Rio 2016

A escolha do Rio de Janeiro para sediar os jogos olímpicos de 2016 fez algo que apenas uma semifinal de Libertadores entre América-MG e São Paulo seria capaz: dividiu as opiniões na redação d’O Guaciara. O mau humor partiu de mim; quem quiser checar aí ao lado os meus tweets sobre o assunto vai ver que a história me tirou o sono na última sexta-feira.

Como temos sete longos anos para discutir esse assunto – eu vou ter quase quarenta anos quando rolarem as olimpíadas, e nem sei se terei pique de ir lá conferir – quero apenas começar a discussão apresentando alguns motivos para eu ter sido contra, desde o início, a candidatura do Rio e, mais ainda, a escolha da cidade como sede.

Nuzman: rindo à toa.
Nuzman: rindo à toa.

Antes de mais nada, deixa eu tirar algumas coisas do caminho. Correram por aí várias contra-críticas, por assim dizer, àqueles que não ficaram contentes com a decisão do COI. Não acho que se apliquem a mim. Ou pelo menos espero que não:

  1. É coisa de paulistano idiota, com inveja do Rio: Sou paulistano de criação, e em várias situações ajo como idiota. E tenho inveja do Rio, ou pelo menos de quem mora lá. Mas não acho que as três coisas se juntem na minha cabeça para me despertar esse incômodo com as olimpíadas. Minha crítica, se me permitem os cariocas, é fruto de meu amor pelo Rio, e pela tristeza que eu sinto com a condição daquela cidade, condição que só vai piorar com os jogos;
  2. Ser contra as olimpíadas é ser contra a política externa do governo Lula e, por extensão, contra todo o governo e  contra o próprio presidente: Votei sempre no PT, e nunca votei para outro candidato para presidente que não Luis Inácio Lula da Silva. E vou votar na Dilma. E depois, em 2014, ou 2018, vou votar no Lula de novo. E assim subsequentemente. Pago um pau para ele, e para o que o governo tem feito, ponto. Sou professor de ensino médio e me empolgo com as perspectivas que têm sido abertas para o segmento pelo Ministério da Educação; sou pós-graduando e me empolgo com o crescimento do incentivo à pesquisa no país, e com a expansão do ensino superior. Sou Lula. Odeio o PSDB. E, de mais a mais: não acho que a vitória em qualquer instância internacional seja relevante e mereça ser comemorada. Sei o quanto as olimpíadas foram simbólicas e politicamente relevantes no século XX (Hitler; Guerra Fria); desconfio disso no século XXI, principalmente depois das olimpíadas de Atenas. Elas são hoje muito mais um imenso circo multi-bilionário. E uma arapuca urbanística.
  3. Ficar contra as olimpíadas é se juntar ao Estadão, ao Reinaldo Azevedo, a todos os panacas que aproveitam qualquer coisa para propor um golpe de estado: Bom, se o argumento vale, os a favor das olimpíadas não estão em melhor companhia. A lista é longa, vou mencionar só alguns: Carlos Arthur Nuzman et caterva; Eduardo Paes et caterva; Joseph Blatter et caterva; Galvão Bueno, et caterva, isto é, e as organizações Globo; todo os representantes do setor imobiliário e de transportes do RJ; etc.

Agora passemos a algumas coisas mais relevantes. Eu acho que as olimpíadas são um péssimo negócio para a cidade do Rio de Janeiro. Não foi à toa que em Atenas, em 2004, os jogos enfrentaram oposição popular e, em Chicago, a candidatura da cidade foi bastante criticada e combatida por ONGs, associações de moradores, blogs. Desde 1964, apenas uma cidade teve lucro líquido com seus investimentos para o evento. Claro, a ideia é que o retorno seja de longo prazo, e não apenas considerando quanto dinheiro tem na caixinha logo depois da cerimônia de encerramento. Mas mesmo os efeitos de longo prazo são pequenos, quando não nulos. Vejam uns exemplos, retirados de um panfleto online do movimento de Chicago contra as olimpíadas, e tomam como base as experiências com olimpíadas desde a de Tóquio em 1964:

  • Olimpíadas não geram empregos, a não ser, claro, os temporários; todo o treinamento recebido pelos funcionários e voluntários acaba servindo, depois, para absolutamente nada;
  • Os equipamentos esportivos acabam ociosos e sem manutenção. Não dão início a escolinhas, muito menos a uma política esportiva. Não atraem nem turistas nem geram empregos.
  • Os efeitos sobre o turismo são negativos: diminuem o fluxo de turistas um ano antes e dois anos depois dos jogos, em média, em 10%;
  • As olimpíadas acabam gerando o fenômeno urbanístico de gentrificação, encarecendo os aluguéis das áreas ocupadas por estádios e vilas olímpicas. Atlanta foi o maior exemplo. Chicago teria destino igual. Morei sete meses nas imediações do parque Washington (área imensa no sul de Chicago que receberia grande parte da estrutura para o evento), de maioria afro-americana, com nível de renda misto mas tendendo ao “duro”: dá para imaginar como os negros pobres seriam tratados na Johannesburgo norte-americana (a expressão é deles) – basta ver como andam os preparativos para a Copa na África do Sul;
  • As olimpíadas “deslocaram” – expulsaram de sua moradia – 20 milhões de pessoas nos últimos vinte anos;
  • Invariavelmente, as olimpíadas dão início a uma blitzkrieg contra pobres e moradores de rua, criando um verdadeiro estado de exceção. Zonas da cidade são praticamente fechadas a quem não tiver ingresso, as ruas são socialmente higienizadas e a polícia passa a agir com truculência animalesca contra os não convidados para a festança de gringo que vamos montar.
  • No fim, o povo brasileiro vai assistir embasbacado americanos e chineses paparem todas as medalhas, e vamos lamentar mais uma vez a falta de política esportiva no país. Muita gente que eu conheço está proibida de dizer isso perto de mim desde já.
Protestos contra as olimpíadas têm sido recorrentes, ainda que abafados pela imprensa e pela empolgação do público de classe média
Protestos contra as olimpíadas têm sido recorrentes, ainda que abafados pela imprensa e pela empolgação do público de classe média

No final das contas, as olimpíadas são um grande evento, para usar uma fórmula antiquada mas grandiloquente, do casal Estado-Capital. Não é festa do povo. Atenas, e em certa medida Chicago, foi a prova de que, no século XXI, a política está na resistência de movimentos sociais e da esfera pública contra a violência estatal e a exploração capitalista, e não mais na promoção arqui-fascista da Nação para o deleite do resto mundo.

*

Ainda espero voltar ao assunto. Alguns tópicos me parecem importantes: primeiro, a persistência de um modelo de administração municipal neo-liberal que trata cidades como marcas a serem vendidas e divulgadas, e não como local de moradia, trabalho etc, e acima de tudo, como espaços de reprodução da desigualdade; segundo, a aposta, igualmente persistente, no modelo de desenvolvimento urbano questionável e problemático adotado por Barcelona, e que incluiu como estratégia central sediar as olimpíadas.

Recomendo, ainda, a leitura de dois artigos breves de David Zirin, colunista de esportes da revista americana The Nation: “Olympics in Chicago” e “The great olympic scam“. Olha a ironia: a favor das olimpíadas, toda a grande imprensa, inclusive os representantes do PIG; críticos das olimpíadas, a imprensa tradicionalmente de esquerda. Dá para ficar com uma pulga atrás da orelha, não?

60 comentários sobre “Rio 2016

  1. Parabens, Jay! Muito bom ler esses seus contrapontos. O debate neste topico devia durar os proximos 7 anos e um pouco adiante. Tenho muito o que aprender.

    Mas jah surge aqui um ponto que eu quero trucar: Como diz que nao rolam empregos decorrentes dessa promocao pesada do Rio e do Brasil?

    Abracos!

  2. ceara,
    diz-se que o impacto é muito curto sobre empregos. acho que mesmo a injeção de adrenalina no mercado de construção civil do tipo que as olimpíadas promovem não basta para mover muito indicador. não tenho certeza. a ideia toda é o efeito limitado, que não compensa nem os investimentos públicos nem o impacto urbano – e emocional, que eu estou ficando de cabelos brancos com essa história. Nunca imaginei que alguém fosse decidir fazer algo para piorar a condição do Rio nessa escala. Que ninguém fizesse nada com a condição da cidade, eu esperava, mas nao que se decisse deliberadamente apressar sua destruição. Aquela cidade é uma catástrofe, uma tragédia, voce não acha?

  3. E quem compara Rio com Londres ou mesmo Barcelona tá vendo muita novela do Manoel Carlos.

  4. Mas até aí quem compara com Atenas também tá assistindo muito programa de TV americano, daqueles que acham que Buenos Aires é a capital do Brasil. A Grécia é um apís pequeno e que ainda hoje depende qause que exclusivamente do turismo da comunidade européia. O Brasil é um país mais complexo e muito maior.

    E o Rio tem um planejamento industrial que irá mudar a configuração da cidade muito em breve. Muito disso vai se dever a economia do Pré sal. Além das olimpíadas muita coisa vai mudar no Rio em breve.

  5. Hello boys,
    (acho que nao conheço o Joaquim, enchantè).
    Morando aqui no Rio e vendo os não-resultados gerados pelo orçamento mal executado e estourado em 500% (onde foi parar este dinheiro todo? a quem pergunto só me falam do Engenhão…) fica muito difícil acreditar que a Olimpíada trará benefícios duradouros para a cidade…
    Discordo que haverá uma “completa destruição” da cidade (pior do que está não pode ficar). Claro que algum benefício ficará, residual.
    Muito bem colocados todos os pontos levantados acima. Concordo que não haja diminuição do desemprego na cidade diretamente e indiretamente no país por um período maior do que os empregos temporários oferecidos pelo evento, os benefícios continuam residuais.
    outra questão não levantada são investimentos (ou gastos) x benefícios econômicos e sociais, será que realmente vale a pena?
    Como o Lauro lembrou, ou Rio já tem um projeto antigo de reestruturação, principalmente da área portuária (algo parecido com Buenos Aires e Barcelona) que trará benefícios reais para a cidade, tanto por revitalizar áreas que voltarão a ser utilizadas para moradia (algo escasso no Rio, boa hora para comprar um prédio no centro do Rio hein pessoal?) e provavelmente também atrairão sede de empresas, como já ocorre em Puerto Madero (BsAs).
    É por falar em Barcelona, quando as pessoas comparam como esta cidade cresceu e prosperou após as Olimpíadas dá vontade de rir… eu só pergunto uma coisa: Para começar a comparação, qual foi o ponto de partida da estrutura econômica e social da cidade? se assemelhava ao Rio de agora em algum destes aspectos? acredito que não…
    Na minha opinião, é realmente preocupante termos uma Copa e uma Olimpíada para gerirmos nos próximos anos, temos que ficar de olho e monitorar de perto!
    Fica a dica, a ONG Trasnparência BR já começou a falar no assunto e se preparar para esta tarefa hercúlea, segue reportagem interessante:
    http://blogs.abril.com.br/rio-2016/2009/10/ong-transparencia-brasil-procura-investidor-para-fiscalizar-rio-2016.html
    Seguimos o debate e torço para que isto não vire uma Olim-piada.
    bjos

  6. valeu todo mundo.
    andressa, comentário precioso. a expressão “destruição completa” foi mais uma tirada tragicômica, não sei fazer direito essas coisas.
    laurão, o rio tá muito mais para atenas do que para londres ou barcelona, se formos insistir nos paralelos.
    tiago, falamos hoje sobre pequim, e não sei dizer muita coisa a não ser que a china é um monstro global, o brasil ainda não.

  7. Cara, mas acho que seria importante checar as variáveis gerais desse troço. Não sei o que dá para ser. Uma coisa é verdade, e não tem nada a ver com as conseqüências da Olimpíada, mas com as causas, o peso do país mudou mesmo. Eu vi o noticiário da CNN em espanhol e o que eles falavam era só que essa liderança continental, sobretudo na participação de crises locais (como a de Honduras) e internacionais (como a quebradeira econômica) que fez a sede ir para o Rio.
    De resto, não conheço muito bem do Transparência Brasil, mas os artigos do Claudio Weber Abramo dão um sono.
    Beijo Andressa, apareça mais

  8. laurão, de mais a mais, comparei o rio com atenas e chicago, ou falei de ambas as cidades nos exemplos. as grandes cidades brasileira estão em algum lugar entre uma e outra, você não acha?

  9. tiago, isso vai ser foda: a crítica à direita, e a crítica à esquerda desse troço. emparelhar com o estadão ou com o claudio weber abramo é dureza mesmo.

  10. Isso vai ser foda, mas acho que sobe o nível da discussão se diferenciarmos as diferentes posições, as razões da crítica e para onde aponta cada crítica. Acho importante pensar bem o assunto e suas ponderações são excelentes. Eu que não sei nada de nada a respeito disso, só queria saber mais, nem tenho opinião.
    Mas, mudando de assunto, o Claudio Weber Abramo devia também colocar a ong que ele dirige para apurar os custos do Rodoanel.
    Infelizmente ele não se interessa por isso

  11. Jay, sinceramente, eu acho que o Rio pode ter muito de Atenas e de Chicago, mas tem de Barcelona antes das Olimpíadas também. Uns teóricos bem amados pela tucanada como o Jordi Borja e o Manuel Castels tratam a Barcelona pré-olímpica como uma cidade bastante complicada urbanisticamente e a Espanha era uma potência européia que ainda se reorganizava institucionalmente.
    Quando a cidade foi escolhida, a capital da Catalunha não era a cidade que é hoje. A nova constituição espanhola tinha apenas oito anos e o país começava a se organizar economicamente. Ainda não existia Euro e os estímulos aos países ibéricos estavam apenas começando.
    Eles mudaram e muito o eixo urbanístico da cidade com isso. O processo lá, na verdade, começou com a revisão do plano urbano.
    O problema não é a Olimpíada em si, mas como a coisa vai ser feita. Acho errado tratar a olimpíada como uma maldição que devasta cidades.
    A cidade do México, que tem muito mais a ver com o Rio que qualquer uma das cidades citadas. Na virada dos 60 para os 70, o problema de habitação era um desafio da megalópole. E as administrações da época utilizaram a estrutura olímpica de 68 pra mudar a política habitacional da cidade que entrava em colapso por causa do inchaço populacional dos anos 60.
    A Vila Olímpica foi o centro da expansão residencial e conectava os bairros onde houve crescimento com vias de acesso e demais obras de infra-estrutura.
    No RJ, o uso da Zona Oeste (que é a área que mais cresce na cidade) pode ser positivo nesse sentido.
    No México, a Vila Olímpica e os complexos esportivos foram divididas em duas áreas da cidade, na periferia sul da cidade e mais ao centro. As duas mudaram os eixos habitacionais da cidade.
    Acho que o cenáro que o Jay desenha no texto dele é possível, mas não é inevitável, depende muito do questionamento político e da vontade de se contrapor a tudo que foi tão mal-feito no Pan.

  12. legal, a cidade do méxico é o mesmo o caso mais relevante para comparação. é uma zona, mas pela quantidade monstruosa de pessoas (25 milhões para mais) – e considerando que é a capital do país do Seu Madruga – até que anda. e teve muito disso lá: grandes reestruturações dos elementos da cidade. lembro principalmente da enorme avenida que corta a cidade de ponta a ponta e das duas perimetrais rodeando a gigantesca mancha urbana. não sabia que os jogos tinham tido esse efeito.
    o problema com o rio é que a ocupação da zona oeste parece acompanhar o padrão de “pula-cela” da cidade, acompanhando na direção sudoeste a faixa de areia, fugindo da zona norte e da baixada. e o dinheiro público vai atrás, levando infraestrutura.
    se o Rio repetisse a experiência da cidade do México, integrando zonas da cidade muito díspares, podia ser uma boa.

  13. E é bom lebrar que a história do México é bem parecida com o Brasil. Sediaram uma Olimpíada em 68 e uma Copa em 70. Não sei o impacto disso no país, mas acho que é um caso que pode ter paralelos com o que pode vir a ser do Brasil na mesma situação.

  14. adorei o texto, jay. o impacto sócio territorial de um investimento como esse é sempre assustador e infelizmente bastante previsível. mas se pensar antes sobre isso…quem sabe… Gostei do papo de gentrificação e cidade do méxico. 🙂 🙂 🙂 mas…como vc mesmo disse o barba é foda demais! tô bem fã ultimamente.

  15. Sou fã também, mas a última coisa que faz falta ao país é um “culto ao Lula”. Chorar com os seus discursos, ficar ensandecido quando se insinua uma crítica, etc. O governo Lula deve ser expressão de maturidade da democracia, e não motivo de pânico irracional com a possibilidade de alguém gostar de algo que ele disse ou fez menos do que você gostou.

  16. Eu acho legal que a discussão comece agora. Abrindo os trabalhos, acho que seria legal saber quais os planos ministeriais associados ao evento. Existem algumas metas a serem cumpridas? Existem algumas obrigações que a cidade e o estado do Rio devem seguir? Coisa menos relevante, mas importante, como o esporte olímpico brasileiro se beneficiária disto?
    Na última olimpíada o Brasil liberou uma grana preta e os resultados não foram animadores.

  17. A cidade do México vive uma situação urbana melhor que o Rio? Sei que eles têm muito mais metrô que SP, o que já é ótimo, mas não sei mais nada que isso

  18. eu estive no DF mexicano em 2004. é uma megalópole (faz são paulo parecer campinas), um trânsito e poluição dos infernos, muita violência e desigualdade. mas acho que é mais ajeitada do que o Rio em muita coisa. O Rio tem a tragédia sul-africana de separação completa, que a geografia facilita. a Ciudad de Mérrico é plana, acho que isso ajuda na integração viária, por exemplo. E o México bombou com petróleo também, na altura das olimpíadas, se nao me engano.
    O Demétrio esteve lá recentemente, e acho que podia dar uns pitacos.

  19. J., a síntese mais comentada em tudo que é sítio é o tal relatório da FIA, que se debruça sobre o caso carioca, dando conta dos números no que tange à geração de empregos e de divisas (além de outras coisas), e é bastante divergente de alguns dados que você mostrou.
    Me parece que seria um bom ponto de partida esmiuçar o que consta nesse estudo, pois o caso do Rio tem os complicadores da Copa, do PAC e da retomada do crescimento pelo país, sem falar que é a primeira vez que acontece no continente sulamericano. Tendo a avaliar que estes elementos (e muitos outros podem ser lembrados) tornam o Rio um caso bastante específico.

  20. Vi várias citações, como disse, mas não achei o texto do bendito até agora.

  21. Eu sei que é uma dica meio deprimente essa, mas no twitter da Cláudia Costin (pois é, tristeza), ela passa algumas informações do direcionamento que a prefeitura do Rio pretende dar às olimpíadas:

    http://twitter.com/ClaudiaCostin

    Quanto à cidade do México , é complicado falar do impacto das olimpíadas na cidade hoje em dia Tiago. Os jogos foram a mais de 40 anos e muita água já passou debaixo daquela ponte, depois de 68, inclusive outra Copa, em 86.

    A matéria aqui (http://g1.globo.com/Noticias/Rio/0,,MUL1326183-5606,00.html) tem alguns números da FIA.

    Outra coisa, eu acho que a Olimpíada é só um marco de grandes mudanças que estão por vir no Estado do Rio com a economia do Petróleo.

    Pelo que eu li as Olimpíadas vão acontecer principalmente na Zona Oeste, na área do Maracnã, na Zona Sul como um todo e na área rural de Deodoro (que eu nem sei onde é).

    Quanto à gentrificação, eu acho que com a administração que está aí, ela é inevitável. Não conheço tão bem o Rio, mas acho que muito dessa política Lacerdista devastadora, tem a ver com a desindustrialização da cidade e a desorganização dos movimentos populares.

    Os resíduos de brizolismo, ainda seguravam isso, mas depois da ascensão tecnocrata sem oposicionismo algum no Rio, acho difícil que alguma coisa aconteça que pense a cidade em uma lógica que não seja essa de torná-la um produto palatável. Com ou sem Olimpíadas…

    Na barbárie do tráfico de drogas, manda na cidade quem tem mais dinheiro. Eu boto fé na industrialização como agente de mudança disso.

  22. é, acho que as última intervenções de peso na cidade, a linha vermelha, cieps, etc. são da época do Brizola.

  23. E sobre o lance das comparações, acho que mesmo o Pan é diferente do evento das Olimpíadas, pelo menos no que diz respeito à diferença da postura das instituições públicas. No caso do Pan os governos chegaram pra pagar a conta somente, no fim da festa. Agora, pelo menos aparentemente, há coordenação de ações e discursos, maior presença e compromisso.

  24. No site do Ministério do Esporte: “Estudo indica que o investimento de US$ 14,4 bilhões previsto no projeto olímpico Rio 2016 vai provocar movimentação econômica de US$ 51,1 bilhões no Brasil; empregos chegarão a 120 mil anuais durante a fase de preparativos e realização do evento.”
    Vamos torcer para que a conta final não fique, como costuma ficar, de cinco a dez vezes mais cara (o orçamento inicial de Atenas era us$1.3 bi; terminaram com a fortuna de us$14 bi).

  25. E é uma loucura: no final da década de 1990, o COI exigia investimentos pelo menos 1.5 bi de dólares para quem quisesse levar as olimpíadas; quinze anos depois, o valor multiplicou por 10 (Rio levou com a proposta de 14bi de investimento).

  26. Laurão, boto fé na indústrialização também, assim como no setor de serviços qualificados. Mas taí uma coisa que um evento esportivo não vai promover. Isso seria promovido por obras de infraestrutura de outra ordem (portos, ferrovias etc), reformas fiscais e sei la mais o que, mas não obras de infraestrutura de esportes e turismo.
    dizem que as docas abandonadas do RJ receberão “hotéis, restaurantes”. Para quem? Para qual padrão de consumo? Os empregos gerados serão de arrumadeiras e garçons? Docas decadentes são, classicamente, linha de frente de gentrificação. Exemplo hoje clássico é Londres.

  27. eu passei 6 meses no México e acho uma cidade menos complicada de viver tanto em comparação com Rio como SP. A experiencia desses eventos ter sido boa pra cidade porque logo depois eles organizaram o Pan em 75 e mais uma copa do mundo em 86. Esse texto traz várias ponderações pertinentes e eu que confesso ter embarcado na canoa da euforia semana passada vou pensar mais um pouco.

  28. Em termos urbanísticos, a Cidade do México (ou DF, pronunciado “défe”, como eles gostam de chamar) é mais ou menos um bilhão de vezes melhor que Rio e São Paulo. Não vou dizer que o Rio é um bilhão de vezes mais bonito porque isso é óbvio; o que impressiona é que o DF, que tem muitas e muitas semelhanças com São Paulo, seja tão mais bonito que São Paulo – e é um bonito de São Paulo e DF: até Minhocão eles têm, e mil vezes maior que o nosso (e igualmente bizarro, claro), mas mesmo assim, no registro dessa, digamos, estética urbano-pujante-desigual-emergente, eles saem na frente em vários quesitos. O fato de ser a capital do país explica muito disso (acabei de assistir aqui no Observatório a um seminário do Adrian Lavalle, mexicano, aliás, sobre a construção de sociedades civis em São Paulo e no DF, que tem um estatuto político particular no federalismo mexicano e por isso pode contar no passado com investimentos pesados em coisas que não dão muitos votos, como esgoto, metrô etc.). O metrô deles é gigantesco – é verdade que parece uma favela ambulante, mas é melhor que o nosso, com cara de sala cirúrgica de tão limpo e brilhante mas restrito em termos de alcance espacial e cada vez mais lotado – graças em grande parte à incompetência do Kassab na área de transporte público (ônibus) – mas não só nessa área, infelizmente.
    O caso mexicano é em muitos outros pontos parecido com o caso brasileiro, com algumas coincidências de assombrar: o México experimentou na década de 60 e 70 do século passado um crescimento econômico impressionante, puxado por, quem adivinha?: gigantescas descobertas de petróleo no Golfo do México!!! Por aqui, pré-sal, crescimento econômico, diminuição da desigualdade e da pobreza e maior projeção internacional, tudo bem parecido com os irmãos do norte (mas ainda ao sul do Rio Grande), com uns 40-50 anos de diferença. As Olimpíadas da Cidade do México (68), bem como as Copas (70 e 86), foram usadas como modo de projeção internacional do México e como comemoração do visto eterno para o primeiro mundo – que, aliás, foi revogado faz tempo. Isso tudo está muito visível no DF até hoje: a cidade tem uma arquitetura e uma infra-estrutura invejáveis construídas para esses eventos, mas a promessa de dormir na América Latina e acordar na América do Norte não deu muito certo… e isso apesar das Olimpíadas, das Copas etc.
    A questão, portanto, das Olimpíadas no Rio, por incrível que pareça, passa ao largo das… Olimpíadas no Rio!! Elas devem ser vistas sobretudo como estratégia de promoção internacional – é uma festa, e quem convida, paga, que ninguém tenha dúvidas!! – com impactos positivos e negativos, como vocês todos já elencaram exaustivamente, sobre a cidade do Rio de Janeiro, que de fato é foda de linda e de gostosa de passear mas que também anda precisando de uma força. Parece-me, no entanto, que os impactos (positivos e negativos) da realização das Olimpíadas para o desenvolvimento nacional são desprezíveis; a questão é se isso vai ser uma das festas mais caras que já demos para comemorar tempos melhores (e olha que a turma aqui dá e gosta de festa direitinho…) ou a regravação de uma novela mexicana – muita maquiagem, bigodões pra tudo quanto é lado e um sentimento de ter parado em algum lugar no meio do caminho entre o subdesenvolvimento e uma sociedade mais justa. Por ora, acho que isso faz um bem danado para nossa auto-estima; vamos ver no que vai dar lá na frente.

  29. “For now, the games are still mostly popular with the British. But the public is taking notice of the expensive drawbacks.” (FP)

  30. “The budget for the games has quadrupled to a truly Olympic size: £9.3 billion ($15 billion), and rising.”

  31. “The common rejoinder to spiraling costs is that the Olympics make money for host cities. But the record is somewhat spottier than boosters admit. Athens and Beijing lost billions. Montreal, which hosted the games in 1976, took 30 years to pay off its loans. Los Angeles and Seoul made a tidy profit. Atlanta and Sydney broke even. It also depends on how you count: Is building a stadium factored into the cost? How about improving the subway? Expanding the housing stock? All this can leave a city with new and gleaming infrastructure — or a bunch of costly new houses no one wants to buy and stadiums no one wants to use.”

  32. Jay,
    Só hoje entrei no blogue, seguindo a sua recomendação por e-mail, a partir do papo que tivemos outro dia. Achei legal o texto e a discussão. Seus argumentos são bem convincentes. Mas agora, creio, não há muito o que fazer: o circo está a caminho…
    Abraço,
    FCM.

  33. Grande Fernando
    Valeu, e visite e comente sempre. O blog é pra isso mesmo!

  34. América x São Paulo, genial! Mas, quando a gente ganhou a Copa SP de juniores, nós não ganhamos de vocês?

  35. oi de novo pessoal,
    o assunto rendeu e acho que é isso mesmo, a comparação mais sensata de ser feita é com a Ciudad de Mexico e sua inteligente reorganização do espaço urbano mas parece que não é este o interesse do Rio… A proposta atual é de construirem uma nova vila olímpica na Barra, com financiamento do BNDES e depois deixarem que os construtores revendam a preço de mercado e embolsem todo o dinheiro do empreendimento… (como aconteceu no PAN).
    Saiu uma matéria no Globo de um urbanista propondo a construção da vila na Zona Portuária, aí sim beneficiaria as áreas críticas de moradia no Rio (que estão no lado oposto da Barra…). segue o link:
    http://moglobo.globo.com/integra.asp?txtUrl=/rio/rio2016/mat/2009/10/05/rio-2016-urbanista-sugere-que-vilas-olimpica-de-imprensa-fiquem-na-zona-portuaria-767926373.asp
    Abraço!

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