“Na onda do Pramil”, por Alexandre Casatti

Vocês não sabem o quanto é divertido escrever isso aqui:

“Na onda do Pramil”, de Alexandre Casatti, é fácil fácil uma das melhores coisas publicadas no Brasil nos últimos quinze anos em três categorias: (a) texto de internet, quer dizer, escrito e publicado no contexto da difusão em massa irreversível do meio; (b) literatura urbana, quer dizer, segundo a velha forma venerável de Dickens, Flaubert e Virginia Woolf, na qual enredo e estrutura/experiência urbana se misturam profundamente; no Brasil, o opus magnun do gênero é “Perus, Malagueta e Bacanaço”, de João Antonio, acho; e (c) claro, trabalho de estréia, quer dizer, de um sujeito que nunca sentou na Mercearia São Pedro posando de escroto só para pegar bem. (A tentação de colocar mais um item “literatura marginal” é posta de lado sem dificuldade. Literatura, ponto.)

(a)    O melhor texto de internet tinha mesmo que ser um que não levasse absolutamente em conta o fato de ser de internet. A diferença é que o canal é mais aberto. Publicar alguma coisa em outros tempos não seria tão possível: menos pelos custos, mais pelo circuito fechado de escritores e editores num contexto em que o público é minguado, e o gosto fabricado mediano e estável. O surgimento de infinitos canais abre o campo, facilita o acesso.

(b)   Dickens e Flaubert sabiam que os seus personagens e tramas não podiam deixar de ser eles também cidades: estranhos uns aos outros, mas entrando em associações temporárias cujos desfechos eram mais (Dickens) ou menos (Flaubert) felizes, os personagens habitam um espaço social que não pertence mais a ninguém e por isso pertence a todo mundo (o romance vitoriano, por exemplo, acontece de regra dentro da casa de alguém, dentro da propriedade etc). O passageiro e o taxista, e as narrativas paralelas do taxista, refletem esses encontros improváveis tipicamente urbanos. Ainda, o espaço geográfico amplo e heterogêneo junta, sempre na onda do acaso, passados diferentes que não deixam de, como no Pigmalião (B. Shaw), tomarem corpo nos ritmos e sotaques da fala. E, acima de tudo, ali ninguém é bobo: todos entram na interação com seu jogo mais ou menos delineado: os comentários em off do narrador, a simpatia comercial do taxista, que, como nas Mil e uma noites ou no Decamerão, conta uma história mas leva também um capilé, que a vida continua e ninguém vive só de saliva.

A Londres de Dickens: do mundo fechado ao universo infinito
A Londres de Dickens: do mundo fechado ao universo infinito

(c)    Casatti faz a mágica de desaparecer enquanto conta a história, coisa que só quem sabe consegue fazer. No entanto quem conhece o Alê e sabe que ele é um personagem do Bocaccio vê a fera em cada linha e, mais do que só a ele, o mundo picaresco que ele vê de trás de um de seus vários óculos. E o que é incrível, quase sublime em algumas frases: a mão é leve. Diferente das caricaturas ou do hiper-realismo da fala e da por assim dizer estrutura de consciência – o jeito de narrar a vida – dos personagens urbanos da má literatura, os deslizes, desvios e tiros certeiros do diálogo correm sem solavancos, numa troca que flui como contraponto musical.

rembrandt69
Rembrandt: "Boi esfolado"(c.1638)

Acho que a literatura, como toda arte, e como também a ciência, sai mesmo de fora dos circuitos ridiculamente auto-conscientes do jogo de status social envolvido na sua produção. E é meio gratuita, sem intenção nem recompensa a não ser aquele tipo de alegria satisfeita de quem conta uma piada com sucesso: é uma forma de chamar a atenção, mas só para descontrair os presentes.

33 comentários sobre ““Na onda do Pramil”, por Alexandre Casatti

  1. Mandou bem, Jay! O Casatão vai ficar num orgulho só do seu texto e da sua análise!

  2. Jay, que interpretação linda. Acho que inclusive é desta inutilidade de se contar uma história que o Alê conta no Taxi, um tempo morto, sem conseqüência. Que orgulho dos dois. Isso é o Guaciara em estado bruto
    Maravilhoso

  3. Acabei de ver o post. Tarde da noite e um pouco mais do que levemente embragado. Então, vou deixar pra comentar amanhã. Só digo que to estou ficando apaixonado pelo Joaquim.

  4. Olhando tudo o que está acontecendo, acho que a melhor coisa seria o governo brasileiro entregar o Zelaya. Não consigo imaginar outra alternativa. O Brasil já vai se foder de todas as maneiras…
    E companheiros… vamos abrasileirar aquela “VICE” quando mesmo?

  5. Já está sendo abrasileirada. Basta ler o texto do Ale.

    Quanto ao Zelaya, entrega-lo pra um regime autoritário que dá golpes, prende jornalistas, impede a livre opinião e livre manifestação não é uma opção.

    No mínimo devemos extradita-lo. Entrega-lo para um regime sob júdice no mundo inteiro seria compactuar com um crime.

  6. Zelaya?
    Ã?
    O Ale tá indo de taxi pra Honduras?
    Pramil!
    Praaaamiiiil!
    Praaaaaaaaaaamiiiiiiiillllll!
    Aaaaaaaaaaaooooooooaaaaahhhhhhh
    Rrrrrrrrroooaaarrrrrrrrrrrr
    Voivod!
    Nóóóóóóóóóóóóóóóóóó
    Miriam Leitão, venha cá e me dê no bidê

  7. Caramba, morri na historinha do Pramil.

    Agora essa de defender ditador de Honduras é muito coisa de macaquinho e repetição da Veja e da Globo. Que tristeza. Só repete o discurso da caricatura dessa imprensa golpista (mais golpista do que nunca). Versão diluída do discurso da Veja é o que? Capricho?

  8. Jay, meu velho, valeuzão pelo texto, viu, mano. Fez o caboclo aqui feliz. Valeu tb todo mundo que comentou.
    Gans, a Vice é uma revista gringa, por isso vai manter seu nome, como a playboy, a marie claire e a MTV, onde vc era dizainer…agora, na moral, podemos dizer que vc é um tocador de cds no lugar de DJ? A propósito tb, sente o drama: http://www.newsweek.com/id/215941

  9. Gustavo,
    Entregar o Zelaya? Ele não está sob custódia do governo brasileiro. O embaixador teria que sequestrá-lo antes, para poder depois fazer qualquer coisa como “entregá-lo”. Convenhamos, dificilmente isso aconteceria. Você deve saber que relações diplomáticas são mais complexas do que isso. Não sabe?

  10. Ale,

    Quando eu falei de abrasileirar a Vice, não era uma crítica. Eu acho a revista legal, só que acho que poderiam ter mais matérias daqui, menos coisas so traduzidas. Acho que o jornalismo gonzo tem seu lugar no brasa. Gosto muito do vbs.tv tambem. Ninguém tá falando que a revista tem que mudar de nome, aliás, que dedução paranóica.
    ___
    Como discotecário eu toquei discos, podendo ser em vinil, cd, ou mp3. Não me interessa a mídia, mas sim que o povo dance e seja feliz. Acho jeca o endeusamento dos djs e a fetichismo sobre que tipo de midia utilizada. Mas como não discoteco mais, deixo essa discussão para os adolescentes.
    ___
    Eu nunca fui dizainer ou desenhista. Fui um produtor e diretor de programa, como Hermes e Renato, e vinhetas, incluindo aquelas pra usar camisinha, contra a violência, contra a destruição do meio ambiente, etc
    ___
    Quanto ao ampgalaxy: a.m.p. é sigla de “a mulher do padre” e galaxy era pra ser uma homenagem aquele carro que circulava nos anos 70, que os donos do clube gostavam muito.
    ___
    Já a situação em Honduras, eu sei que entregar o Zelaya não é uma opção; mas a situação lá está insustentável. Tenho um amigo jornalista em Tegucigalpa. Ele disse que a situação dentro da embaixada é de caos – não tem toalha, sabonete, papel higiênico. O Brasil errou ao abrigá-lo na embaixada, sem que ele pedisse asilo. Devia ter deixado que os hondurenhos se resolvessem. Alguém tem uma sugestão de como sair dessa?

    ___
    Quanto à newsweek com o Lula… O que tem demais? Eu também votei no cara. (Ma só
    no primeiro mandato, no segundo mandato fui de Heloisa Helena e no segundo turno anulei). Mas sou crítico ao que ta acontecendo. Normal.

    ___
    By the way, be gentle and call me Gustavo please.

  11. Gus, como você bem sabe, eu não entendo nada nem de revista, nem de televisão. Nada mesmo, mas você não acha que esse texto do Casatti já não é uma boa abrasileirada?
    abraço
    Tiago

  12. Desculpem-me, o texto dele ta massa. Eu adoraria fazeer algo como uma versao brasileira do vbs.tv. Tenho equipamento, produtora e estrutura. Dá pra fazer.
    abs

  13. Gus

    Como editor atual da revista e do site, eu ia te responder um lance aqui. Mas desencanei. Falou aí.

  14. Como disse, minha observação não era uma crítica, e sim uma manifestação mais de “vamos nessa”!
    Abrasileirar no caso, significa ter mais gente daqui escrevendo aqui, matérias daqui, do’s e don’ts daqui… etc.
    Desculpem se me expressei mal. Eu gosto da revista e acho ducaray o site vice do brasil e o VBS TV. Estão de parabéns. Boa semana a todos.

  15. Então, Gans, eu não é a primeira vez que, do nada, vc vem e solta uma provocaçãozinha sobre um assunto que não tem nada a ver com o post. Não sou dono do blog, não escrevo pro blog, mas acompanho e já vi vc dar dessas. Releia o seu comentário de novo. O que uma parada tem a ver com a outra? Porra, convenhamos, né? Eu sou um paranóico por natureza. Disso vc não precisa nem duvidar. Mas na minha opinião vc escreveu pra ser chato e ponto. Caso contrário, faria como vc fez agora, pontuando o que discorda no meu comentário, que, como o seu, foi apenas para agredir mesmo. E não vem agora bancar de: “nossa, gente, só fiz um comentário. credo.”. Pra mim, não cola. Crítica vazia. Paranóia de ser pentelho. A gente já discordou outras vezes e trocamos um monte de mensagem na maior educação. Por que essa agora? Bom ano.

  16. Bom, já vi que vc tá nervoso à toa. Foi um mal-entendido.

    Cara, não era um comentário ao seu texto, que aliás eu gostei, eu me equivoquei na hora de comentar… era pra ter postado no texto do Zelaya que o Lauro escreveu… Mas postei na janela errada. Por isso pedi desculpas.
    ___

    E o que eu escrevi não era uma provocação, era um comentário a um assunto do blog, na paralela.

    ___

    Então calma lá com essa paranóia, mano.
    Se não se pode discordar de nada, então não vejo sentido sequer em existir o blog.
    Nos locupletemos todos então; mas para isso prefiro receber minha parte em dinheiro, porque dai vira propaganda paga e não opinião sincera.

    E outra: me chamo Gustavo, não gans, nem guns nem nada disso.
    ___

    reflexão sobre o futuro presente:
    Dilma, hoje: “Estou preparada pro que der e vier”. O Brasileiro, sempre: “Estamos ai pra quem vier e der”

    ___

    Agradeço a compreensão.

  17. Meu, fiquei de saco cheio, sim. Mas não nervoso. Não leva a mal o jeito que eu escrevi, não. Só fui sincero. Também não achei em nenhum momento que sua crítica tinha a ver comigo. Vc falou do Zelaya! Depois da Vice, pra quem eu apenas enviei um texto sobre uma história que achei divertida. Isso!

    Mas, olha, continuo achando que você não foi mal entendido, não. Nem que errou a janela, já que fez comentário sobre a revista. Desculpa. Tem outra: como eu disse antes, já vi você fazer isso antes.

    Outra coisa: o blog, o povo do blog não tem nada a ver com isso. Ali é sempre um espaço aberto para discussão. Você que atravessou tudo de um jeito tosco – eu, pelo menos, achei. Nunca vi o Lauro, o Tiago e Joaquim tratarem mal você ou qualquer um. Muito menos vetarem quem discorda. Qual é, né, Gustavo?

    Sobre a Dilma, acho que mais uma vez você não falou nada com nada. Lançou uma frase ao vento…

    Bom…desculpa qualquer coisa, em nenhum momento pensei em ser grosso ou coisa do tipo.

    Abração.

  18. Então falou Alê, sua paranóia o impede de aceitar o que eu estou reiteradamente dizendo, mesmo me desculpando. Foi como exatamente o que eu disse. Postei na janela errada.
    ___
    Já falei sobre assuntos diferentes no mesmo post antes, talvez alguns achem isso confuso, como você. Mas, acredite no que quiser. Não me importo. Vamos encerrar por aqui.

    abrax a todos

  19. Vamos, sim, meu. Já tamo enchendo o saco do povo tb.

    Reitero minhas desculpas e tb minha paranóia.

    Um abraço pra vc.

  20. Êita! Eu q sou de ficar na miúda não me contive e resolvi deixar aquele “que ducaralho, mano!” pro querido irmão ale…

    ô maluco, não para, não! vai desenrolando…

    (e desaperta o sutiã, q não vale esse estresse todo!)

    abraços!

  21. pô, tristeza, saiu da toca? valeu, mano. vamos tomar aquela honesta do trabalhor, depois do expediente. tem um show massa hoje.

  22. pomba Jay, mereceu o sucesso dos 31 comentários. incrível o seu negócio. tem um atropelo fluente pra escrever (que parece contradição mas não é). ou seja, no melhor estilo do velho marx!

  23. po, cara, valeu demais. vindo do meu ídalo da sátira, isso é um elogio ducaraglio.

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