Desenhos de sucata de Fabio Zimbres

No número 13 da revista +Soma, tive a honra de publicar um texto crítico sobre Fabio Zimbres. Faz tempo que este artigo estava na cachola.

Aproveitei o lançamento do último álbum do artista, a generosidade do Mateus Potumati e mandei brasa. Agora a revista está on-line, aproveito e publico um trechinho do que saiu lá.  De lambuja, trechos da HQ e imagens da exposição de Zimbres no IMS de Porto Alegre. Quem quiser ler o texto todo, clique aqui:

Quando o desenhista começou a trabalhar os seus livros de artista, como Adelante, A luta entre o bem e o mal e Balanço anual, os assuntos passaram a ser a forma de o desenho ocupar a página, a falta de sentido de signos soltos e mesmo a tentativa de retirar qualquer sentido moral das figuras. O traço do artista tentava diminuir a zero o grau de interpretação do traço. Não se tratava mais de quadrados que se sucediam criando uma narrativa no tempo, mas figuras que ocupavam um espaço e faziam algo naquelas páginas por se associarem de uma forma meio solta.

Livros como As Férias de Hércules e o trabalho magistral feito a partir do poema Panamá (2004), de Blaise Cendrars, aproveitam o caráter gráfico e intercambiável das figuras. Entre as páginas tudo acontece ao mesmo tempo. As figuras muitas vezes são tratadas como caracteres, soltos no espaço, que mudam de sentido de acordo com o contexto. Como palavras que utilizadas em um lugar diferente aludem a sentidos diversos.

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Como em seu gibi magistral Música Para Antropomorfos (2007), uma hora um homem esquisito é apresentado como um sujeito solitário, a criar bichos de sucata e atribuir vida a eles, e depois é mostrado como um prédio. Torna-se um grande empreendimento imobiliário, onde acontecem golpes de estado, programas culturais e todo o tipo de absurdo da razão.

A partir desse momento, o artista estabelece uma relação solta entre os seus elementos. As cenas são sugeridas, mas cheias de interferências. Trata-se de formas de sugestão que se misturam, criando a possibilidade de diversos eventos que acontecem ao mesmo tempo. A ilusão feita e refeita pela proximidade das figuras. Quando refaz as imagens de Cendrars em Panamá, Zimbres procura isso. Aqui, permito-me aproximar alguns desses procedimentos poéticos de decisões das primeiras vanguardas modernistas. Por um lado, a associação vem do trabalho feito a partir do poema de Cendrars, mas essa dissolução da cena cria relações soltas entre as figuras e mesmo entre os elementos de cada figura.

Mal comparando, quando Picasso e Braque, em 1908, durante o chamado cubismo analítico, resolveram desmanchar o volume e dissociar os contornos e cores do desenho de algo geometricamente sólido, puderam criar outras relações e trouxeram liberdade para a arte. Nas telas daquele período os dois artistas passaram a decompor a imagem. Logo as faces de uma paisagem eram tão planas quanto as letras da tipografia e assim, passavam a se relacionar como elementos superficiais sobre a tela. Estes elementos por vezes sugeriam imagens, por vezes apenas uma coisa ao lado da outra. Mas se tratava de um período heróico da modernidade, com confiança na razão e no seu potencial de colocar as coisas juntas.

Fabio Zimbres trabalha em outro período, a partir de outros elementos. Por exemplo, figura material obsoleto, fitas, disquetes. Imagens gastas, como a do Mickey. Seus desenhos e suas figuras se parecem com resíduos. Feitos de elementos de um futuro que já passou. Por isso, ainda se trata da ilusão. Em Música para Antropomorfos, a manutenção da primeira edição de alguns livros e a audição de discos na prensagem original faz toda a diferença. Os personagens, que acreditam viver em um ambiente superior, quando vivem enclausurados em um robô, acreditam que escutar uma música em um disco de vinil vai modificar a vida de um sujeito de um modo transformador que a cópia digital jamais fará. Enquanto vivem um golpe de Estado perdem tempo com discussões vitais sobre as diferenças de tradução do sábio Undraganah por Jundaí e Thelonious Monk.

Há pouco, Fabio Zimbres lançou Vida Boa. Sem dúvida, é uma das publicações do ano. Nele, o artista reuniu as tiras que ele publicou entre 1999 e 2001 na Folha de S Paulo, fez mais quarenta tiras e arrumou tudo em uma história. Nas tiras, acompanhamos as desventuras de um cachorro antropomorfizado a lamentar da sua falta de sorte, do seu fracasso e celebrar as suas conquistas para um copo.

O objeto começa a falar depois que um dos amigos de Hugo, também com cara de cachorro, diz que “Deus poderia ser um copo”. E o copo responde. Depois disso, não sabemos se os diálogos com o copo são o superego do protagonista a reclamar ou o um objeto bem acabado a caçoar da vida patética dele. O fato é que Hugo passa a depender completamente da interlocução com o objeto, tal como muitas outras formas de oráculo ou de manias que criamos para a vida. Mas a maior ilusão de Hugo é de que amanhã tudo bem. Pouco a pouco ele perde quase tudo, menos a esperança de dias felizes.

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O tema também aparece nos desenhos que o artista expôs neste ano em uma coletiva com Eduardo Haesbert e Gelson Radaelli na sede do Instituto Moreira Salles de Porto Alegre. Nesses trabalhos feitos a caneta, pedaços de figuração parecem inventar espaços domésticos e paisagens quase primitivas. Tudo parece de brinquedo, meio falso, como as promessas que fazemos pra nós mesmos deitados na cama ou, como o que Hugo faz diante de um copo vazio no álbum Vida boa: espera dias melhores.

Em 2006, Zimbres publicou um artigo sobre autoria em ilustração no jornal da Sociedade dos Ilustradores do Brasil. Nele, concluía: “Se o mercado de ilustração se resumisse a fazer sempre o que o editor quer, eu estaria fazendo outra coisa. Não porque ache isso menor, mas porque é uma forma de trabalhar que não me interessa pessoalmente. O mercado de ilustração é vasto e há muita coisa diferente para se fazer. O importante é cada artista achar seu lugar.”

Fabio Zimbres achou o seu, é um universo.


3 comentários sobre “Desenhos de sucata de Fabio Zimbres

  1. O DIA D PARA A MÚSICA BRASILEIRA.

    A PEC da Música irá à votação no dia 21, quarta feira, às 14h na Câmara dos Deputados e sua participação é decisiva!

    A presença dos músicos, artistas, produtores e outros interessados no tema é fundamental para pressionar os deputados a votarem a favor da PEC. Haverá estrutura para recebê-los e todos estão convidados!

    Precisamos de 308 votos (de um total de 513). Contate os deputados do seu estado e peça que votem a favor. Divulgue a proposta em suas redes de relacionamento, blogs, e-mails etc. Esta é a hora de pressionarmos.

    Dúvidas: Gabinete do Deputado Otavio Leite (autor da proposta)
    Em Brasília: (61) 3215-5437
    No Rio de Janeiro: (21) 3388-6240
    E-mail: tatiana@otavioleite.com.br / gabinete@otavioleite.com.br
    Saiba mais: http://www.otavioleite.com.br/pesquisa.asp?q=pec+da+musica

  2. Zimbres é outro nível, série A do campeonato brasileiro. Pabblo: tímido e genial o Zimbres é. Gaúcho não – ele é paulistano.

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