A cruz de Cimabue

Mais de uma vez, o nome de Cimabue foi colocado em descrédito. Não se sabe ao certo quais pinturas ele fez, não existe uma documentação precisa sobre a sua vida e, por anos, os pesquisadores precisaram desbastar camadas de mitos para encontrar, de fato, o artista. O jornalismo de hoje faz algo parecido: como não gostam de arte, fazem muito alvoroço para mitificar personalidades artísticas. Mentem um tanto, tergiversam um outro tanto e escondem a obra atrás desta muralha de fofocas. O mais comum é atribuir aos criadores um comportamento anormal, que justifique que eles façam o que façam.

Como a imprensa cultural demonstra ter experiência nenhuma com pesquisa e apuração, não sabem o mal que causam para as gerações futuras, que usarão este material. Pior para o público, pior para a história. No caso de Cimabue (c.1240 – 1302), as referências mais confiáveis, de Giorgio Vasari a Dante Alighieri, contam que o Cabeça de Boi foi o artista que provavelmente antecedeu a fama que Giotto teve em Florença e talvez tenha lhe dado uma ou duas lições. Ele foi um artista famoso no século XIII e durante o romantismo fez a alegria de um pessoal que queria colocar em descrédito o renascimento.

Quem gosta de história da arte, sabe que o discípulo, se é que ele foi discípulo mesmo, superou o mestre e fundou uma idéia moderna que fazemos da arte. Cimabue tornou-se uma curiosidade do gótico, um bom artista, mas que de tão característico do seu tempo ficou amarrado por lá com correntes pesadas. O seu gótico é peculiar: quis trazer aspectos gregos para o então chamado “estilo internacional”.

Outro dia, fiz uma descrição curta da obra do Cimabue para os meus alunos. Ficou legal, resolvi postar aqui. Acho que se trata de uma despedida de uma forma de se pensar a arte e o começo de outra. Uma pintura que pretendia revelar quem eram as divindades que ela pintava e outra que pretendia refletir a partir daquelas narrativas e lhes dar um sentido “exemplar”.

É claro que eu prefiro as massas sólidas e a cor de Giotto. Mas resolvi colocar um exercício de descrição do Crucifixo de Cimabue:

Cimabue: "Crucifixo de Santo Domenico" (Arezzo c1275)
Cimabue: "Crucifixo de Santo Domenico" (Arezzo c1275)

Quando Cimabue representa a agonia de Cristo na cruz transforma Jesus quase em uma chama, tal como a chama em que as catedrais góticas podem parecer. Do seu corpo, a carne é subtraída . Ele é visto como um homem que lentamente deixa de ser matéria e se transforma em espírito divino, melhor, o espírito da criação.

A forma sinuosa  do abdome tenta criar um espaço tridimensional, convincente, mas também O transforma em uma curva, uma figura plana, espiritual. Tal leveza, representaria o momento em que Deus filho abandona a carne e retorna ao reino da salvação de onde ele veio e de onde nunca mais voltará. Sabem disso São João e Nossa Senhora, por isso lamentam de longe, como se aquele corpo não estivesse diante deles.

Como na pintura bizantina, ou na pintura medieval mais tradicional, CIMABUE, que provavelmente foi importante na formação de Giotto, figura um ícone, não uma cena.

Segundo a tradição artística, desde a idade média, o ÍCONE é a apresentação da imagem sagrada, a demonstração que aquela imagem é sagrada. No caso de Cimabue, essa forma de sacralizar a figura de Cristo passa pelo retrato do sofrimento Dele e pela promessa de salvação ensinada por ele depois que morre e se torna espírito.

Embora trabalhe muito a partir de temas de Cimabue, nada pode ser mais distante da pintura de Giotto. Cimabue tenta articular um novo espaço na pintura, mas revivendo as idéias antigas da arte. Para Giotto importa a vida de Jesus como homem. Seu exemplo

Giotto, crucifixo (c.1295)

Giotto di Bondone: Crucificação na  Cappella degli Scrovegni, em Pádua (1304-1306)
Giotto di Bondone: "Crucificação" na Cappella degli Scrovegni, em Pádua (1304-1306)

10 comentários sobre “A cruz de Cimabue

  1. fiquei pensando se o cimabue, formalmente e também na pegada mística, se é que é o caso mesmo, não é importante depois pro el greco. tem a ver?

  2. Jay, não sei responder isso direito, mas dá para conjeturar. Então, a princípio seria de se pensar que um se opõe ao outro. A tradição que dá origem ao El greco é uma reflexão que se opõe ao gótico e mais, chama ele com esse nome por associá-lo aos bárbaros, ao declínio da cultura. Mas, para um olhar contemporâneo, a obra do el greco tem um aspecto espectral e além disso ele era Grego, o que torna possível especular sua proximidade com a produção dos bizantinos. Teria que checar e rever o El Greco melhor, mas não parece impossível relacionar uma coisa com outra.

  3. Jay, não sei se o Cimabue, especificamente, foi importante para o El Greco. Não conheço nem um e nem o outro o suficiente para falar isso. Agora, à época do El Greco o Cimabue era muito conhecido. Mais que isso, os dois têm um vínculo muito forte com as primeiras figurações cristãs e com o imaginário bizantino. Acho que dá para achar vínculo sim, só não sei qual é.
    abração

  4. Parabens. Sou Arte-educador, e procurando sobre a arte no primórdio do renascimento, me deparei com seu plogger. Que vou aproveitar a sua análise do “cricifixo” de Cimabue, para ilustrar teoricamente o meu trabalho com os alunos. Adorei, que bom, pois o ensino de arte na escola do ensino fundamental e médio, hoje, pressupõe um conteúdo fundamentado na história da arte, com leitura crítica da imagem, não só antiga, mas contemporânea. Sou Professor Especialista em Artes Visuais, de Campina Grande,Paraíba. E quem quiser manter contato segue meu e-mail: gilsonunes2000@bol.com.br

  5. Bom texto, a comparação e analise das diferenças com a obra de Giotto fazem sentido.
    A influência da iconografia grega é perceptível, tanto na técnica quanto na estética, no entanto, já notamos uma certa maneira italiana, na amplitude do movimento, e uma elevação própria da iconografia russa, no alongamento e verticalização do Cristo.

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