O rock jovem do Cidadão Instigado

Recentemente, eu escrevi uma pequena resenha sobre o disco novo do Cidadão Instigado para a Vice. Como gostei muito do disco e a revista não tinha tanto espaço, acabei publicando uma versão resumida do que eu queria falar. Publico aqui uma versão maior.

Só fera
Só fera

O pior da imprensa musical é quando ela quer te dar uma dica pra você sacar o que tá rolando… O Cidadão Instigado é uma vitima constante desse papinho. Falam tudo deles, inventam um monte de estilos e filiações. O foda é que nessa, esquecem que a melhor banda de rock do Brasil não é nada mais do que uma banda de rock.

O novo disco deles, Uhuuu!, mostra isso. O Cidadão é  o que rock sempre foi antes de transformarem tudo em música segmentada. Não quer se encaixar em nenhuma pré-determinação. Não quer ficar menor pra caber numa prateleira. As canções são ousadas, batem o pé na porta da caretice e são essencialmente pessoais e confessionais. Ou seja, no mundo do Cidadão, não tem essa de fazer média com o mundo do “bom gosto” ou com a discoteca do tiozão estabelecido. O negócio é fazer de um jeito que ninguém faz e incomodar a caretice.

Antes da MTV transformar o gosto das pessoas em uma prateleira de supermercado que inclui videoclipe, pulseira, boné, maquiagem e gíria, a juventude costumava gostar de um som, de cantar a música e ponto final. E o som jovem era ousado. Pros velhos de um passado já bem distante, os Beatles eram uma barulheira, até o rei Roberto já foi. O Caetano era vaiado em shows. O discurso do “É proibido proibir” é antes de nada uma reação estética a um padrão que o público considerava inadequado. O que dizer dos punks brasileiros. Era tudo o que o terceiro mundo tinha de miséria escancarado a enésima potência. Hoje, fora do universo do hip hop, todo mundo é bonzinho. E muitos se esforçam para se adequar ao esforço do que a fraca imprensa musical apresenta como qualidade. Nunca tanta gente teve o mesmo gosto musical. O Cidadão não ameaça ninguém em tempos de democracia, mas não dá o braço a torcer pra caretice e não se envergonha de suas paixões – principalmente das musicais.

Uma banda que abre o disco com a ordem: “abra as portas das suas casas e deixem os ladrões entrarem” já anuncia que a batata vai assar. Trata de te dizer que é hora de rearranjar as coisas da música no Brasil. E que esse rearranjo não deve se pautar na discografia amada e idolatrada nos cadernos de cultura. É hora de passar pra outra página, de preferência impressa em outra gráfica.

O Cidadão me impressionou já no Ciclo da Dê.Cadência, primeiro álbum da banda. Ali a guitarrinha muito bem tocada do Fernando Catatau fazia questão de nos contar história que partiam de uma idéia parecida com a da trilha sonora. Tudo muito variado, muito rock, Santana, King Crimson, barulheira, gritaria e histórias  sofridas de sujeito (s) solitário(s) que vivem em um ambiente que nunca é seu.

Essas histórias do cara que nunca está em casa parecem ser uma constante nas letras do Catatau . O lugar que faz bem é sempre lá fora.

No disco seguinte, O método Tufo de Experimentos, o Cidadão levava essa desolação pro romantismo. Daí nasceu essa pecha de identificar a musica do Catatau e companhia com o cancioneiro de Márcio Greyck ou Fernando Mendes. Chamavam de rock brega, rock isso e aquilo. Mas era mais que isso, Catatau começou é a botar pra quebrar em um som que já era muito identificável. Música pra dançar, romantismo e uma procura em ser o mais sincero possível. O Cidadão tinha um som único e identificável há 900 quilômetros de distância.

Ali também, o Catatau começou a abandonar  a palheta. A guitarra é dedilhada. A ponta dos dedos traz mais delicadeza aos arranjos e uma sonoridade muito diferente também.

No Uhuu!, o Cidadão Instigado descobre o que o pessoal que não deu tanta bola para a MTV sempre soube: todas essas referências que apareciam no grupo cearense são unicamente rock. Só pra começar a conversa, o trabalho corre solitário como um Usain Bolt na briga pra ganhar o titulo de melhor disco do ano. Diferente do que se escreveu por aí, não é um disco de concessões ao pop, é um disco mais feliz e essencialmente jovem.

Os ecos ali têm um pouco de rock 80 do Brasil, musica romântica brasileira, psicodelia e rock progressivo. Muiro corajoso, bota fé que rock não tem absolutamente nada a ver com bom gosto estabelecido e que a missão da música jovem é expressar a inadequação de quem passa a maior parte do tempo só como comentarista dos fatos. É música que desafia tudo e não tem poder nenhum pra mudar as coisas – pelo menos, em um primeiro momento.

O melhor é que o Catatau nessa história não dá voz pra quem tenta conceituar as saídas ou quem sai pela porta descolada. As letras em “Deus é uma Viagem”, “Doido”, “Cabeção” e tantas outras fala é dos malucos esquecidos por aí que passam o tempo pensando no que pode ser feito a respeito de qualquer coisa.

Os arranjos também parecem ter sido tirados do Achados e Perdidos de uma rodoviária perdida pelo Brasil. O negócio é recriado a partir de rock setentista (King Crimson e Santana, principalmente), efeitos e eletrônica dos oitenta (Em “Como as Luzes”, a guitarra lembra Dire Straits). O essencial é que o Cidadão retoma (e recria) em seu novo disco um som jovem no Brasil que fazia questão de ser porta-voz de uma geração, em que expressar os sentimentos de um jeito bem aberto e sem preocupação em se encaixar.

Todo mundo tem de escutar. Mesmo composto por trintões e até quarentões, o Cidadão rejuvenesce a música brasileira e só isso já é muito bom.

11 comentários sobre “O rock jovem do Cidadão Instigado

  1. FERA NENEM! Esse foi daqueles textos que deu dor no coração de cortar. Mas taí está, em toda sua glória. SUMEMU!

  2. O texto é muito bom e não é só pq dá uma vontade incrível de ouvir o disco, mas sobretudo porque coloca as coisas no seu devido lugar. O rock (o verdadeiro, claro) não faz pose, nem careta, nem comércio, nem é música pra comer menininhas desavisadas afim de uma noite com o novo rockstar; o rock prima por uma independência de pensamento, quer dar um sentido para as coisas, que não é o imposto pelos meios de comunicação ou escolas de música, é, antes de tudo, uma(r)evolução interna. É isso o que me encantou quando ouvi Beatles pela primeira vez, saquei que ninguém ali estava de brincadeira, que música , mesmo quando é irreverente, é algo muito sério. Neil Young é outro que nunca me soou falso ou vazio, sempre fez sentido antes mesmo de eu saber o que queriam dizer suas letras. Esse pessoal todo influenciou minha vida, são responsáveis por muito do que me tornei e isso só se deu pela responsa que fizeram seus trabalhos.
    A música (ou boa parte dela) se tornou tão ruim hj em dia pq o sujeito, antes de pensar em fazer ou ouvir música, pensa em fazer sucesso, pensa em garantir seu futuro econômico (ou diversão sexual) se vendendo pro primeiro produtor que queira transformar sua “banda” num produtozinho comercial.
    O que me chama a atenção no Cidadão Instigado, dentre outras coisas, é a honestidade musical citada no texto e a capacidade de pegar influências que eu não curto nenhum pouco, caso de Raul Seixas em algumas músicas do 1º disco, por ex, e transformar isso em uma música interessante, bonita.
    Vida longa à banda, parabéns ao Lauro pelo texto.

  3. Pois é Zóio,mas acho que tem mais. Porque esse comercialismo ou essa obsessão da banda como uma fonte de poder sempre aconteceu. O que eu acho mais treta é que, em algum momento, uma coisa mudou mesmo nessa posição mais contracultural do rock.
    Na faculdade, eu li um texto do Marcuse que elucidava muito essa questão. Ele escrevia que os mecanismos da indústria cultural absorviam as críticas e a agressividade do que surgia como contracultural e o reprocessava em produtos.
    Tudo que era novo,que propunha novos costumes e uma maneira nova de ver o mundo, era reprocessado em uma camiseta, em discos em uma ideologia legal que cabia no processo produtivo.
    O rock hj, na maior parte das vezes, nem propõe e nem desafia mais nada. É um grande catálogo de opções em que os músicos de antemão escolhem um repertório,um jeito de se vestir e de se expressar sobre o mundo.
    Ontem eu tava assistindo um programa no Multishow em que eles colocam um monte de meninos de 17,18 anos em um estúdio pra ver se sai uma banda dali.
    Os meninos são todos novinhos, mas todos já têm um estilo,sabem o que tocam,se vestem como tal. Todos já estão prontos e embalados. É só requentar e usar.
    Na sequência,no mesmo canal, duas bandas: uma era tipo anos 80,com roupinha, vocais e cortes de cabelo e outra parecia o Alman Brothers, com todo figurino,instrumentos, vozes,imitação do sotaque em inglês.Ou seja,antes de mais nada, eles são um estilo. E as bandas já se posicionam para ninguém ter dúvidas do que eles fazem.
    Eu não me interesso por isso. Sempre odiei as bandas cover. Odeio as bandas cover que compõem música tb. O que me interessa é o que se descola desse modelo.
    Por isso eu dou tanto valor pra quem se coloca com tanta sinceridade e com um pessoal tão forte no palco. Quem se coloca como indivíduo mesmo e mostra a gama de interesses e inquietações.
    Acho que essa conversa rende bastante viu…

    E escutem todos o disco por que ele é muito bom.

  4. não conhecia esse som. Achei bacana. lembra memso o King Crimson. Outro cara que eu gosto é o Jupiter Maçã, as músicas dele são sempre uma coisa imprevisível de estruturas malucas , nunca se sabe o que vai acontecer ou o que ele vai misturar, tudo muito anárquico, inventivo. A música brasileira nunca precisou tanto de gente que não fique reciclando o que já deu certo. Não aguento mais ouvir cantora nova e pensar essa é a Gal do tempo do Vapor Barato, essa aqui é Nara Leão. tem gente com cara de pau de pegar repertório dos outros, não de compositor pra fazer songbook, mas de outros intérpretes pra cantar tudo de novo. Clara Nunes, Bethania, Gal, Nara, sempre regravaram compositores antigos, mas nenhuma delas tava querendo reciclar nada, mesmo porque o que se recicla é lixo, o que é bom não precisa ser relido.

  5. Cara, eu não me incomodo com o rock ser uma fonte de renda e de poder. Montar banda para pegar as meninas rendeu ótimos grupos.
    O que me enche o saco é ver como a música pop agora é uma espécie de “bom gosto”.

    Em algo que tem mais significado cultural que musical. Outro dia vi um sujeito dizer que o modo de vestir de um artista sempre diz muito sobre ele. Que isso? Não quero nem saber quem é quem fez o que eu gosto, quero só curtir a sua obra. Senão tudo vira a revista contigo, aliás, acho que já virou…

  6. Pois é e nessas que eu me interesso pelo Cidadão e por outras bandas. Em primeiro lugar pelo interesse pelo mundo e pelas pessoas do mundo que eles mostram nas músicas deles. E as canções sempre tentam – como o Zóio apontou – buscar uma interpretação muito pessoal de coisas muito de canto na prateleira.

    Eu até acho bonita a música nova do Jupiter Maçã, mas acho muito parecida com o Scott Walker.

    Quanto essa mania de cantora se fazer com o repertório alheio e ainda se divulgar como uma cantora original e não como um mero cover é o cúmulo de toda essa bizarria pós-moderna em que o festival de citações vale mais do que tudo .

  7. “não faz pose, nem careta, nem comércio, nem é música pra comer menininhas desavisadas afim de uma noite com o novo rockstar” – Pô Zoio, a gente tá falando de rock, num é?

  8. Estamos sim, Arthur, só que poderia ser qualquer outra coisa, o sujeito que faz sertanejo, axé ou qualquer outro tipo de som quer esse mesmo sucesso e usa dos mesmos trejeitos para consegui-lo. Tudo isso pode ser até uma motivação, mas está longe de ser o mais importante. O que tentei dizer é que o que deveria realmente importar está longe de ser conseguir grana ou trepadas, muitos conseguiram isso e estão longe de ser chamados músicos ou rockeiros. O mais importante em fazer música é fazer música, não sucesso.

  9. Eu entendo essa inquietação do Fabiano. é foda mesmo, hoje em dia você pega os cadernos de música e como soa a música é muito pouco mencionado. Costuma dizer que gênero o sujeito representa, quem ele conhece, mas música que é bom, nada. Por vezes eles falam de ritmo (que parece ter dominância sobre tudo), talvez, nos melhores casos, um pouquinho de melodia. Agora, harmonia, arranjos, pode esquecer.

  10. Sensacional!!!
    Música sem preconceito e/ou rotulos, música feita para alma, dá até vontade de chorar de tão honesto que é o novo disco. Honestidade! Isso que a nossa música está pedindo e o cidadão resgatou um pouco disto.

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