1994 e muitos links

Naquele ano, eu tinha certeza que o reconhecimento do Thinking Fellers Union Local 282 seria uma questão de tempo. Era a banda nova que eu mais gostava e mais ouvia (junto com o Cassiber). Tinha certeza que eles, Slint, Sun City Girls, Trumans Water e o Soul Junk, em um prazo curtíssimo, seriam descobertos e transformados em referências roqueiras obrigatórias, como já havia acontecido com o Fugazi, o NoMeansno e o The Ex, por exemplo.

Até agora, só acertei dois da minha lista, mas uma boa matéria da vice me encheu de esperanças em relação ao grupo de Oakland (que aliás, já foi publicado aqui). No texto, o repórter Andrew Earles ainda dá várias bolas dentro, menciona o Supreme Dicks, Strapping Fieldhands e Dead C. Fala mal do Mr. Bungle e Primus. Só faltou incluir o Radiohead nesta lista negra, que é  feita a partir de uma designação cruel, mas eficaz para falar do midbrow indie rock.

O texto me fez lembrar que o meu gosto pelo rock, a música popular e as novidades vanguardistas do jazz e da música clássica veio da sensação de querer fazer uma vida nova, mais animada e interessante. Já vi muita gente associar esse gosto a gente que está a margem, quem não é aceito ou quem se isola. Não tinha nada disso. Eu não gostava disso por participar de um grupo diferente. Não achava que aquilo se alinhava ao bom gosto, aliás, estava pouco me fodendo para o bom gosto.

Todo mundo andava com meninos que gostavam de Skid Row, Death Metal e com outros que nem gostavam muito de som.

Não tinha nada a ver com isso, nem a ver só com música, cultura, arte. O ânimo passava por aí, mas o interesse maior era fazer coisas mais legais em um lugar onde tudo parecia meio sem graça. Não era auto complacência, sensação de deslocamento e nem a imagem de estar a margem, mas a sensação de participar de algo novo, desafiador e que ia contra tudo que havia de mais babaca (inclusive os estilos de vida e a participação em tribos juvenis).

Também não existiam aquelas bobagens de filme americano de vencedor e perdedor, herói e vilão, turma da mesa de cá e turma da mesa de lá. Era um monte de gente. Todo mundo convivia com todo mundo numa naice. Uns se contentavam com o que tinha na cidade, outros queriam mais. Quem queria mais não podia reclamar.

O mais legal é que esses meninos que circulavam comigo por lá, hoje estão por aí, são gente de primeira qualidade e continuam atrás de uma vida mais intensa, cheia de sumo.

Para comemorar, seguem músicas do conjunto:

6 comentários sobre “1994 e muitos links

  1. caceta! meu sentimento era de marginalizado, vá lá. Mas talvez porque eu tivesse algum apreço pelo lance de tribos juvenis. Agora, o Cacá mesmo do Objeto Amarelo sempre fala isso: vocês de Pouso Alegre viviam um lance com música que nunca teve em Sâo Paulo e melhor: achavam que aquilo era normal, que era o que rolava por aí. Acho que nem é tanto por aí – acho que a galera de Piei caga e anda pra lançamento de tendências e tal. Por isso que vez por outra ainda aparece um Zé Rolê, um Pumu. E Thinking Fellers… poutz! Quando consegui tirar o Strangers from universe da casa dos Mesquita (a procura era grande) e levar pra casa (meu pai havia acabado de comprar um aparelho de CD!), passei umas duas semanas só escutando aquilo. E pra mim era tão bonito quanto um Rubber Soul ou um Pet Sounds e pensava: “meu deus, porque essa merda não faz sucesso??” Fez minha vida muito melhor, como também fez um Wire, um aptain Beefheart, um Ex, Fugazi, Slint e por aí vai.

    Texto massa demais!

  2. O Arthur tinha apreço pelas tribos por dois motivos, um urbano e o outro silvícola
    1) Ele é do ABC
    2) Ele é índio(no sentido que a palavra tem na Borda da Mata – MG)

  3. Mesmo em BH, essa turma midbrow (alternativos / playmobils) típica de SP e surgiu muito recentemente. Nos anos 1990 o clima aqui era amizade sem hypismo.

  4. Pois é, não tinha essa de estar na moda, acompanhar tendências e nem cultivar rock vagabundo como bom gosto. Ninguém queria ser diferente de ninguém, só queria que a vida fosse mais legal, pois, de outro modo, tudo poderia perder a graça. No texto eu só quis mostrar a diferença que as músicas deste grupo fizeram para mim e para alguns dos meus amigos.

  5. Aliás Tutu, certa vez durante uma pausa pra ruminar, PARI uma tese dessas, de que devia haver uma música que conseguisse agradar a todas as pessoas. Achava que Hidegen Fujnak a Szelek versão Tom Cora + Ex preenchia todos os requisitos pra isso. Óbvio que a desconfiança era totalmente furada. Mas a alegria de ouvir a música ainda é a mesma.

  6. Pô Gilseira, tô contigo nessa. Mas tem também a primeira do Strangers From Universe e a Good Morning, Captain do Slint.

    Tiago, abafa o caso aí. Eu sou América do Sul, sou Minas Gerais. PRAW

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