A Moscou que é aqui

Cena em que todos são Verchinin
Cena em que todos são Verchinin

Depois de uma horinha no dentista, caí no cinema e fui ver Moscou, do Eduardo Coutinho. Ao contrário do que poderiam indicar as previsões doloridas, achei o filme lindo. Devo voltar ao cinema em breve  pra revê-lo, mas aqui fica uma primeira impressão.

Em Moscou, Coutinho continua a explorar um assunto constante em sua obra – o contar histórias. Desde Santo Forte, seu cinema parece obcecado com a descoberta das coisas a partir das conversas e dos relatos diante da câmera. Como essas interpretações constroem a memória do mundo.

O  interesse parece ser descobrir as coisas do Brasil através do que a memória guarda, a cabeça inventa e o relato bem feito chama a atenção. Esse filmar a conversa não tinha o sentido jornalístico de confirmar a veracidade dos fatos, era mais uma tentativa de materializar narrativas e crenças. Colocar a público discursos que pareciam ter se perdido no emaranhado das vozes e no andar da história.

No seu filme anterior – Jogo de Cena -, Coutinho radicalizava na forma. Vai além do registro e da edição das entrevistas. As histórias das entrevistadas são narradas por suas autoras e por outras pessoas.  Coutinho convida atrizes profissionais e recruta mulheres comuns para contarem suas histórias. Durante as filmagens, elas também reinterpretam os casos contadas pelas outras mulheres, tentam seguir um roteiro mental do que ouviram. Todas em cima do palco, no mesmo cenário, contando seus ou outros dramas e os interpretando de sua forma.

Ao propor um filme sobre uma montagem de As Três Irmãs, de Tchekhov, além das histórias que cada pessoa carrega e da interpretação do que os outros falaram, Coutinho leva seus personagens a interpretar uma dramaturgia consagrada. Surge um outro elemento de discurso que em minha opinião a todo tempo diz respeito a um drama tão russo quanto brasileiro.

Só sobrou memória

Ao colocar o texto de Tchekhov dentro de uma peça em processo que nunca irá se realizar e dentro de um filme que não sabe o que buscar, Moscou ganha uma potência histórica extraordinária e retoma algumas questões que têm muito a ver com o clássico Cabra Marcado para Morrer.

Em 1964,  Coutinho tentou dirigir um filme sobre a vida do líder camponês João Pedro Teixeira, que havia sido assassinado em 62. Cabra retoma esse filme inacabado e  mostra a volta da equipe ao povoado de Sapé, na Paraíba em 1981.

Nas filmagens dos anos 60, os próprios camponeses reinterpretariam sua história. Tomariam parte no filme sobre a vida do líder deles. Era uma maneira de colocar em prática os projetos do neorealismo e dos CPCs da vida.  Construir um projeto coletivo entre a classe média universitária e os camponeses.

O golpe militar chegou e a ditadura interrompeu as filmagens. Ao tentar contar a história do que aconteceu em Sapé nesse intervalo, o filme mostra uma ruptura de um projeto coletivo que acabou com a mão pesada dos militares. Só restam as memória e as histórias do que aconteceu. A construção coletiva permanece ferida e sem cicatrização.

Essa vontade de reconstruir o que restou (e o que não aconteceu) ainda apareceria nos relatos de outros documentários de Eduardo Coutinho como Peões e Edifício Master. Mas a tal nostalgia do não acontecido nunca esteve tão forte como em Moscou.

O texto de As Três Irmãs já é um prato cheio nesse sentido. Esquecimento e memória batem lá a todo tempo. Em uma cena bonita do filme, todos atores do Galpão interpretam Aleksander Verchinin  em diálogo com as três irmãs:

VERCHININ – Acabarão por nos esquecer. É o destino – nada se pode fazer contra ele. O que a nós parecia sério, importante, de muito valor, com o tempo será esquecido e considerado sem importância. E o mais interessante é que nós nem sabemos a que eles darão valor e importância e o que considerarão inútil e ridículo. Será que no começo não viam as descobertas de Copérnico ou de Colombo como inúteis e ridículas e consideravam verdadeiras revelações as escrevinhações de um tolo excêntrico qualquer? E também é possível que a vida que agora nos satisfaz venha a ser mais tarde julgada estranha, desconfortável, desprovida de razão, insuficientemente pura e talvez até pecaminosa.”

A vontade de estar na capital, longe da gente ignorante e do tédio da cidade pequena é um tema repetido constantemente pelas irmãs Irina, Macha e Olga na peça de Tchekov. Para elas, nada ali vale a pena. Tudo é tão distante da promessa de vida que o pai morto havia feito pra elas (que “martirizava os filhos com cultura”). O “verdadeiro clima russo” não é o cenário da vida a que elas se destinaram nos sonhos delas.

Posso estar reduzindo, mas em minha opinião, essa também é a cabeça de uma certa fatia da sociedade brasileira. Que quando encontra o Brasil de frente, vê um país irreconhecível que não diz respeito a eles. Prefere ter a cabeça nas grandes metrópoles do mundo ou se fechar num mundo de iguais. Assim também fazem os Prozorov, fecham-se na casa junto aos militares – educados como eles – e aos serviçais que não os entendem e nem os escutam.

Em meio a encenações, leituras e tentativas Coutinho mistura essa temática do não-pertencimento com aparentes desilusões pessoais dos atores. Vemos como eles lidam com algum desconforto recente ou antigo da vida deles (a falta de relacionamento com os pais, um exame de DNA que mostrou a alguém que ele não é pai de seu filho de 20 anos etc.). O desconforto é contraposto às lembranças de infância aos encantamentos.

É engraçado que o filme tenha sido rodado em Belo Horizonte. Uma capital que no discurso de uma parte da população se ressente de não ser uma das grandes capitais – embora outras pessoas também comemorem isso. E a peça seja dirigida por um carioca Enrique Diaz em um processo conduzido por um paulista, Coutinho.

Em todos os planos, o filme mostra uma expectativa que não irá se realizar. Afinal a peça é editada de uma maneira que reforça os sonhos frustrados e a realidade inconclusa dos personagens, o que ganha mais força em uma montagem que nunca vai acontecer.

A viagem a Rússia de Olga e Irinaa vai ficando cada vez mais distante. O amor entre a já casada Macha e o comandante Verchinin é só uma imagem que os dois repelem e o casamento de Andrei e  Natalia o faz mergulhar de vez no reconhecimento de seu fracasso e de sua impotência.

A câmera procura alguns sentidos nas diferentes interpretações de uma mesma cena. Constrói e desconstrói as expectativas criadas na dramaturgia e no final nos põe em frente a sonhos que só se realizam no momento em que o personagem/ator os falam.

E no meio dessa minha confusão mental, uma coisa é certa: vale muito a pena ver.

4 comentários sobre “A Moscou que é aqui

  1. Ah, rapaz, e o MoMA fez uma homenagem ao Coutinho exibindo um monte de filmes dele (incluindo Cabra Marcado pra Morrer), mas eu não consegui assistir Moscou.

    Bela resenha, Lauro. Coutinho é phoda!

    Abração,
    Rapha

  2. Olá,

    Acabei de conhecer este blog e adorei as discussões propostas, principalmente esta sobre o filme “Moscou”. Curiosamente, eu também fiz um comentário sobre ele no meu blog, gostaria que vcs conferissem. Meu blog é um espaço de discussão sobre arte, cultura e sociedade.

    Abraço e parabéns pelo blog,

    Paloma

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