Espaço: modo de usar

A regulamentação do uso, e as iniciativas de uso, do espaço social – rural, urbano e virtual – é um dos temas cruciais do século XXI. O espaço é, literal e metaforicamente, um dos principais campos de batalha da guerra entre – para usar, num novo sentido, uma distinção antiga mas útil – os proponentes de uma sociedade aberta e os defensores de uma sociedade fechada.

Um binômio que atravessa esses três campos – rural, urbano e virtual – é o par formado pelos conceitos “cercamento” e “ocupação”. O sentido clássico da noção de “cercamento” remete, como aprendemos nas nossas aulas de história, ao processo de formação do capitalismo – mais especificamente, à acumulação primitiva que consistiu na transformação da “natureza” (a terra) em “civilização” (capital). Os cercamentos do século XVII são os avós do processo de privatização do espaço que parece, hoje, ser a tendência social, econômica e política dominante. A privatização do espaço urbano pelo mercado imobiliário e a regulamentação do espaço público na base do “não pode” pelos governos conservadores (DEM-PSDB) são exemplos desses novos cercamentos.

A “ocupação”, por outro lado, remete à resistência aos cercamentos – um misto de desobediência e inovação, de desbunde anárquico e defesa de princípios elevados: direito, liberdade, autonomia. No Brasil, MST e as diversas frentes dos movimentos de moradia nas cidades carregam, há tempos e com sucesso, essa bandeira da ocupação.

O Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital, que está rolando – hoje e amanhã ainda tem programação intensa de debates, exibições e shows – na Cinemateca Brasileira (confira serviço, abaixo) leva essa batalha para o espaço virtual. O Fórum é uma das etapas de elaboração de marcos para as políticas públicas de cultura digital, e uma de suas bandeiras é também enfrentar o novo cercamento que tem ameaçado transformar uma certa “natureza” (nesse caso, a cultura e a tecnologia livres) em – como sempre, no sentido antipático, branco, masculino, cristão e capitalista da palavra – “civilização” (ou seja, em mercadoria e em espaço regulamentado segundo a lógica da proibição).

A própria utilização que os organizadores do Seminário estão fazendo do espaço da Cinemateca Brasileira encena essa disputa. Aqui também predomina a lógica da ocupação: quem conhece a Cinemateca sabe que é um espaço incrível, mas sub-aproveitado. Os produtores espalharam redes e almofadões coloridos, mesas e cadeiras onde em geral predomina o clima sóbrio, de velório, característico dos espaços culturais paulistas geridos por socialaites tucanos(as). Um espaço antipático, concebido para receber eventos da”cultura oficial” para a meia dúzia de culturetes endinheirados(as) da cidade. Uma das subversões mais interessantes do uso do espaço foi a abertura da sala (privativa) da diretoria da Cinemateca para uso da produção do evento. Mesmo quem trabalha na Cinemateca raramente tem a chance de entrar na bela sala construída ao lado da nova sala de exibição da instituição.

Nova sala da Cinemateca: muito bonito, mas... cadê as pessoas?

As diferentes concepções e formas de uso do espaço resumem as disputas políticas em jogo hoje no Brasil. Assim como o espaço da cidade deve ser público, aberto e permeável às iniciativas das pessoas, o espaço virtual da rede mundial de computadores deve ser regido por esses mesmos princípios. A defesa da liberdade na internet não é bandeira apenas dos garotos e garotas fissurados em novas tecnologias; perder a batalha contra os cercamentos nesse campo é ceder espaço político para a onda conservadora. Bora ocupar os espaços.

Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital

De 18 a 21 de novembro de 2009

Local: Cinemateca Brasileira

Lgo. Senador Raul Cardoso 207

Vila Mariana São Paulo – SP

Programação

20/11 – 6ª feira

9h/17h
Credenciamento/ inscrição

9h/12h
Plenária de Infraestrutura – Sala Petrobrás

Seminário de Comunicação – Sala BNDES
Palestrantes:

. Jean Burgess (pesquisadora da Universidade de Queensland, na Austrália, e co-autora do livro “Youtube a Revolução Digital)

Ivana Bentes (professora da UFRJ)
Alex Primo (professor da UFRGS)
Anápuaká Muniz (Web Brasil Indígena)
Jamie King (produtor de ‘Steal This Film’ e criador da vodo.net)
Moderador: André Deak (curador do eixo comunicação do Fórum da Cultura Digital Brasileira)

Ações auto gestionadas – tendas do hall

13h/14h
Intervenção artística – tendas do hall

14h/17h
Plenária de Arte – Sala Petrobrás

Seminário de Economia da Cultura Digital – Sala BNDES
Palestrantes:

. Daniel Granados (Producciones Doradas)
. Pablo Capilé (Circuito Fora do Eixo)

Ladislaw Dowbor (Economista e professor da PUC-SP)
.
Ronaldo Lemos (Professor de direito da FGV-Rio)
. Juliana Nolasco (Coordenação de Economia da Cultura – MinC)
Moderador: Oona Castro (curadora do eixo economia do Fórum da Cultura Digital Brasileira)

Ações auto gestionadas – tendas do hall

a partir das 21h
Ação musical – lona de circo externa

21/11 – Sábado

9h/17h
Credenciamento/ inscrição

9h/12h
Transmissão da sala BNDES na Sala Petrobrás

Contexto Internacional da Cultura Digital – Sala BNDES
Palestrantes:
.
Raquel Rennó (pesquisadora de arte digital e integrante da Associaçao Cultural de Projetos em Cultura Digital ZZZinc, de Barcelona e do International Center for Info Ethics
, da Alemanha)
. David Sasaki (diretor do Rising Voices)
. Ivo Corrêa (Responsável pelas políticas públicas e governamentais da Google Brasil)
. Alfredo Manevy (Secretário executivo do Ministério da Cultura)
. Amelia Andersdotter (membro do Partido Pirata Sueco)
Moderador: Álvaro Malaguti (gerente de projetos da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa- RNP)

Transmissão da sala BNDES nas tendas do hall

12h/14h
Encerramento

14h/17h
Cerimônia de encerramento – Sala BNDES
Entrega do resultado do trabalho realizado ao Ministro da Cultura, Juca Ferreira
Atividades culturais – lona de circo externa

7 comentários sobre “Espaço: modo de usar

  1. bora pra disputa territorial e virtual.

    grande sacada espacial.

    incluir a questão indígena é outro ponto pros organizadores do evento.

    os índios já vincularam faz um tempo as dimensões territoriais e virtuais.

    a virtualidade, porém, se desenvolve a partir das coisas do espírito.

    e agora também pela internet na floresta.

  2. uma pena eu não ter conseguido ir ao fórum. queria presenciar as mesas, que devem estar riquíssimas.

    e muito bem lembrado o que a mari disse acima. essa mania que as pessoas têm de que índio porque é índio não tem direito a coisas de branco, ou seja, internet. a internet está aí, o virtual está aí, e é pra TODO MUNDO usar.

  3. Essa idéia de tudo ser colonizado pelos negócios é muito perversa mesmo. Nosso horário é o horário de circulação dos ônibus; os caminhos: da casa para o trabalho e vice-versa. Até o tempo livre é parte da cadeia produtiva.

    Outro dia, pensei em um pessoal que não te vê a muito tempo, chega no fim do ano e, com a maior boa vontade, diz: “que os seus projetos se realizem”. Pôxa, projeto é foda. É meio escroto reclamar de quem te quer bem, mas não falo mal de quem torce por mim, mas dessa finalidade orientada para o trabalho. Já parece uma coisa ligada ao trabalho. Pode parecer babaca, mas prefiro torcer para que os desejos das pessoas se realizem. É esquisito essa coisa do serviço virar um fim em si mesmo. Mas sei lá, dado o adiantado da hora, eu devo estar falando merda.

  4. O evento foi realmente muito bom, diria que foi a maior concentração de gente com algo interessante a dizer por m² que já vi

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