. Não por acaso a sua proximidade com o Machado de Assis. Aliás, “Minha formação” além disso, é um dos textos mais bonitos já escritos no país.

    Outro aspecto que me interessa, aliás, muito presente em “Minha Formação”, é o monarquismo do Nabuco. A posição favorável ao Dom Pedro II ainda encanta parte da intelectualidade nacional. Acho a fascinação muito esquisita. De fato, não entendo direito, a associação que autores como o José Murilo de Carvalho fazem entre a república e um golpe das elites coloniais. De qualquer modo, aqui também, concorde-se ou não, o Nabuco mostra a mudança institucional como uma transformação conservadora, o que é muito interessante. Resta saber se manter o rei não seria outra alternativa conservadora. Espero que gente que saiba alguma coisa sobre isso pense a questão.

  2. Acho que o slogan da campanha do ano que vem deve ser “mais agenda, menos acusação”. Pq o tom da oposição vai ser o de sempre: raivoso e vazio.

  3. Tiago, não conheço bem a fundo essa parte da história mas me parece que a contrargumentação seria de que a república foi fomentada pela elite agrária ao se sentir traida pela lei áurea. E de fato eles ascenderam a um poder fenomenal durante a república velha. O problema da força de trabalho no campo foi rapidamente debelado com as imigrações logo no começo do século. A lei em si não garantiu nada em termos de acesso da população negra ao trabalho e e educação. Talvez por isto os grupos de consciência negra tenham um problema tão grande com o 13 de maio que é visto como um ato hipócrita de benevolência da elite. Isso somado com a proclamação da república impede que se faça justiça a figura de Dom Pedro II, um homem admirável.

  4. Pra mim, o que importa, é ver o luís Fabiano e o Kaká brilharem na Copa e trazerem o título para o Brasil e para a nação são-paulina! PRAW!

    A direita pode espernear, mas eu tô muito muito confiante que a Wilma do Chefe (como Pânico chama a Dilminha) vai brilhar muito na eleição. Deixa o barba subir no palanque e já era.

    Agora, é fato que isso em si não melhora em nada o forta;lecimento da democracia em si. Mas como 2009 foi um ano de muitas Tretas em hong Kong pra mim, quero um 2010 muito Lulinha Paz e Amor.

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