Um problema de conexão

No ano passado, a eleição do Obama mostrou que a Internet podia ser uma ferramenta eleitoral muito mais poderosa do que se imaginava. Ainda que com alguns exageros – afinal a crise econômica nos EUA também foi uma poderosa ferramenta eleitoral pró Democratas – o uso de blogs e redes sociais finalmente se consolidou nas campanhas.

Daí em diante, um dos debates tem sido como conviver com sites e redes sociais nas eleições: como utilizar as ferramentas? quais devem ser seus limites legais? quais as melhores ferramentas a se usar? As discussões sobre a lei estão bem adiantadas e os temores de um controle sobre a Internet também são bem fundamentados (ainda mais depois dos baques nas eleições do ano passado).

O debate político já pega fogo na rede desde sempre. Depois dos blogs então, mais do que em qualquer lugar. O que a campanha nos moldes da do Obama trouxe é a idéia de uma mobilização maciça pela Internet. As manifestações no Irã só reforçaram esse caráter aglutinador – é bom lembrar que em nenhuma dessas situações bem sucedidas as pessoas usavam nariz de palhaço, prática ridícula e muito utilizada entre os ativistas de laptop do lado de cá. Pra coisa pegar no Brasil, a campanha tem de sair do deslumbre e abrir o olho para as particularidades brasileiras na Internet.

Mas pra isso, a gente tem de ir mais fundo em algumas características que os políticos, principalmente os de oposição sofrem pra reconhecer: o Brasil não é o mesmo dos anos FHC. O crescimento constante da economia,  a ação dos programas sociais e a amplificação do acesso à tecnologia mudou muita coisa. E não só na Internet, mas na mídia de maneira geral.

Uma matéria do Financial Times publicada ontem deixa isso bem claro. O texto informa que o jornal que disputa a maior circulação do Brasil com a Folha hoje é o tablóide belorizontino Super Notícia. O jornal segue todo o receituário clássico dos tablóides: mulher com pouca roupa na capa, esportes, celebridades, novelas, muito sangue, prestação de serviços e promoções.

Ao contrário dos outros jornais que capengam nas vendas, a matéria informa que o Super Notícia vendeu uma média de quase 294 mil cópias por dia no mês passado. Foi o quarto mês nos últimos dois anos em que o tablóide de Belo Horizonte desbancou a Folha. Ainda de acordo com a notícia, o Extra, do Rio, atingiu 285 mil cópias por dia. O varejão da notícia pode ser a salvação da lavoura para alguns meios de comunicação, mas em uma situação histórica em que o Estado sustenta a economia, o que mais importa não é o número de exemplares que o jornal vende que conta e sim o poder de influenciar. Traduzo um pedacinho do Financial Times:

Há cinco anos, os tablóides no Brasil vendiam só 400 mil exemplares por dia. Hoje eles vendem 1,5 milhão. São Paulo tem vários desses jornais, incluindo dois diários gratuitos. (…)

A grave crise na indústria dos jornais tem atingido jornalões como o Estado de S. Paulo, segundo maior jornal do Brasil (sic. – o erro é do FT) , que perdeu 17, 89% em vendas no ano passado ou a Folha, que despencou 5,02%.

O Super Notícia só perdeu 0.87%  das vendas em 2008. Os publishers da Sempre Editora (que administra o jornal) vão gastar €10m num novo parque gráfico que permitirá que eles quase dobrem a tiragem diária para 600 mil cópias por dia.(…)

Em quase uma década de crescimento econômico, uma nova baixa classe média urbana Inasceu no Brasil.  A chamada classe C agora representa 50% da população ou 90 milhões de brasileiros. Pode se comparar o atual momento com o século 19 na Inglaterra quando os primeiros tablóides apareceram para atender o operariado .”

Mas nem todo investimento é certo. Baqueada com o poder de Lula e impressionada com o surgimento da Classe C, a editora Abril tentou misturar influência e informação leve com a Revista da Semana. O resultado foi o fechamento em menos de dois anos. Basta dar uma passadinha de olhos na capa da Veja toda semana pra saber a razão do fracasso do empreendimento dos Civita. A Abril simplesmente não entende nada do que seria o público da revista. Uma das principais linhas de argumento da editora da marginal Pinheiros é colocar sob suspeita a ascensão social obtida por boa parte de quem poderia ler a publicação.

Outro erro é a distribuição, os tablóides que fazem sucesso têm muita semelhança com a Internet e chegam na mão do leitor. Em São Paulo, jornais como o Metro e o Destak funcionam assim, estão rua, de graça. EM BH o preço transita na faixa dos R$ 0,50, mas Super, Hoje em Dia e Aqui também levam as tragédias e banhos de sangue direto pro consumidor em esquinas e sinais de trânsito.

A Internet brasileira também vive mais fortemente de suas particularidades. A primeira de todas é o orkut. Nos Estados Unidos, a rede social da Google não tem nem um décimo da relevância que tem aqui. Uma matéria recente do caderno de informática da Folha mostra que em seu horário de pico o site tem uma audiência de 20 milhões de usuários. Para se ter uma idéia, a audiência das emissoras de TV aberta nas capitais brasileiras é de 15,4 milhões, na média das 18h às 23h59. É claro que a pulverização dos usuários em comunidades e perfis deve ser tomada em conta, mas quem ignorar o orkut vai fazer campanha pra poucas pessoas.

Nas eleições municipais do ano passado em minha cidade, Pouso Alegre, a comunidade do orkut que leva o nome da cidade, era a principal fonte de informações, debates, campanha e de distribuição de boatos. A cidade que há anos convive com uma imprensa tendenciosa e pouco confiável encontrou no orkut uma ferramenta onde as informações da imprensa são contestadas quando necessário, por exemplo. Além disso, os próprios usuários eram fonte e divulgadores de notícias (falsas ou não) que repercutiam imensamente na rede. A batalha da eleição no orkut foi fundamental pra formatar discursos que davam certo por lá e descartar assuntos que não colavam. Em times de futebol que não tem tanta cobertura na imprensa, como mostramos aqui, a troca de informações também acontece no orkut.

No Facebook, o índice de participantes não chega nem a 3 milhões. A rede tem gente mais velha e é mais elitizada. Além disso, o conteúdo só é acessível para quem adiciona você como amigo. A caixa de ressonância é mais limitada e as pessoas estão menos expostas à invasão de privacidade. O problema é que o público no Brasil é muito restrito. É o mesmo público da revista Veja, a elite branca.

Quem não percebe nem as mudanças que o país passa, inclusive na imprensa e na Internet, dificilmente vai conseguir convencer a população de alguma coisa. A mudança social no Brasil é um fato histórico muito importante e quem não percebe o quanto isso transformou o jeito das pessoas se relacionarem com a notícia por aqui também vai ficar batendo cabeça ou apontando o dedo no Congresso; criminalizando os oponentes ou simplesmente falando de um Brasil que não existe. A oposição fez isso na última eleição presidencial e eu agradeço a eles até hoje por causa disso. A falta de representatividade não é só da mídia ou da oposição, mas de todo establishment político, com certeza essa eleição também vai ser um palco de reorganização dessas forças.

*****

E quem tá com um blog muito bom na praça é nosso amigo Arthur Dantas. Clique lá e sempre que quiser visitar é só procurar na sortida lista de links à direita.

7 comentários sobre “Um problema de conexão

  1. Concordo sobre o Facebook, no Brasil é um veículo pra classe média fugir do povão que invadiu o orkut, contra o qual eles bradavam “Maldita inclusão digital”.

    Essa gente leva o apartheid até pra internet.

  2. Oi Ride, bem vindo ao Guaci, de certa maneira até acho que tem um pouco a ver sim, mas o Facebook tb traz vantagens que o orkut não traz: você pode se comunicar com todos os seus amigos ao mesmo tempo e você consegue ter mais controle com quem vc tá falando.

    O que eu acho mais grave é quando se ignora uma mídia do tamanho do orkut e o poder informativo e aglutinador que as comunidades do site têm.

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