Félix Fenéon e a invenção do twitter. Por Victor da Rosa *

Uma das melhores coisas deste blogue foi ter conhecido gente que me ensina sempre. Foi no blog do Idelber que conheci o Victor da Rosa. Lá, também descobrimos que temos um ídolo em comum: Félix Feneon. O crítico de arte, escritor e militante anarquista (daqueles que colocavam bomba).

Foi, na minha opinião, um dos personagens mais exemplares e ricos da passagem do século XIX e XX. Divulgou os pintores divisionistas, sobretudo Seurat, fez observações das mais agudas sobre as relações entre o homem e a máquina e foi um dos maiores interlocutores de Paris em uma época em que a cidade derretia de animação.

O texto do Victor é muito melhor que tudo isso que eu disse, mas só para arrematar: Por que raios, e a pergunta fica para os editores que lêem o blogue, ele não foi editado até hoje por aqui?

félix fenéon e a sua ficha corrida
félix fenéon e a sua ficha corrida

O imaginário do twitter – rede social em que os usuários podem, a todo momento, enviar mensagens de 140 caracteres, no máximo, para seus seguidores – não é nada novo. Tal imaginário, de início, aparece ligado a uma série de questões que acabam relacionando a escrita com a métrica, o limite, a medida. De qualquer modo, o acúmulo de opiniões que vêem no twitter qualquer coisa como o apanágio da superficialidade, segundo enunciados e valores sempre discutíveis – como o de que não existe interesse na própria superficialidade, inclusive – devem apagar uma história.

O crítico Félix Fenéon, interlocutor de escritores como Paul Valéry e André Gide, mas também de pintores mais radicais do século XIX, como os divisionistas – depois mais conhecidos como pontilhistas, também – acusado de pequenos ataques realizados em cafés mais burgueses de Paris, encarna aquilo que Michel Foucault chama, mais de cinquenta anos depois, de jornalista extremo, radical. Félix Feneón, a partir de 1906, dentre outras atividades, mantém uma coluna de fait-divers no periódico francês Le Matin – o espaço mais baixo de um jornal, digamos (e talvez também o mais literário) – e sua coluna recebe o título sugestivo de “Nouvelles en trois lignes”.

Existe uma ambiguidade e devo começar com ela – talvez até um paradoxo. O significante “nouvelle” – que, para o português, pode ser traduzido por “notícia” ou “novela” mesmo (é possível encontrar as duas referências) – já sugere uma dúvida sobre o que é ficcional ou não. De fato, o estatuto discursivo da notícia, dentro da expectativa de uma representação ou de um efeito de representação, faz oposição direta ao que entendemos por novela, gênero ficcional. Na medida em que os dois dispositivos se aproximam, então, torna-se difícil saber de que posição o texto é escrito.

“Uma louca na cidade de Puéchabon, a sra. Bautiol, née Hérail, acordou seus sogros a golpes de marreta”, escreve Félix Fenéon em sua coluna. Ou ainda: “Foi no boliche que a apoplexia derrubou o sr. André, 75 anos, de Levallois. Jogou uma bola que ainda rolava quando ele deixou de existir.” O que existe de recurso ficcional nos fragmentos de Fenéon, a princípio, está ligado com a velocidade de seu texto. É como se a medida sugerisse um estilo de escrita – ou talvez se trate mesmo de uma imposição. Mas o humor que surge diretamente da brevidade, por outro lado, se relaciona de modo definitivo com o caráter noticioso da cena. Quer dizer, de algum modo acreditamos que a cena descrita aconteceu. Enfim, tudo se relaciona de modo muito controverso com qualquer coisa que se entenda por representação.

Paul Signac: Retrato do Monsieur Félix Fénéon em 1890
Paul Signac: "Retrato do Monsieur Félix Fénéon em 1890"

Depois, existe uma extrema unidade de escrita nestes fragmentos de Félix Fenéon – aquela mesma unidade que confere ao hai-cai um aspecto clássico, fechado. A rigor, é o que nos permite ler tais fragmentos depois de cem anos e sem nenhum sentimento de perda. E nisso podemos afirmar que o caráter noticioso da cena é também uma espécie de fraude, é falso. Enfim, o texto não aparece dependente de qualquer elemento exterior a ele. Não há nenhuma notícia, afinal. Na introdução de seu belo ensaio sobre Picasso, em que procura retirar o artista de um lugar sacralizado do modernismo para recolocá-lo no campo da mercadoria – leia-se: no baixo – a crítica norte-americana Rosalind Krauss, justamente, utiliza como ponto de partida os textos de Félix Fenéon. Para Krauss, além da velocidade – e vale dizer que, salvo engano, nenhum fragmento do escritor ultrapassa os 140 caracteres permitidos no twitter – há um traço nestes fragmentos que interessa como contra-leitura da improvável transparência modernista, a saber: uma opacidade narrativa, a perda do comentário – enfim, certa traição do processo comunicativo mesmo.

A escritora argentina Pola Oloixarac, em uma interessante reflexão sobre o papel do twitter em países com circulação restrita de informação, como Irã e China, sugere que a grandeza do site está ligada com uma pergunta inerentemente política: o que você está fazendo? Por outro lado, um dos interesses do twitter está na possibilidade de criar perfis falsos, seja de famosos ou de anônimos. O limite entre o que se verifica ou não se verifica fora do twitter está sempre movediço. Também não é pequena a disseminação de informações falsas que aparecem para confundir os leitores mais ingênuos, digamos. Do ponto de vista político – seja de uma política da escrita ou da informação – se trata de uma das mídias mais versáteis que a internet foi capaz de criar.

É verdade que cada usuário utiliza o twitter do modo como considera mais válido, oportuno, mas existe uma indecisão que parece cada vez mais difícil de negar, a saber: onde começa a ficção? – onde termina? Ao mesmo tempo estas perguntas, a meu ver, são espécies de armadilhas inúteis. O leitor e o usuário que se colocam nesta posição de dúvida acabam entrando em um labirinto sem saída. Gosto de pensar afinal que se trata somente de uma literatura imprestável. Entrar para a rede do twitter requer o abandono mesmo da dicotomia que separa notícia e novela.

Desenho de Georges Seurat de 1884
Desenho de Georges Seurat de 1884

*O Victor é ensaísta, mestrando em Literatura pela UFSC, autor das narrativas de piano e flauta – fragmentos de um romance (Lumme Editor, SP, 2007). Além disso edita o ótimo www.victordarosa.blogspot.com

5 comentários sobre “Félix Fenéon e a invenção do twitter. Por Victor da Rosa *

  1. Olá, Tiago.
    Acho que o significante “notícias” ainda dá conta; mas não de todo, talvez. O que você acha?
    O Alexandre Nodari, acho que você conhece, sacou uma coisa legal também sobre o texto: os pontilhistas pintam com pixel. Eu perdi de fazer esta relação no texto, mas ele fez depois.
    Abração!

  2. Victor, acho que aglutinar Notícia com novela uma baita idéia, só queria saber se o formato de “contar as novidades” também não contribua com o que já está ótimo.

    Acabei de ler o comentário do Nodari, que também é muito bom. Acho interessante pensar nestes termos, inclusive, tem gente na pintura, que ao desconstruir os estilos e os modos da imagem se mostrar, penso sobretudo na pintura híperrealista do Gerhardt Richter e do seus mosaícos, antecipou esse raciocínio de imagens brilhantes. Quando o Richter que tenta copiar os modos da imagem se estruturar (de maneira desconstrucionista) tem mais a ver com os pixels, por exemplo, do que o Seurat.

    A distância entre os pontos de cor na pintura dos neoimpressionistas (divisionistas, pontilhistas, o que seja) dá uma impressão imaterial à imagem, tal como nos luminosos e na foto reticulada, mas acho bem diferente da imagem do computador. Em primeiro lugar, pelo procedimento. As telas destes caras eram pintadas lentamente, evitavam o automatismo. Não por acaso o Seurat, que morreu tão cedo, deixou tão poucas pinturas. O Seurat foi uma moda danada na Paris do fim do XIX. Do Matisse ao Pissaro, todo mundo se interessou por suas técnicas, por seu tipo de narrativa e mesmo os seus temas.

    A idéia era buscar um modo de organizar a imagem de uma maneira mais impessoal. Manter a idéia de uma apreensão da imagem como luz, mas evitar o caráter subjetivo da pintura. Não por acaso o desenho é quase decorativo e pouco corpóreo. Muitas vezes, os temas são as distrações do dia-a-dia, de um novo fenômeno, o tempo livre do trabalhador assalariado, da vida cotidiana. Não sei se você conhece os desenhos a carvão. acho alguns ainda melhores que as pinturas. têm este aspecto de registro, de uma cena sem epopéia, que se desfaz.

    Acho portanto, que a pintura tem mais a ver com esse comentário breve e banal do que com o pixel propriamente. O seu texto portanto, com os pixels que ele tem, é um golaço
    abração e obrigado mil vezes

  3. bacana, tiago. espero teu texto sobre seurat.

    dois erros meus:
    o nome certo da escritora argentina é pola oloixarac e não oloixorac, como está. procuro tomar o maior cuidado com estas coisas, mas às vezes passa.
    outra coisa é que o marcelo coelho traduziu alguns poucos fragmentos do f.f. e publicou em seu blog. os dois que eu cito no meu texto são traduções dele.
    abração,

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