Qual opositor baba mais?

A fúria anti-Estado vai até a hora em que as empresas passam o chapéu Citibank e GM bem sabem disso
A fúria anti-Estado vai até a hora em que as empresas passam o chapéu Citibank e GM bem sabem disso

A comparação entre Lula e Obama é recorrente. Ambos prometeram mudança na campanha. Os dois substituiram um grupo que há anos dominava a política local e ganharam a preferência popular em meio a uma enorme crise econômica.

Pelo jeito, os dois enfrentam uma oposição com o mesmo grau de tensão e agressividade. E travam uma batalha sobre qual deve ser a influência do Estado na economia e na sociedade.

Se Lula briga pelo controle estatal do pré-sal, no caso de Obama o buraco é mais embaixo. A briga é pela saúde pública e universal. É uma luta para trazer o Estado como agente de saúde  gratuita para as pessoas. Com isso, o democrata briga com um dos mais poderosos lobbies americanos, o dos planos de saúde.

Desde que Obama começou essa batalha, já foi acusado de um monte de coisas pelos republicanos. As comparações com Adolf Hitler são as mais recorrentes na oposição cada vez mais raivosa e babona do hemisfério Norte (calma que ainda tem mais semelhanças com o “Gigante da América do Sul”). Por outro lado, isso até já alimenta alguns bons sites de piada.

O engraçado é que o discurso da escalada autoritária sempre esteve presente nos momentos em que o governo tentou intervir no setor privado: Ancinav, a mudança nos critérios das agências reguladoras, a lenda orquestrada do terceiro mandato até o recente chilique dos banqueiros por causa da facilitação do acesso ao crédito nos bancos públicos. E agora a conversa fiada se repete na discussão do pré-sal.

Nos EUA, a proposta de um sistema público de saúde já começou cheia de acusações e traições. O nível de tensão teve início nos desacertos e brigas dentro do próprio partido Democrata, como nos mostra o sempre bem informado André Kenji.

O nível ontem atingiu o bizarro do deputado republicano Joe Wilson chamar Obama de mentiroso durante o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos no Congresso. A agressividade foi tamanha que o deputado teve de se desculpar, mas imagina a neurose? O motivo do bate-boca é a extensão da saúde pública aos imigrantes ilegais.

Ao apelarem para a mentira de que os imigrantes serão cobertos pela saúde públicae, republicanos jogam eleitoralmente com a base democrata em sindicatos, extremamente nacionalista, preconceituosa e ciosa de que a entrada de imigrantes pode dificultar o seu acesso à saúde.

O que parece ser relevado no debate nos Estados Unidos é que os sistemas de saúde privados com essa oposição ostensiva reconhecem a sua incompetência. Já que o sistema público vai ser tão ruim, pra eles não faz diferença. A saúde pública brasileira é exemplo disso. Existe e é usada por todas as classes sociais. Mas a demora (e muitas vezes a precariedade) do atendimento leva muitas pessoas pros planos privados. Por que a “eficiente” saúde privada americana não deixa o setor público existir? Eles não ganhariam dinheiro do mesmo jeito?

A crise econômica mundial e o protagonismo dos bancos públicos brasileiros mostram que nem sempre esse postulado liberal de eficiência privada é verdadeiro.

Tanto no Brasil como nos EUA, a estratégia de humilhar o líder do executivo é uma cortina de fumaça para defender o lobby dos grande grupos internacionais privados. Seja do petróleo, seja da saúde pública. E olha que os dois governantes, em momentos diferentes salvaram os setores privados de seus países. Não tem jeito, o leviatã privado sempre quer mais. Ou como Bruno Pinheiro exemplifica brilhantemente: Não existe almoço grátis, a não ser que seja pra mim.

E quando os defensores dos mais ricos ficam desalojados do poder, a saída mais comum parece o hospício, mesmo quando o setor privado se comprova muito menos eficiente que o setor público. Esse é e deve ser o cerne da campanha eleitoral no Brasil.

12 comentários sobre “Qual opositor baba mais?

  1. Lauro, para variar, um puta de um texto com um raciocínio muito legal.
    Não sei se viu um texto que saiu nesse domingo no Alias do Estadão, do Jesse de Souza.
    Interessante como ele coloca as consequências dessa dicotomia construída e disseminada entre Politica necessariamente como uma esfera corrupta e ineficar versus o mercado como espaço do racional.
    Nesse sentido todo e qualquer projeto político é tido a priori como ineficaz, corrupto e rechaçado por um direita raivosa e histérica em nome das forças ditas racionais e mais eficazes do mercado.

  2. Valeu Pedroi, cara eu não li esse texto não, mas vou correr atrás já. Esse discurso de racionalização e de criação de mecanismos de controle importados da esfera privada no limite me parecem uma tentativa de tirar as decisões das pessoas e transferi-las para técnicos e especialistas.

    No limite é autoritarismo do brabo com terninho Armani.

  3. Lauro, parabéns pelo texto. São muitas referências mas o raciocínio é hialino. Parabéns!

  4. Eu estive como acompanhante em um hospital privado e um público essa semana. No privado (9 de julho), o PS é uma droga. Só menino e menina recém-formados. O tratamento encaminhado foi criminoso, irresponsável. Para não sobrecarregar o plano de saúde, nada de exames. No Emilio Ribas, esquema Cuba: simples, austero, mas eficiente. Os exames necessarios foram feitos na hora, e os remédios foram fornecidos pelo hospital.
    A verdade é que a privatização da saúde, como da educação, cria um pequeno universo de prestadores caríssimos e bons, e uma massa de picaretas ladrões. Plano de saúde mesmo chama-se SUS.

  5. Pois é Jay, o pior é que existe um lobby empresarial contra a saúde pública. A Globo nos anos 80 e 90 fez uma campanha sistemática contra o SUS, tudo em nome dos patrocinadores. E seguindo a lógica privatista e empresarial da direita brasileira, o PSDB também quer o padrão privado aos hospitais públicos:

    http://www.cut.org.br/content/view/16508/

    Os parlamentares da base de apoio ao governador José Serra, capitaneados pelo PSDB e pelo DEM, conseguiram aprovar nessa quarta-feira (02), na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, o projeto Projeto de Lei Complementar (PLC) 62/08. Com 55 votos favoráveis e 17 contra, a proposta amplia a terceirização da saúde pública paulista.

    O texto acrescenta a possibilidade de que entidades estaduais ligadas aos esportes também se classifiquem como organizações sociais (OSs) e mantém a abertura de 25% dos atendimentos hospitalares geridos pelas OSs no Estado a pacientes de planos particulares de saúde.

    A lei atual exige que 100% dos pacientes sejam atendidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde). A nova medida define que essa proporção passe para 75%. Hospitais que oferecem serviços especializados de alta complexidade como quimioterapia e oftalmologia poderão cobrar pelo atendimento.

    Organizações Sociais, uma grande mamata
    As OSs são organizações não governamentais (ONGs) ligadas à iniciativa privada que recebem recursos públicos para desempenhar o papel que cabe ao Estado. Elas nasceram em 1998, por meio de uma proposta do ministro da Reforma do Estado e Administração Pública do ex-presidente Fernando Henrique Cardososo, Carlos Bresser Pereira (PSDB). Graças a uma emenda do deputado federal Roberto Gouveia (PT), elas só poderiam administrar novos hospitais.

  6. Laurose,

    Nem se compara. Nossa oposição é muuuuuito pior. Lá esse deputado maluco foi censurado pelo próprio partido republicano, imediatamente. Aqui, já foi moda político fazer discurso dizendo que vai dar uma surra no presidente da república.

    Vá ao Becker-Poser Blog e compare com o Demétrio Magnoli, Paulo Renato ou o Mendonça de Barros, para ficar só na oposição brasileira mais qualificada(!?). Dá vontade de chorar.

  7. Opnar sobre qualquer assunto é sempre pequeno e perigoso demais. Elogiar certas opniões, nem se fala. Que o texto é a idéias são primorosas, ok. Voltando ao ‘opnar’, já parou para pensar que razão, bons samaritanos, leões e mundos dentros de armários, políticos corretos e suas boas inteções possam ser apenas fantasias nossas? Por isso brindo ao caos… e espero a solução final.

  8. Pois é Carlinhos, isso que eu ia falar. Se no Brasil, a oposição é mais escrota e as instituições são muito frágeis. Nos EUA, o que rola são esses fanáticos que são dispostos até mesmo a matar um presidente contra o interesse público (já pensou algum político sugerindo a privatização da saúde em nome do livre mercado no Brasil?).
    No final, o que eu acho que pega mais é o poder de mobilização do setor privado, seja em nome da ideologia ou em nome de uma suposta moralidade pública.
    Mas é lógico que a institucionalidade americana também faz com que o diálogo tenha um nível bem mais alto. Há muito tempo o Congresso não debatia um tema importante como o Pré-Sal. Por causa do jogo político FHCista de minar o governo por dentro.Por causa disso, a afirmação da política nunca foi tão importante como agora.

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