Há vinte anos atrás

Boa a lembrança do Fabiano para os vinte anos das eleições de 89. Lembro como essa eleição foi importante na minha vida e na vida da minha família. Tinha só onze anos e também “votava”. Acho que por ser uma novidade, na época, as eleições tomavam conta do imaginário de todas as pessoas independente da idade, classe social e origem.

Lembro que eu morria de raiva do Caiado com o cavalo branco, que queria matar o Afif  que comparava o Lula com o muro de Berlim na horrorosa “Pula-lá”. O engraçado é que em meio à campanha presidencial o marco que separava a Europa socialista e capitalista seria derrubado também. Adorava ver o Brizola espinafrando a Globo e era espectador da Rede Povo. Não é à-toa que a cena mais lembrada dessa eleição ainda é o debate Lula e Collor na Globo e a briga entre Maluf e Brizola em outro debate na televisão. Essa foi a eleição em que a TV começou a contar mais do que nunca na campanha.

Além disso, lembro de ficar um tempo sem ver meus pais que acordavam cedo e voltavam tarde. Minha mãe cobria a eleição para um jornal e um rádio de Pouso Alegre e meu pai aproveitava todo seu tempo livre para fazer campanha. Ia comer marmita na vizinha e passava o resto do dia curtindo com o pessoal da rua. Falando da eleição e do candidato que eu ia “votar”. A Playboy na época fez uma enquete em que cada um dos candidatos falava o que gostaria de ser e lembro que o Lula respondia que quando era criança queria ser caminhoneiro.

O lance das pesquisas até então, pelo menos pra um menino de onze anos, parecia uma coisa muito incerta. Eu não botava a menor fé e, mesmo sem parar muito pra pensar nisso, achava que o Lula ia ganhar, mas via que na minha escola ninguém ia votar nele.

Eu e meu irmão, mesmo sem blog e nem nada já quebrávamos o pau com meia cidade em defesa da Frente Brasil Popular. O meu pai passou na lojinha do PT em BH e comprou bottons, o Tiago quis um do Lenin e eu quis um do comunismo. Os coleguinhas alimentavam os resquícios da ditadura e diziam que a gente ia ser expulso da 5ª série por ostentar aqueles símbolos proibidos até outro dia.

Na escola todo mundo ia votar em alguém. Em minha cidade, essa primeira onda Lula passou um pouco longe. Apesar da mobilização que ela criou e do fortalecimento da esquerda na cidade, o resultado eleitoral foi bem fraco.  Lula ficou em quarto lugar (atrás de Collor, Maluf e Covas).

No segundo turno, a situação foi um pouco melhor mas só um pouco. Mas a escala nacional da campanha e a maneira como ela “pegou” em todas as cidades acabou levando um pouco da movimentação pelas Diretas também para as cidades menores. Se o Brasil preza tanto a democracia hoje e tem uma situação um pouco melhor do que os outros países da América Latina. Apesar do desfecho dramático – me lembro o tanto que praguejei depois da apuração, era inacreditável que um babaca da Globo tivesse ganho a eleição –, 89 fez um bem danado pro Brasil.

Escrevam suas lembranças e vídeos marcantes da eleição de 1989 também.

19 comentários sobre “Há vinte anos atrás

  1. E a verdade está dita, Globo manipulou e colocou Fernando Collor no poder: Marinho e sua turma roubaram as eleições de 89.

  2. Eu lembro de muitas histórias. Passei muita raiva, entendi muita coisa e vi que eleição era coisa séria.
    Quando eu voltava para casa, pensava em uma porção de coisas para responder os professores, os vizinhos e, melhor que isso, os pais dos vizinhos. O Brasil era muito diferente. A mãe de um amigo que eu fiz na rua procurava quem o candidato mais bonito e a cidade não entendia direito o que era a possibilidade de se definir os rumos da política nacional. Ninguém sabia qual seria o resultado de uma eleição presidencial. Por isso, pltaforma, programa, era algo que não parecia tão claro para ninguém.
    Lembro muito bem dos meus pais ainda apanhando da tropa de choque do Collor. Foi murro e paulada em homem e mulher. Foi horrível, mas depois disso o Collor bem que perdeu uma centeninha de votos em Pouso Alegre.

    Na minha cidade, a classe média não gostava do Lula, mas odiar mesmo eles odiavam é o Brizola. Esse era o cão. O Gabeira era um candidato engraçado, que colocava uns sapos no comercial e tinha gente que gostava do Enéas.
    Na primeira semana de aula em 90, a escola levou o coordenador da campanha do Collor para fazer uma palestra sobre a modernidade, as carroças e o Collor. Imagina, uma palestra sobre carros e carroças em uma cidade que começava a se industrializar, era melhor do que a encomenda. Mas a molecada não facilitou para o ex-arena, ex-colorido, lascou-lhe o pau.

  3. Sem medo de ser feliz!!!
    Um mundo de alegria de ver o Lula tão perto, uma galáxia de tristeza por vê-lo “perder”!
    Daquela época guardo aquela sensação boa de fazer parte de um projeto para o País, de pertencer a um grupo enorme de pessoas, cheias de esperança e fém num futuro melhor com liberdade e justiça social.
    E, 20 anos depois e a despeito da eleição do Collor, acho que concordo com o Lauro, 1989 fez muito bem para o Brasil

  4. pra mim foi como um prolongamento da campanha das Diretas.O Comicio na praça da estação em BH logo depois do Lula ter passado o Brizola nas pesquisas ficou como o momento mais emocionante. O resultado final foi tão devastador que eu fui embora do Brasil tres meses depois. A diáspora da minha geração começa ali pelos motivos mais diversos. A idéia de viver governado pelo Collor me fazia fisicamente mal.

  5. O negócio da molecada aqui em Brasília (pelo menos na minha quadra e nos arredores) era colecionar adesivos e material de campanha de todos os candidatos. O do Marronzinho e depois do o Silvio Santos eram peças raras e motivo de brigas homéricas!!! A corrida também eram por peças do Enéas e do Celso Brant. Eu ainda tenho essa pasta com esses adesivos, que, com o passar dos 20 anos, se “quebraram!
    Na minha lembrança de criança, ainda não tinha lei que restringia boca de urna e tanto no primeiro turno como no segundo, a molecada ficava na entrada das quadras, parando os carros e tentando “convencer” eleitores…Eu e mais uns cinco moleques, capitaneados pela minha irmã, éramos na turma do Lula, com camiseta e tudo…Mas na real, minha queda na época era pelo Brizola…Desde a época das Diretas ouvia meu pai falar nele, e na imaginação de moleque, tava ai o cara que iria nos salvar.
    Legal foi a quase porrada que saiu com uma meninada que gostava do Afif…com xingamentos e o escambau.
    Sim, Lauro, fez muito bem, para o Brasil e para todos nós…

  6. 1989 foi demais! Eu adesivei toda a minha bicicleta (Monark BMX, pesada carroça) com uns 100 Brizolas. Em Montes Claros, o ”filhote da ditadura” conquistou toda a classe média e eu já me estressava tentando alertá-los. Lembro que a discussão raramente caia em coisas legais. Uma madame de MoC chegou a me dizer que se o Brasil virasse colônia dos EUA seria MARAVILHOSO.

  7. Acho que aquela eleição matou o Brizola. Depois dela só desceu a ladeira. Erro grave do PT foi deixar ele ser vice do Lula anos depois.

  8. eu posso tá enganado, mas teve uma mudança no final da novela “que rei sou eu”, onde fodia com o lula, ou fazia referência.

  9. Na mesma onda do Maikon, lembro que uma das edições do Fantástico anteriores à eleição fazia uma relação dos EUA com a URSS. Nos EUA a galera tinha vídeo cassete, carro, viajava x vezes por ano e na URSS quem tinha a mais teria de devolver ao Estado para que outra pessoa fosse contemplada; a velha história de que alguém vai morar no quarto que está sobrando na sua casa, que se tiver 2 carros, um tem que ser devolvido. O discurso da Globo estava sincronizado com a campanha do Collor que usou de argumentos semelhantes para botar um pavor na galera, o mesmo medo que a Regina sentiu nas eleições passadas.

  10. Me lembro do jingle da campanha: Lula-lá, brilha uma estrela, Lula-lá valeu a espera…Lula-lá, meu primeiro voto pra valer, brilhar uma estrela…
    A maior emoção na hora da cantoria.
    Pra variar, texto lindo Lauro!
    Bjim

  11. Eu andava com os irmãos do Adriano Tuquinha colando cartazes do Lula nos postes do Esplanada, lembro bem disso. Mas se fosse votar, ia preferir o Covas, gostava do tucaninho amarelo e nem ligava picas pro que tava rolando.
    Esse lance da novela rolou mesmo Maikon. De um jeito mais acanhado acho que rolou a mesma coisa com o Guma em 2001 ou 2002, não me lembro direito, mas dessa vez com um protagonista que era de esquerda.

  12. Puta, são muitas lembranças também. Minha mãe era Lulista, meu pai votou no Enéas e toda minha família em SP era Maluf. Em Minas não lembro. Eu comecei Afif e depois virei Lula. Meu irmão era Collor, eu acho. Aqui se colecionava também material de campanha, era muito louco. O super trunfo era um panfleto que jogaram de helicóptero por toda Santo André, falando que o PT era do demônio, fazendo uma série de conspirações, e que a nação inteira ia ser pintada de vermelho, a cor do demônio. Lembro da vizinha que comandava o comitê do PT do bairro, de um sapateiro velhinho portuga comuna. Era um ambiente muito bom. Na escola teve uma simulação de eleição – o Lula ganhou. Muitas memórias boas. Em SantoAndré a base do Pt era fortíssima, galera mega empenhada…

  13. Em 1989 estava servindo o exército. Houve um episódio em que o assunto da eleição surgiu entre um grupo de soldados. eu disse que se pudesse votar(naquela época os soldados não podiam votar) votaria no Lula. No grupo havia um sargento que me reprovou. se tivesse ficado nisso tudo bem. O tal do srgento me contou o fato pro capitão da minha bateria. O capitão me chamou no seu gabinete e me passou um sermão e um final de semana detido varrendo o quartel. Obviamente não mudei de ideia. Devia ter radicalizado pintado a farda de vermelho ou alguma coisa assim…Teria sido expulso com certeza e me livrado daquilo um pouco mais cedo.

  14. Eu lembro que a molecada pegava os adesivos e fazia os nomes dos candidatos virarem outras coisas, Brizola virava izola, Maluf virava mula, o que depois serviu pro Lula também, Afif virava Fifa.
    Lembro de estar andando de bike e encontrar a carreata que comemorava a passagem do Lula para o 2º turno, a partir daquele momento comecei a torcer pro Barba na eleição, o que me rendeu o apelido de Lulinha na vizinhança, que não gostava nenhum pouco do Lula. Um vizinho meu votou no Maluf porque, segundo ele, o Dr. Paulo iria legalizar o jogo do bicho, várias pessoas votaram no Collor pq achavam-no um gato. Lembro que teve comício do Collor na rinha e do Aureliano Chaves na avenida, eu e um amigo ficamos felizes de apertar a mão do figura. Lembro que a Claudia Raia pagava pau pro Fernandinho.

  15. Topei com este blog por acaso. Quando vi a quem pertencia, parei para olhar com atenção dobrada (embora eu só tenha conhecido de fato um dos irmãos, o Lauro, por meio de meu cunhado Rafinha). Não resisti ao convite para partilhar lembranças de 1989. Na redação onde trabalhava, acontecia algo insólito: todo mundo tinha veleidades petistas, mas ia votar no Covas. A leitura era a de que se Lula fosse para o segundo turno, não ganhava. E se ganhasse, não levava. E se levasse, derrubavam. Desnecessário dizer que, no segundo turno, todo esse raciocínio tático se desmanchou diante do pavor de ver o Collor eleito. A empolgação com o crescimento nas pesquisas, o crescimento da campanha na TV e o que a gente ouvia no conforto das rodinhas de amigos, tudo indicava que ia dar Lula. Lembro, porém, que, andando de carro pela cidade na véspera da eleição, senti um calafrio ao ver a quantidade de bandeiras colloridas, pela primeira vez rivalizando para valer com o vermelho que há um mês tingia as ruas. Era a São Paulo real, careta e preconceituosa botando a cara para fora. Deu no que deu, com a forcinha dos congêneres paranaenses. Mas teve seu lado bom, do ponto de vista estritamente pessoal: puto, decidi na hora que não ia ver a posse do infeliz. Às pressas, descolei férias e licença no trampo, juntei meus cobres e me mandei para a Europa – e parti um dia antes do confisco da poupança.

  16. Vi essa notícia agora e queria que vocês dessem uma olhada. Em resumo, a Globo comprou os direitos do filme do Lula e afirma que não vai ao ar até 2011 por causa das eleições do ano que vem. Primeira pergunta: 1) quem a Globo pensa que é para decidir o que é ético ou não para ir pro ar?
    2) por que não agiu com a mesma isenção em 89? 3)Se fosse o filme de outro político agiriam da mesma maneira?

    Tirem suas conclusões: http://br.noticias.yahoo.com/s/07122009/48/entretenimento-filme-lula-nao-virar-serie.html

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