É golpe, é golpe e é golpe!

Olha as forças de diálogo democrático dos hondurenhos
Olha as forças de diálogo democrático dos hondurenhos

E eu que tenho uma taxa de masoquismo razoavelmente alta, acordo hoje de manhã, abro minha caixa de e-mails e clico direto na mensagem do Ex-Blog de César Maia. Em meio a suas pesquisas (às vezes até úteis) e a conceitos que de tão enviesados caducam já no F5 do leitor, a seguinte pérola sobre a ação do governo brasileiro em relação a Manuel Zelaya:

O retorno de Zelaya a Honduras e o abrigo na embaixada do Brasil em Tegucigalpa revertem o quadro anterior de golpe de estado, produzido pelo açodamento do exército quando da ordem de prisão emanada do STF. Com seu retorno, e com a ordem de prisão mantida, sua condição agora é de asilado político do governo brasileiro. Com isso, o golpe precipitado pelo exército hondurenho deixa de existir, na medida em que a ordem de prisão continua válida, o presidente deposto se encontra no país, optando de fato, pela condição de asilado político. O governo brasileiro informou que apenas o recebeu, ou seja, o asilou.”

Segundo esse ponto de vista, Zelaya, mesmo sem ter se defendido, é um criminosol. Mesmo que o julgamento (de um tribunal eleitoral, lembrem-se) tenha sido feito à sua revelia.

Preferi partir pro blog do Miguel do Rosário, onde ele muito apropriadamente escreve:

Todos os elementos que caracterizam as lutas políticas nos países latino-americanos encontram-se em Honduras em estado bruto e radicalizado. Imprensa e elite associadas, mafiosamente, em atitude golpista. Povo acuado e desorganizado, de outro. Políticos no meio, ao sabor do vento. Um presidente sendo empurrado cada vez mais para a esquerda.”

Parece mesmo uma remontagem de Terra em Transe até com alguns atores parecidos (Zelaya poderia muito bem ser um Zé Lewgoy).

Imagina como os discursos seriam diferente se o congresso e o tribunal colombiano tomassem as mesmas medidas com seu companheiro de internacional reaça, Álvaro Uribe. Afinal os anseios de Zelaya eram os mesmos de Uribe – conseguir mais um mandato – quando ele foi tocado a coturnos do país.

Já falamos bastante sobre o golpe militar em Honduras algumas vezes aqui. O que se instaurou por Tegucigalpa e região desde então é um governo ditatorial e não reconhecido por todos os países do mundo.

É um governo eleito indiretamente que censura a imprensa, limita o direito de ir e vir das pessoas, impõe toques de recolher, mata, censura a imprensa e reprime violentamente quem protesta contra o autoritarismo.

Agora, a ditadura militar hondurenha cerca a embaixada brasileira e joga bombas de gás lacrimogênio em quem não concorda com a expulsão de Manuel Zelaya do país centro-americano.

Como bem lembra o professor Túlio Viana em seu twitter, se Zelaya estivesse na embaixada da Venezuela, Bolívia ou Equador, certamente a guerra já teria começado. Mesmo assim, ao cercar a embaixada, cortar a luz e os serviços públicos  por lá e atacar os manifestantes ao redor, o governo hondurenho desrespeita o direito internacional.

Ficou difícil para o governo autoritário de Honduras continuar. Se atacarem a embaixada brasileira e tirarem Zelaya de lá a força, é uma violção gravíssima da lei internacional contra o país mais importante da América Latina.

Manuel Zelaya já se dispôs a dialogar pacificamente com os golpistas. O melhor que eles têm a fazer é sentar e conversar. E os pró-golpe militar espalhados pelos endinheirados do Brasil, precisam fechar o bico pra não deixar ainda mais claro o seu desrespeito pela opinião dos eleitores.

Fico abismado quando partidos políticos estabelecidos no Brasil criticam a ação do governo brasileiro por ter se posicionado em favor da democracia.

15 comentários sobre “É golpe, é golpe e é golpe!

  1. O Nassif ta afiado hoje. O Brasil ta com uma baita batata quente na mão.

  2. Valeu Luís, precisamos combinar outras não é? Em breve tem mais um textinho eleitoral por aí.

    Também acho viu Gus. O governo brasileiro acreditava que o Micheletti ia piscar. Não piscou e vai tentando vencer o Brasil pelo cansaço, mantendo o corpo diplomático refém na embaixada.

    O que me enraivece é que uma estratégia criminosa dessa só denota o comportamento anti-democrático do governo apoiado pelos militares hondurenhos.

    O triste é um monte de deputado apoiando esses pulhas. É triste, mas muita pouca coisa mudou na cultura política dos anos 60 pra cá.

  3. Na Bolívia, por muuuuuuuuito menos bradavam por uma verdadeira guerra. Bando de caras de pau.

  4. É. Parece que isso pegou o pessoal de surpresa sim. Acho que, no governo, ninguém planejou nada.
    Agora, tenho muita pena desse Encarregado de Negócios que está à frente da Embaixada. Imagine só: deve ter resolvido ir pra Honduras porque queria um posto mais tranqüilo, sem muito trabalho, perto de praias paradisíacas.
    Chegando lá acontece um golpe de estado e, pra piorar, durante as férias do embaixador, o ex-presidente exilado, com uma renca de 30 pessoas, toca a campainha pedindo abrigo. É foda, né não?

  5. Carlinhos, segundo uma entrevista do Secretário da OEA lincada pelo PHA agora cedo, parece que é isso mesmo que tinha que acontecer.
    Aliás, tem um outra postagem hilária ali batendo na Globo.

  6. Caro Lauro,
    Excelente post. Também ando pasmo com as críticas à diplomacia brasileira neste caso de Honduras. Que o Itamaraty continue defendendo a democracia e o direito.
    Um abraço

  7. Gilson, vi a entrevista.
    O nível da cobertura e da análise na imprensa está muito ruim mesmo. Até para os parâmetros atuais. Os caras ficam discutindo se o Brasil devia ter deixado ou não o sujeito entrar quando é óbvio que bater com a porta na cara de um presidente reconhecido pela comunidade internacional não é uma opção. Parece discussão sobre estratégia de “par ou impar”. Na verdade, a política externa começa depois que o sujeito entra na embaixada. Isso é o que os analistas deveriam analisar. Mas como existe muita preguiça para queimar fosfato, fica todo mundo aí, falando abobrinha.

  8. O texto é legal. Mas o Sérgio Léo tem essa mania de ponderar o que é imponderável. Esse post, por exemplo, critica o governo confessando não ter o que criticar, o que fica muito estranho.
    Fiz um comentário e ele respondeu:
    “Houve um erro, provocado pelas circunstâncias insólitas. Teria como ser evitado? Difícil.”
    É como dizer: “foi um erro que não poderia ser evitado, mas, ainda assim, um erro”

  9. Ótimo Carlinhos. Eu concordo com vc e não tinha me atinado pra isso. E na verdade tratar o Zelaya na embaixada como erro ou se escandalizar com a possíveis consequências dramáticas pro Brasil é puro material de campanha, mesmo que inadvertido, como no caso do Sergio Leo.

  10. Essa é recente.
    Tinha achado muito estranhas as declarações do representante americano na OEA. Não pelo conteúdo, mas pela forma.
    Aquele jeito de fazer piadas e utilizar expressões engraçadinhas para tratar de um assunto sério ficava estranho num americano. Vi um pedaço do discurso em que o sujeito ficou tirando onda com o embaixador da Nicarágua (!?)
    Intrigado, digitei o nome do cara no Google. Além de uns comentários, na Amazon, elogiando um livro sobre um agente da Cia e outro, que critica Castro, veio isso:
    http://machetera.wordpress.com/2009/09/29/the-sordid-history-of-lewis-amselem-deputy-u-s-permanent-representative-to-the-oas/

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