Política cultural?

O Prêmio São Paulo de Literatura, dado pela Secretaria de Cultura do Estado premiou, nesta semana, os escritores Ronaldo Correia de Brito (na categoria melhor livro) e Altair Martins (na categoria autor estreante). Cada um levou para casa um cheque de 200 mil reais. Segundo o secretário João Sayad, o valor é, sim, um “escândalo”. E se explicou: “A política da Secretaria na área de literatura é uma só: popularizar os livros e torná-los acessíveis a todos. O valor do prêmio é alto para chamar a atenção para a importância dos livros, dos leitores e da literatura”.

Correia de Brito: "200 milhas, yesss"
Correia de Brito: "200 milhas, yesss"

De minha parte, fiquei sem entender: como é que transformar, de uma tacada, dois escritores em sujeitos abonados – convenhamos, 200 milhas é uma dinheirama para os padrões brasileiros, com certeza para os meus – pode ter o efeito de “chamar a atenção para a importância dos livros”?

(Um cálculo meio chutado: um professor da rede pública de português deve ganhar, vá, uns 3.500 reais por mês. Isso significa que, para juntar o valor do prêmio no seu FGTS, o professor precisaria trabalhar quase 60 anos . Considerando o ingresso na carreira lá pelos 20 e poucos, o sujeito teria de encarar giz, lousa e molecada até os oitenta.)

A única coisa racional nesse fato é que ele repete um padrão: a péssima alocação de recursos da secretaria de cultura do Estado, e o modelo de concentração de recursos em projetos de excelência.

Ficou famoso o contrato secreto que John Neschling, ex-maestro da Orquestra Sinfônica de São Paulo, mantinha com a Fundação Padre Anchieta e que lhe rendia a bagatela de 400 mil dólares por ano (o que chegou a atingir coisa de 1,2 milhões de reais).  No meio do caminho, o salário de Neschling foi rebaxaido a não mais que 800 mil reais por ano, e depois de muita polêmica o presidente da OSESP – o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, depois de sacar que nem o Banco Mundial nem a ONU lhe queriam por perto, aceitou o trampo que José Serra descolou para que seu idoso e viúvo amigo não ficasse no seu apê de Higienópolis sem ter o que fazer a não ser alisar a sua foto ao lado de Bill Clinton – demitiu o maestro. O atual maestro tem a mesma discrição que Neschling tinha a respeito de seu salário.

Também tem causado alvoroço o projeto de criação da São Paulo Companhia de Dança e da construção de sua sede. Os custos são estratosféricos – mais de 30 milhões só para a desapropriação da antiga rodoviária de São Paulo para a construção de nova sede, exclusiva da companhia, e 13 milhões para a “manutenção da companhia no seu primeiro ano”.

O projeto do teatro, que está nas mãos dos mesmos arquitetos que fizeram o estádio Ninho de Pássaro para as Olimpíadas de Pequim, está orçado em mais de 300 milhões. E parece que o governador José Serra, não contente em jogar na mão do escritório esse contrato nada modesto, ainda fez a gentileza de pegar um avião para ir conferir, na Suíça, as maquetes que os estagiários fizeram para o presidente da Argentina – não, ministro da Bolívia – ou será prefeito do Chile? O Chile é cidade ou país? Fica no México? – Caraca, sei lá. Sei que governador que se preze não pega nem táxi para ir na esquina ouvir satisfações de prestador de serviços. Manda vir, com audiência marcada e sem enrolação. Mas isso é outra história, e acho que a Mônica Serra – para quem Serra criou o curso de dança na Unicamp, e para quem agora está criando a São Paulo Companhia de Dança – gosta da Suíça.

Mas os Demo-Tucanos se traem nos seus atos falhos. O próprio Sayad caracterizou como “escândalo” o prêmio dado aos dois escritores (que fique claro – absolutamente nada contra prêmios literários). E é escândalo mesmo. A concentração de recursos que já são minguados só pioram o acesso à cultura. Não formam nem novos artistas nem público para livros, espetáculos, exposições etc.  Drenam recursos e energias e só servem como cartão-postal. Ou você conhece mais do que uma pessoa que frequenta a OSESP? (Um outro exemplo é a Virada Cultural, evento que dura 24 horas, serve como palanque para o prefeito Gilberto Kassab e que toma muito tempo e dinheiro – imagino que grande parte de ambos, anualmente – da secretaria municipal de cultura).

É um paradoxo: na opinião dos tucanos, o estado de São Paulo não precisa de companhia de água e esgoto, não precisa de companhia de geração e distribuição de energia, não precisa de banco público (passaram ou querem passar tudo na farinha, ou seja, vender); e tratam o funcionalismo público, muito marcadamente os professores da rede estadual de educação básica (para não falar de professores, funcionários e estudantes das universidades estaduais), com o desprezo que todo neoliberal reserva para o que consideram ser cupinchas do orçamento público – mas se empenham, na área da cultura, em obras faraônicas e na criação e manutenção de um verdadeiro mandarinato cultural.

Acredito que qualquer – qualquer – projeto que conte com dinheiro público precisa ter atrelado a si um programa de formação. Exemplo: a Osesp deve manter programas de formação, mesmo que avançados. A companhia de dança também, e seu orçamento poderia incluir bolsas de estudo para dançarinos que não pertencem ao grupo, e quem sabe mesmo programas de formação para jovens dançarinos. E por aí vai. A separação das secretarias de cultura e educação, e não apenas política e administrativa, tem sido destrutiva para ambas, nas mãos da tucanada.

26 comentários sobre “Política cultural?

  1. Nossa Jay, será que o professor do Estado recebe R$3,5 mil mesmo? Duvido muito. Acho que é menos…

    De resto é impressionante como a cultura nos governos tucanos, na melhor das hipóteses, é encarada como um marketing de boas intenções.

    Os caras gastam uma grana pra promover a leitura por meio de um prêmio que meia dúzia de pessoas que lêem jornais e blogs vão ficar sabendo. Ou seja divulgam um autor para o público que já compra livros no Brasil.

    A ação é sempre cara demais e raramente extrapola o público que já consome cultura no país. Tem muito a ver com a políticas do PSDB de maneira geral, sempre vistosas e sempre parecem ser uma grande revolução, mas nunca têm a qualidade de vida da maioria da população em mente. É triste.

  2. É a cara do tucanato. E ainda vêm posar de grande gestores. EM MG acoteceu coisa parecida. O governo Aécio fez cortes de R$450 milhões em investimentos – cortou novos concursos e diminuiu gastos em saúde, moradia e segurança.

    O grupo tucano em Minas com isso criou o maior arrocho salarial da história do funcionalismo público em Minas.

    Mesmo assim a dívida do Estado cresceu de 14 bi para 50 bi e o governo acaba de fazer um emprestimo de mais 1b i. Por quê?

    Incompetência, é claro. Mas não so, Os gastos em publicidade são astronômicos. E a construção do tal Centro Administrativo (que vai levar a sede do governo mineiro pra Conchinchina) estava orçado em 500 milhões e já atingiu a cifra de 15 BI, e ainda não está pronto.

    A tucanada tem faniquito de ser candidata à presidêncoa e quem paga o pato é quem votou neles.

    http://www.sindifiscomg.com.br

  3. Laurão
    Chutei um valor, imaginando um professor que dá todas as manhãs, e já teve algum aumento por conta do plano de carreira. Ou seja, estimativa otimista, pegando os marajás do sistema público de ensino do estado.

  4. Então, não sei. Acho o valor do prêmio assustador mesmo, assim como o salário dos regentes, o salário de conselheiro do Roberto Freire e muitos outros salários. Talvez fosse prudente pensar o valor do prêmio em comparação com o gasto de acervo e manutenção das bibliotecas públicas estaduais. O número de bibliotecas estaduais é muito pequeno. Não sei dizer a proporção, mas algumas boas bibliotecas da cidade, como a Mario de Andrade, têm se tornado cada vez mais restritas. Por isso, gostaria saber do secretário qual o plano dele de incentivo e acesso à leitura. Da manutenção e compra do acervo da biblioteca, do desenvolvimento de atividades educativas. Será que cobre o salário do Neschling? Acho difícil.
    De resto, acho bom que o projeto do Herzog e De Meuron (de resto dois artistaços, que fizeram a Tate Modern e uma terma na Basiléia que é uma maravilha)seja construído. Acho bom ter um teatro com arquitetura diferente da que estamos acostumados. além disso, isso dá uma oxigenada na cultura endógena das construções brasileiras. A pergunta é se isso custará o não atendimento de outras demandas.

  5. Verdade, Tiago. Mas eu desconfio muito disso, de que haja esse efeito (essa oxigenada). Acho um discurso meio “civilizatório”. Defendeu-se a Cidade da Música (RJ) nesses termos, e o negócio tá lá parado, treta na justiça, e talvez definitivamente interrompido. Sinto que há muito mais, no caso, do discurso urbanístico bem conservador da “cidade global”, que ferra a estrutura das grandes cidades periféricas, coloca fora de ordem prioridades.

  6. Ceará
    Eu sou a favor, incondicionalmente, de festa, mas a virada cultural acaba servindo como cortina de fumaça pra falta de política pública de cultura séria na cidade.

  7. Duzentos mangos para cada um.
    hum…
    Se juntar mais um pouco de dinheiro o Estado pode criar um prêmio pra rivalizar com o Nobel. Poderia ser o “premio Covas”, ou algo assim.
    Já da para imaginar quem seria o primeiro ganhador (a premiação seria realizada na ONU, é claro), “por sua contribuição na erradicação da AIDS e gestão à frente do ministério da saúde do brasil”.
    P.S: Sim, o Ronaldo Correia Britto é um dos inúmeros sósias do DP. Aliás, essa foto foi muito boa.

  8. Lauro, adoro essa capacidade de análisis sua, Serra/Kasabi desmerecem a nossa mediana inteligencia e a da grande maioria, pensam que a gente de fato é burra e não percebemos o que acontece no cotidiano. A politia pública deles é sempre auto promoção, atrás de tudo tem segundas intenções, aliás não existe discurso sem dizer que foram, os primeiros nisso ou no outro..
    Um exemplo…e o metrô? para uma cidade do tamanho de São Paulo, a kilometragem é que existe é uma muito amadora. O trânsito em SP é um caos e vai piorando. Adoro a cultura mas tem prioridades tristemente.
    Na hora de se candidatar estes senhores, provam que um mais um é dois, que acabaram com todos os problemas urbanos e vemos nesses pequenos exemplos como se desenvolve a repartição de prioridades e dinheiro!
    Espero que sejamos cidadãos na hora de votar e lembrar destes fatos. E Lauro não dá meu “Chile lindo” de exemplo no meio disso tudo rsrsrsrsrsrs!

  9. Pô, Alexa. Dessa vez o texto não é do Lauro…
    E o lance com o Chile foi uma brincadeira, imaginando um gringo ignorante que não faz a mínima idéia do resto do mundo, que é a contraparte do latino-americano caipira, deslumbrado com Europa e EUA.

  10. Agora eu entendi essa fuga repentina do Daniel Pitta pros Estados Unidos. Vai gastar a bolsa Sayad toda na Disneylandia…

    Oi Alexa, valeu pelos elogios minha queridíssima, mas dessa vez o texto é do Jay Jay. E eu vou ficar de olho na edição aqui pra ninguém colocar o maravilhoso Chile no meio de confusão.

    Tô com saudade miaquirida.

  11. olha…convivi com o DP e com aqueles hábitos sofisticados dele. Tenho total certeza de que a época de róliudi foi muito mais rentável do que essa – pra não xingar – política pública completamente equivocada!

    Jay, taí o discurso do Lula, no lançamento do vale cultura:

  12. Jay,

    Acho que o prêmio tá meio alto mesmo. Concordo com você. O que o Estado poderia fazer para incentivar a leitura é construir boas bibliotecas (com bastante livros, ambiente aprazível etc.). A biblioteca pública de NY que fica no Bryant Park é linda (manja Caça-Fantasmas? o Geléia foi pego lá). Mas o povão conta com as filiais da Public Library em todos os bairros.

    No Queens, que é um bairro proletário, além de livros, há um ambiente legal. Outra coisa importante que eles fazem é atrair as pessoas para a biblioteca oferecendo internet de graça.

    Quanto à Osesp, tenho grandes dúvidas. Acho que o salário do regente era mesmo muito alto para os padrões brasileiros. Mas o Neschling trabalhou muito mesmo. E se não se paga um salário compatível com o exterior, você só consegue montar uma orquestra de 5a. categoria. Enfim, a questão é: queremos uma orquestra de alto padrão para São Paulo? Daí sou republicano e vale a vontade geral.

    Belo post.

    Abraço,
    Rapha

  13. Rapha, meu ponto de vista coincide com o seu. Acredito que a criação de estruturas de altíssimo padrão são políticas que embora não sejam populares possam ser importantes. O prêmio é um exagero, agora, se não prejudica nenhuma política mais urgente, a orquestra de primeira bem como o prédio do Herzog e De Meuron são bem vindos. Eu só queria saber o que deixam de fazer para realizar isso.

  14. Pessoal,

    O que ocorreu neste caso foi o seguinte:
    Estava o secretário de cultura, em seu gabinete, jogando freecell e pensando:

    “putz, eu tenho esse dinheiro todo aqui, no meu orçamento, o que eu faço com essa grana? Embolsar isso tudo, perto de eleição, é meio perigoso. Se eu for devolver a grana, vão achar que eu não trabalho direito… Humpf, se eles soubessem. Hoje li a Ilustrada inteirinha! Meu Deus, que saudade de Yale!”
    Nisso chega seu assessor, membro ativo do PSDB – jovem:
    – Dr. Sayad, queria lhe agradecer, aquele curso em Los Angeles foi massa, aprendi altas receitas de sushi. Ah! Aquele relatório sobre o festival de Sundance vai ficar pronto rapidinho. Não deu pra ir, mas fiz amizade com um pessoal jóia, que me contou todos os detalhes: a festa, a grana, as garotas… Se eu não gostasse tanto de Teka Maki teria me arrependido.
    -Hum, festa, grana, Teka Maki, garotas… Já sei, vou fazer um coquetel e distribuir essa grana que está sobrando na secretaria pro melhor filme paulista do ano. A Fernanda Montenegro deve ter participado de algum…
    – Não sei, doutor. Prêmio pra filme tem todo final de semana. Acho que, no Brasil, hoje, a onda é outra, tem mais de cinco anos que a gente não é indicado pro Oscar. Pra não dizer que governo federal está soltando uma grana no cinema. Não sei se dá pra competir.
    – É verdade. Além do mais, minha empregada vai ao cinema. Temos que ter um diferencial… Já sei! Livros! Todo mundo gosta de livros! É coisa de gente inteligente, não é? Vamos fazer um festão, chamar umas recepcionistas e distribuir a bufunfa para uns escritores aí! Vai ser ducaralho!”

    Foi assim.

  15. Tiago, Rapha

    Eu ainda fico incomodado com a promoção pelos cofres públicos de implementos de “altíssimo padrão”. Pensando no lance da arquitetura, vale lembrar o caso de Chicago: tornou-se uma referência para a arquitetura contemporânea porque casou a presença de escritórios de grandes nomes da arquitetura (o Mies van der Rohe, por exemplo) com muita grana privada querendo investir no negócio multi-bilionário do mercado imobiliário. Nego subiu prédio de escritório moderníssimo, em todos os sentidos (técnico, arquitetônico), pensando também em estar fazendo um ótimo negócio com os aluguéis e etc. Acho que a construção desses grandes feitos arquitetônicos tem que ser lance da iniciativa privada. É uma forma de arte com valor agregado alto demais para ser financiada pelo Estado. Não vejo sentido sair do orçamento da secretaria da cultura estadual a grana para a construção de um projeto multi-milionário cujo uso e benefício são muito limitados. É dar bom dia com chapéu alheio. Gestão racional de recursos públicos é tirar o máximo de benefício de cada centavo usado. Mas não se pode esperar eficiência de tucano. É pedir demais.

    E, me desculpem: eu acho meio deslumbre essa coisa com termos, no Brasil, equipamentos de “primeiro mundo”. O caso da Cidade da Música no RJ foi o suficiente para eu não ter estômago para esse tipo de projeto, ou de defesa desses projetos. No geral essas conversas são cortina de fumaça para os dois lados entrarem numa grana pesada. Olha a ponte estaiada. O meu irmão, engenheiro, ficou maravilhado com a proeza de engenharia. Ficou bonita. Agora só falta resolver o problema do transito na cidade: na ponte cartão-postal da demo-tucanolândia, não passa ônibus. Nos teatros dos tucanos, só entra emplumado. Ou, quem quiser, pode olhar de fora.

  16. Jay, não tem deslumbre nenhum, isso deve ser feito como é feito em todo mundo, com dinheiro público a rodo, por meio de concurso. Pois não vejo o IAB se indignar quando uma burra de dinheiro vai para o Paulo Mendes, para o Niemeyer ou para qualquer arquiteto brasileiro. Faz um orçamento, um concurso internacional e apareçam esse concurso.
    Acho que isso faz bem para a produção brasileira e não sei medir isso no curto prazo. O problema da cidade da música é que ela não foi orçada e foi uma roubalheira danada. Embora o Rodoanel seja uma obra mais útil, o problema é parecido, feito com direção 100% nacional.
    Então,. não tem deslumbre nenhum, só acho caipira fazer esses concursos e restringir a presença de escritórios maiores. Escândalo por escândalo, essa sede novfa do governo mineiro também não é nenhuma maravilha. Feita com mão de obra 100% brasileira, do centenário Niemeyer. Uma bosta, para sair do estacionamento e ir para o trabaklho, nego precisa pegar ônibus.

  17. pô, rapha. foi o jeito de chamar alguém de liberal mais educado que eu já vi!
    abraço mano, e apareça sempre.
    J.

  18. Jay, tudo bem? desculpa, pela confussão que fiz rsrs..e o lance do Chile era numa boa, ok? o elogios então vão para vc! 🙂

    Laurito; desculpa tb rsrsrs e saudades!

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