O horror, o horror

Bishop e Lowell em Copacabana
Lowell e Bishop curtem o horror em Copacabana

A revista Piauí deste mês publica um texto do dono da Folha de S. Paulo, Otávio Frias Filho, sobre a troca de correspondência entre Elizabeth Bishop e Robert Lowell, cartas estão no livro Words in Air: the Complete Correspondence between Elizabeth Bishop and Robert Lowell, publicado no ano passado.

O texto de Otávio Frias Filho se chama: “O Brasil é mesmo um horror”. É engraçado como  transparece as opiniões recentes da Folha sobre o Brasil no comentários às cartas dos poetas. E como reflete o posicionamento de seu dono no debate político e cultural.

De acordo com o texto, Bishop tinha um tédio incontrolável em relação a produção cultural brasileira e na política padecia do lacerdismo original, hidrófobo e radicalmente anti-comunista. Sua companheira, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, a Lota, era assessora direta de Carlos Lacerda  e foi a responsável pela criação do belíssimo Aterro do Flamengo – e as não tão bonitas Cidade de Deus e Vila Kennedy.

Para Otávio Frias, quando Bishop diz que Gilberto Freyre é “legível” (engraçado o duplo sentido da expressão para uma pessoa que ainda engatinhava no português) ou quando declara que “se você nunca ouviu música boa, finge que bossa nova é bom e que Villa-Lobos é o maior”, ela está dando uma posição privilegiada sobre a cultura dos “anos dourados” dos 50 e 60.

Para ele, é uma opinião autorizada, é um “discernimento frio”, nas palavras do próprio autor. A posição política da poeta, ostensivamente favorável à ditadura militar (mesmo depois que Lacerda abandona o barco do golpe), e seu horror aos comunistas são tratados com bem menos reverência. Na matéria, Frias escreve assim:

Se a etnografia voluntária de Bishop é de uma objetividade quase infalível, sua apreciação da política brasileira é sempre parcial.”

O que parece não entrar no debate do dono da Folha é que a pecepção  cultural da poeta também é parcial, mediada por sua inserção como norte-americana da Nova Inglaterra no Brasil, que sente “um verdadeiro calafrio de medo e horror ao comunismo” em um jantar com o corpo diplomático chinês.

E também é influenciada pelo viés das pessoas com que ela convivia: a elite do Rio de Janeiro, ostensivamente Lacerdista e contra o grupo de João Goulart, Getúlio e tudo que eles representavam. Uma elite que acima de tudo identificava o nacionalismo e a cultura nacionalista dos Trabalhistas como algo essencialmente atrasado.

Para Frias, Bishop entendia o problemático processo cultural brasileiro. Nas palavras do dono da Folha, o desenvolvimento cultural do País ainda se iniciava e  foi interrompido pelo Golpe Militar e pelo AI-5. Era um processo ainda na sua infância que era observado com olhares de mamãe severa, pela poeta quase européia da Nova Inglaterra. Com isso, Frias se contrapõe à idéia – também simplista – de que as décadas de 50 e 60 teriam sido um apogeu das artes e do pensamento brasileiro.

Mas voltando ao Otávio Frias Filho, entender o processo cultural de forma tão mecânica e etapista é que parece meio despropositado. É coisa de gente que pensa a história como um caminho de mão única em direção a uma sociedade européia, idealizada e sem violência.

Feito se a trajetória cultural fosse uma busca de um conceito fixo. O que poderia ser entendido como Brasil naquele momento, não é mais Brasil agora. Os conceitos mudam demais, mesmo que algumas situações permaneçam.

Fora isso, eu acredito que exista uma tendência a se superestimar o olhar estrangeiro. O historiador Muryatan Santana Barbosa explica muito melhor essa ideolgia eurocêntrica em seu texto aqui. É uma angústia de que a nossa compreensão de país não dá conta da solução dos nossos problemas, como já conversamos bastante  por aqui.

É engraçado que a mesma revista tenha publicado uma matéria sobre uma ação bem clara da Europa que serve como piada sobre o papel que nos cabe no capitalismo global… o mesmo papel de lata de lixo de outros locais distantes de onde a riqueza planetária é acumulada.

O cinema brasileiro dos anos 90 em grande parte trata disso, de como o estrangeiro entende o Brasil. Não é à-toa que um dos primeiros filmes dessa safra se chame Terra Estrangeira e fala de um sujeito que precisa ir à Europa para saber o que se passa no País. Mas isso é outra  conversa, sobre outros horrorizados…

7 comentários sobre “O horror, o horror

  1. Lauro, concordo com várias coisas que você escreveu, mas tem alguns tópicos do seu texto que eu queria comentar. Não li o artigo do Frias, mas posso imaginar o teor. A Folha está empenhada em tirar o estigma sombrio da direita golpista brasileira no século XX, fazendo uma ponte com essa visão do cenário político atual como um conflito binário entre civilização e barbárie. Isso inclui recuperar a revolução de 32 e o golpe de 64. E voce tem razão quando diz que em muitos aspectos o Brasil daquele tempo não é o Brasil de agora. Por isto, é preciso entender também o porque de algumas posições da Elizabeth Bishop. Não dá pra esquecer, por exemplo, que Getulio Vargas administrou uma ditadura brutal no Estado Novo que fechou o congresso, torturou e interviu até em enredo de escola de samba. Várias pessoas do alto escalão do governo eram hitleristas que pressionavam pelo apoio aos paises do eixo. Então, embora a maior parte dos inimigos do Getulio fossem bem piores que ele, eu entendo, em parte de onde vem esse horror todo de uma americana típica da Nova Inglaterra que, na verdade,sempre foi um dos lugares politicamente mais progressistas dos Estados Unidos.Junte a isto o fato de ela estar namorando uma lacerdista e monta-se o quadro. O que eu sei é que ela adorava o Drummond. Isso sim é uma validação importante, não por ela ser americana ou européia, mas por vir de uma grande poeta reconhecendo a grandeza de outro. Entendi o que norteia seu texto mas me parece que o problema não é a Elizabeth Bishop e sim o seu Frias instrumentalizando a opinião de uma artista nascida no começo do século passado para corroborar essa visão eurocêntrica do Brasil.

  2. Muito bom Rodrigo, em primeiro lugar eu acho que o texto da Piauí fala mais sobre o pensamento do Otávio Frias Filho sobre o Brasil mesmo. É mais em torno da necessidade do dono da Folha em buscar um processo civilizatório brasileiro (que diz muito sobre os nossos pontos de contato com o eurocentrismo) e de creditar um conservadorismo.

    Mesmo assim, eu duvido que as posturas políticas da excelente poeta tenham a ver com o passado histórico do Getúlio. Ela chega no Brasil três anos antes da morte do Getúlio Vargas, em 1951. E não só isso, ela continua apoiando o golpe militar mesmo depois da debandada do Lacerda. Não se preocupa com o autoritarismo dos militares, pelo menos na seleção da Piauí.

    Nas cartas publicadas na Piauí até justifica algumas violências do golpe de 64, principalmente as de Lacerda, e escreve as seguintes palavras para Robert Lowell:

    “Não acredite no que você vir sobre ‘legalidade’ e salvar a preciosa ‘Constituição’! – Todos os velhos vigaristas estão correndo de volta aos cargos o mais depressa que podem – e o PC (Partido Comunista) agora age às claras”.

    É o claro discurso da invasão soviética e do mar de lama do Lacerda, que em nada deve para a invasão da Baía dos Porcos, dos Kennedy da Nova Inglaterra. Acho que é sempre bom separar o progressismo americano na política interna e na política externa. Raramente, eles coincidem (e olha que eu não sou dos que fazem discurso de que Republicanos e Democratas são iguais, de jeito nenhum, mas o progressismo americano vai até certo ponto).

    Voltando a Elisabeth Bishop, depois que o Lacerda abandona os militares ela o chama de traidor nas cartas inclusive. Continua apoiando o golpe e continua tendo horror ao comunismo.

    Isso não faz,de maneira alguma, que Elisabeth Bishop deixe de ser uma poeta extraordinária e de uma importância grande pra literatura brasileira. Ela tinha um olhar muito bom para poesia, pra música e pra pintura (além do Drummond, ela admirava muito João Cabral, Bandeira, Clarice Lispector e Rachel de Queiroz). As intervenções dela sobre a cultura do Brasil, no entanto, são sempre a de quem busca encaixar o país numa lógica de civilização europeia.

    Mas o interesse dela pelo Brasil sempre vem dos círculo de amigos que ela fez enquanto viveu aqui. E ela nunca consegue romper o americanismo para entender o que se passa por aqui. E, pelos amigos americanos que eu tenho, isso é bem difícil. Os EUA nunca saem deles, em nenhuma instância…

  3. A Elizabeth Bishop tinha ótimo gosto. Gosto de alguns livros que li dela e a lista que o lauro postou é supimpa. Só tem o primeiro time (não conheço a Rachel de Queiroz). Agora, os limites do progressismo americano são bem estritos, ainda mais naquela época. Não atravessam fronteiras do país e muitas vezes nem as do estado. É claro que o horror que ela vê nos comunistas tem relação mais com uma atribuição de incapacidade da bugrada tocar seu destino do que a qualquer avaliação antiautoritária. À direita e à esquerda, os governos do norte sempre desconfiam da capacidade dos vizinhos austrais tocarem o seu estado. Não é por acaso que o Jimmy Carter, insuspeito de qualquer conservadorismo, em plena crise do petróleo, irrigou Suharto de dólares na luta contra o já carcomido sistema soviético. O apoio da poeta aos milicos parece ter essa cara.

  4. eu acho que essa é uma discussão de muitas vertentes e esse viés da legitimidade do olhar estrangeiro me parece o mais interessante. Com certeza há condescendência nas opiniões dessa poeta, mas eu fico pensando como esse progressivismo americano ou europeu se manifestaria em termos de política externa num mundo altamente polarizado como aquele dos anos 50?se não era apoiando a ditadura militar num país de terceiro mundo como fez a Elizabeth Bishop seria apoiando o regime stalinista e negando os expurgos como fez Jean Paul Sartre? eu acredito que ser progressivo naquele momento significava ver com profundo ceticismo qualquer modelo de intervenção tanto num espectro ideológico como no outro. Poucos conseguiram sair do esquematismo e erguer uma argumentação crítica consistente contra essa coexistência de poderes que só poderiam destruir o outro se destruissem a si mesmos. Se Elizabeth Bishop enxergava o Brasil com as lentes de uma WASP, anti-comunista e um certo padrão eurocêntrico de civilização, a intelectualidade de esquerda na época romantizava o terceiro mundo com caracterizações idealizadas que também raramente escapavam do estereótipo. A maioria não queria apenas anti-colonialismo queria vinculação ao modelo soviético. O que é que é mais legal? Sartre em Araraquara ou Elizabeth Bishop em Copacabana?

  5. em linhas gerais eu concordo com voce, Lauro. Minhas ponderações é que ficaram compridas demais.

  6. Então Rodrigo, entre as duas opções oferecidas pela intelectualidade internacional, eu não ficaria com nenhuma. Ficaria com a manutenção das instituições e do processo democrático. Mas é lógico que o cenário era muito polarizado e era complicado não tomar partido naquele momento.

    O problema é que nenhuma voz forte na política internacional manteve a defesa da democracia e das escolhas da população àquele momento.

    Por que o mais importante é garantir que a população decida sobre o seu destino dentro de regras institucionais estabelecidas.

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