Os deputados anti-democráticos

É isso que pensa o pessoal da Veja e a turma do PPS
É isso que pensa o pessoal da Veja e a turma do PPS

Eu sou apoiador de primeira hora da acolhida do governo brasileiro a Manuel Zelaya. Pelo que tudo indica, o Itamaraty foi pego de surpresa na chegada do presidente legítimo a Honduras, mas mesmo assim o presidente Lula e o ministro Celso Amorim vêm agindo em nome da democracia. Acho que com golpe não se discute e  a intervenção do governo brasileiro obrigou (e o verbo é esse mesmo OBRIGAR) os golpistas de Honduras a retroceder e suspender o Estado de Sítio.

Se a volta do Zelaya à presidência se confirmar, essa vai ser sem dúvida uma das maiores conquistas diplomáticas da história do Brasil.

Alguns podem até achar exagero, mas não é. Quem pensa no histórico de golpes militares na América Latina e como eles rompem com a construção da autonomia continental e da possibilidade de se institucionalizar demandas econômicas e sociais sabe do que eu estou falando.

Fora isso, o interesse dos golpistas é necessariamente manter as coisas favorecendo a poucos. Pelo que parece, a maior preocupação da elite hondurenha com o golpe é saber se eles continuarão a ter visto autorizado para os Estados Unidos… O pior é que ainda existe uma Internacional Consumista que insiste em dar ares de ação democrática ao golpe: uns usam o argumento da ilegalidade de se pedir um referendo sobre segundo mandato, outros (até subprefeitos) trabalham com a possibilidade que Zelaya podia ser golpista e tem até poeta torturado otário que se justifica na base do chapéu e do bigode do Zelaya.

A briga contra os fatos é sempre violenta e procura esfacelar qualquer cabeça que pensa. Por isso, só há uma resposta nesse caso: Zelaya não promoveu nenhum golpe. Ele foi vítima de um sequestro orquestrado pelas Forças Armadas hondurenhas e pelo parlamento. No Brasil, um crime hediondo que pode dar até 30 anos de cadeia para quem o pratica. Na concepção do governo autoritário hondurenho e dos proprietários dos grandes grupos de comunicação, tal ação dá plenos poderes para os criminosos.

A Veja dá voz ao ditador Micheletti na edição dessa semana, depois reclama de ser chamada de imprensa golpista. Adoram um golpe. O ditador hondurenho podia ter aproveitado o ensejo e raptado o proprietário da editora que publica o semanário pró-ditadura. Seguindo a lógica hedionda desse pessoal, ele teria todo direito de assumir o controle do grupo empresarial e teria todo o respaldo da revista mais importante da companhia.

Mas o pior nem é isso. O pior é que a missão de deputados – os mesmos que aprovaram o sequestro relâmpago como crime hediondo – foi confraterizar com o ditador Micheletti em sua visita a Tegucigalpa. A informação é da jornalista Heloísa Vilela em entrevista para o blog Vi o Mundo, do Luiz Carlos Azenha. Só os deputados Janete Pietá (PT-SP)  e Ivan Valente (PSOl – SP) se recusaram a se confraternizar com o representante do governo ilegal. Os outros todos fizeram questão de reconhecer alguma autoridade naquele entulho de autoritarismo.

A idéia partiu – é claro – do deputado Raul Jungman da facção à direita dos DEMO, o PPS. O encontro não estava na agenda oficial dos parlamentares e foi feito só como uma photo opportunity ( o pessoal gosta muito de Opportunity, em geral).

Coloco um trecho da entrevista da  repórter Heloísa Vilela que narra o fato:

Viomundo – Na quinta-feira, os deputados federais Roberto Jungman (PPS-PE), Claudio Cajado (DEM-BA), Bruno Araújo (PSDB-PE), Maurício Rands (PT-PE), Ivan Valente (PSOL-SP)e Janete Pietá (PT-SP)estiveram em Tegucigalpa.  Conversaram com parlamentares locais, com o presidente deposto e Manuel Zelaya. No final, os quatro primeiros se reuniram durante quase duas horas com Roberto Micheletti. Esse encontro fazia parte da agenda?

Heloisa Villela – Não. Por isso mesmo os deputados Ivan Valente e Janete Pietá se recusaram a participar. Os dois ficaram irritadíssimos, pois o encontro não estava previsto e que não era o combinado. Testemunhei os seis parlamentares no elevador discutindo, mas o Ivan e a Janete não conseguiram convencer os outros. E acabou acontecendo aquele encontro.

Viomundo – Eles viram que você estava no elevador?

Heloisa Villela  – O Raul Jungman, do PPS, percebeu que o cinegrafista da Record, Joaquim Leite Neto, estava gravando, e só dizia assim: “Ivanzinho, por favor”. E o Ivan balançava a cabeça.

Viomundo – Na matéria que foi ao ar no JR, a imagem que me marcou foi a do Micheletti e dos parlamentares rindo. Foi esse mesmo o clima do encontro? Os quatro apertaram a mão manchada de sangue do Micheletti?

Heloisa Villela – O tom amistoso e a troca de gracinhas foram irritantes. Não houve cobrança e sim bate-papo. Perguntei ao Micheletti se a presença deputados brasileiros significava um reconhecimento do governo. Ele disse que os parlamentares não tem esse papel,  mas completou: “Espero que eles me ajudem”. Eles não só apertaram a mão do Micheletti como posaram para foto, todos juntos.

Viomundo – Como eles defenderam a visita ao Micheletti?

Heloisa Villela –  Que graças à visita ao Micheletti, eles conseguiram a garantia de que a integridade da embaixada brasileira jamais será violada. Isso não é correto. Essa garantia já havia sido dada, por Micheletti, há dias. Eles também disseram que, na conversa, pediram que as linhas de telefone da embaixada fossem restabelecidas e que o golpista prometeu fazer o favor. Nossa… que favor!

Viomundo – É verdade que o encontro foi regado a vinho e comidinhas?

Heloisa Villela – Infelizmente, é. Na hora acabou o encontro, eu disse ao Mauricio Rands, que tinha sido informada há poucos minutos da provável transferência dos camponeses para um presídio de segurança máxima, onde some muita gente. E perguntei como ele se sentia ao apertar a mão do representante do governo que estava fazendo isso. Ele não respondeu. Não se referiu a direitos humanos, direitos civis, nada. Ficou apenas repetindo o discurso ensaiado de véspera. E pior. Disse que a OEA vai negociar também com os golpistas. Quando comentei que a OEA tem mandato  para isso, ele saiu sem dizer mais nada. Uma decepção…

Viomundo – Na sua permanência em Honduras, qual o acontecimento que mais te chocou?

Heloisa Villela – Nada me chocou mais do que esse encontro dos deputados brasileiros com o Micheletti. Nem o cerco policial e militar à embaixada brasileira. Na verdade, uma barricada humana, que fica ali dia e noite. A grande maioria deles, meninos de 18 a 20 anos que vem do interior para garantir um sustento trabalhando na polícia e nas forças armadas. Aposto que muitos estão com o Zelaya. O Tenente Molina, porta-voz da polícia, disse abertamente que está com o presidente Zelaya. Mas ver nossos representantes fazendo aquele papelão, para jogar para a platéia no Brasil ou tentar com isso criticar o governo brasileiro, que não negocia com golpistas, realmente me deixou superchocada. Confesso, tremia de raiva na hora que fiz a primeira pergunta ao Rands.”

6 comentários sobre “Os deputados anti-democráticos

  1. Por falar em golpe, eu acredito no Raul Jungman, estou esperando o dia em que o Lula vai fazer igual ao Collor e tomar o dinheiro das nossas poupanças, tanto é que já tirei as minhas economias e coloquei dentro do colchão.
    A democracia da Veja é assim: é a favor da hegemonia norte-americana, dos governos de direita, é porque você é democrata; é a favor da socialização dos bens, dos governos esquerdistas eleitos através dos votos, você é antidemocrático. Democracia é uma palavra que serve pra apoiar os seus interesses e atacar os que não lhe convém. Falando nisso, a grande potência da América do Norte, tão preocupada com a implantação da democracia ao redor do mundo (não foi essa uma das justificativas pra matar o Sadam?), parece não se importar muito com a ditadura hondurenha. Em outro caso parecido na América Latina, planejaram e ajudaram a executar o golpe que tirou Hugo Chávez alguns dias do poder ao lado da mídia golpista local, muy democratas e coerentes!

  2. É foda mesmo viu Zóio, no final democracia vira um termo com dono pra esses caras. E até discussão terminológica é privatizada em favor de decisões bem rastaqués.

    Enquanto isso, o pessoal relativiza golpe e até chama de “golpe democrático”. Depois cai a audiência e ningué entende porquê.

  3. Esses demo-tucanos curtem o terceiro-mundismo num masoquismo louco. Aliás, curtem um passado recente onde ”seu filho não era crackeiro e só tirava 10 em toda prova”. Deviam usar um rótulo, como o da Intel: Terceiro mundo Inside.

  4. Jungmann:
    “Acho que nós devemos um pedido de desculpas ao povo hondurenho”
    Numa boa, incluindo todas as coisas podres que existem no brasil, hoje, há algo pior do que o PPS? De Freire+Soninha+Jungmann é difícil de ganhar.

  5. Jungman, se não bastasse toda a picaretagem, ainda é um dos campeões de ausência do congresso. É tocador de tambor oficial do Serra, trabalhar que é bom…

    http://www.congressoaberto.com.br/2009/10/os-ausentes/

    Fora os doadores de campanha. A listinha ali dá medo:

    http://www.congressoaberto.com.br/deputados-federais/pe/raul-jungmann/

    Além disso o PPS é campeão de ausências

    http://www.congressoaberto.com.br/partidos/PPS_23/

    O engraçado é que entre os faltantes em segundo lugar fica os Democratas e em terceiro o PSDB. Eles devem dar uma corridinha na liquidação da Daslu e se perderem por lá. É muita coisa boa.

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