ANA PRATA: JOGO DE DESMONTAR

Nos últimos anos, o público deu atenção a uma nova geração de pintores figurativos. Dentre eles, a que eu conheço e acompanho a mais tempo é a Ana Prata. Vi a sua produção desde o começo. No dia 22 de outubro, ela inaugura a sua primeira individual, no Mariantonia. Tive a honra de escrever o texto de apresentação. Como o formato do catálogo de lá é menorzinho, reduzi o texto. Mas aqui, os leitores do Guaciara lêm a primeira versão:

“Vaca”, 2009, óleo sobre tela, 195x236cm
“Vaca”, 2009, óleo sobre tela, 195x236cm

Regra tem para tudo, para desobedecer e para seguir. Na crítica de arte, normas simples ajudam muito. Uma é de ouro: para descrever a obra, não basta contar a história do tema. Se o trabalho é figurativo, só dizer o que está representado é pouco. No entanto, se alguém me contar que viu o que vejo acontecer nas pinturas de Ana Prata, dificilmente eu acreditaria. Acho que é isso o que ela quer.

Como crer que uma vaca derrete até se solidificar no vidro traseiro de um carro que anda em meio à neve? Na tela Vaca, um veículo amarelo segue moroso enquanto, por detrás de seu vidro , o animal se desmancha, o carro se desfaz e a paisagem ao redor também se desmancha. As figuras são menos figuras e ficam mais manchas depois do tratamento da artista. Tudo vira borrão de tinta, mancha. Tudo tem o mesmo peso: ferro, pele, vidro, sombra, neve, luz, tinta.

Quando pinta uma tela, a artista também segue as suas regras. Trabalha, geralmente, dentro de procedimentos que mudam pouco. Escolhe uma imagem fotográfica e a transpõe para a estrutura de um quadro. Na pintura, as partes parecem não obedecer à mesma iluminação que na fotografia. A imagem perde duas de suas características: a luz e a verossimilhança.

A pintora dá valor diferente a cada figura. Faz isso pela cor, pela pincelada e pela carga de tinta aplicada em cada parte. De uma ponta a outra do processo, o que era fotografado torna-se algo muito diverso do que aparece nas cores das tintas.

Embora seja um ponto de partida muito comum na arte de hoje, faz tempo que os artistas transpõem imagens de uma técnica para outra. No século XVII, na Roma barroca, muita gente conhecia as pinturas de grandes mestres, como Tintoretto e Dürer, através das reproduções feitas em gravura pelos irmãos Agostino e Anibale Carracci, entre outros artistas.

O historiador G.C. Argan afirma que, mais do que cópias, estes trabalhos eram traduções. Em um tamanho e em uma técnica diferente, os artistas ofereciam um “modelo de leitura[1]” das obras originais. Assim, ao refazer uma obra, os gravadores comentavam aspectos do original e reforçavam as características percebidas no trabalho em que eles se inspiraram.

“Mesa”, 2009, óleo sobre tela, 131x196cm
“Mesa”, 2009, óleo sobre tela, 131x196cm

Ana quase inverte o procedimento. Ao passar as imagens de uma técnica para outra, ela não revela a unidade da obra, mas a descaracteriza. A artista não comenta a técnica, mas acha naqueles significantes uma possibilidade de mostrar outra coisa. Assim, ao invés de restituir o sentido da imagem, ela o desmonta, o desfaz.

Os pedaços de uma mesma figura aqui têm ênfases de cor diferentes. Ana Prata desmancha um papel toalha no cinza da parede, como se afastasse as peças de um quebra cabeça e remontasse outra imagem. No trocadilho, o sentido da frase é desfeito e recomposto de uma forma irônica. Aqui se trata da visão e não tem ironia. É um jogo de montar e desmontar em que a imagem inicial se perde, mas a pintura ganha.

“Revista”, 2008, óleo sobre tela, 180x170cm
“Revista”, 2008, óleo sobre tela, 180x170cm

[1] ARGAN, Giulio Carlo: “O valor crítico da “gravura de tradução”” em Imagem e Persuasão. São Paulo: Companhia das Letras, 2004 (tradução: Maurício Santana Dias). (p.18)

 

12 comentários sobre “ANA PRATA: JOGO DE DESMONTAR

  1. bacana, tiagão… vou lá ver as coisas da ana.

    abs
    P.S.: os textos do Ceuma dão aflição de tão curtos…

  2. Victor, a Ana retira imagens de vários lugares. Da imprensa, de registros amadores da internet e do acervo de imagens dela e de amigos. Muitas das vezes, escolhe imagens falhadas (como as que ficam entre duas páginas da revista, as de baixa definição da internet e anônimas. A idéia é não se associar a tela à foto.
    Por isso, ela não parte de imagens conhecidas. O processo de descaracterização não quer mostrar o que é descaracterizado, mas mostrar uma imagem nova de pé, feita com pedaços de uma outra imagem.

    André, ela é ótima mesmo. Guy, vai mesmo, você vai curtir. Agora, a versão lá do Mariantonia ficou legal também
    abrações

  3. Tiago, há alguma bibliografia que você conheça e que se possa procurar com referência à Ana Prata e seus trabalhos?
    O que você indicaria?

  4. Cleo, ela é muito jovem. Existem poucos textos sobre ela. Conheço o meu e um que o Rodrigo Andrade escreveu para uma exposição coletiva. Caso você queira saber mais, me escreva, vou ver o que eu te consigo
    abração

  5. Oi Felipe, a gente tem deixado o e-mail meio de lado. Precisamos olhar com mais regularidade. Vacilão dos três aqui do Guaci. Vou olhar lá agora. Desculpa e abs.

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