Hans Belting e os limites da História da Arte

Hans Belting
Hans Belting

Hans Belting é hoje um dos maiores nomes no pensamento sobre artes visuais. É conhecido por sua reflexão histórica e teórica sobre a produção visual na idade média e a arte da Europa setentrional. Além disso, publicou monografias importantes sobre artistas da tradição ocidental e da modernidade. Entre os seus estudos mais conhecidos estão as monografias sobre Giovanni Bellinni, Bosch, Jan Van Eyck, Max Beckmann e os contemporâneos Thomas Struth, Bill Viola, Peter Greenaway e Alex Katz.

Recentemente, se empenhou em um empreendimento ambicioso: uma pesquisa detida sobre os sentidos da imagem e as relações entre a arte e as mídias eletrônicas, sobretudo as imagens em movimento do vídeo e da televisão. Esse estudo começou durante o período em que ele era professor do programa de doutoramento da Staatlische Hochschulle für Gestaltung, em Karlsruhe, na Alemanha.

A questão toda é se a idéia de arte, que viria do século XVII, ainda seria capaz de dar conta de uma criação visual inserida em contextos sociais tão diferentes e com sentidos antropológicos que diferiam tanto daquele que a instituição artística havia proposto. Agora tudo isso era feito sem uma interpretação exclusivamente teórica e nem com a idéia do predomínio de um limite institucional. eram as ações da criação visual que se modificavam, os limites, ou molduras, da história da arte não pareciam suficientes para isso.

Em uma entrevista excelente para a crítica de arte Taísa Palhares, Hans Belting disse que o enquadramento da tradição da história da arte acabara se tornando eurocentrico e  limitado. Por isso, ele propunha uma nova ciência da imagem, que incorporaria uma nova história eu uma nova antropologia da imagem. em suas palavras:

As diferenças entre história da arte e história da imagem são evidentes. Na história da arte trata-se naturalmente da arte e especialmente das obras de arte, que têm um lugar e uma data, e são portanto classificáveis. A história da imagem, pelo contrário, especialmente na nova forma da ciência da imagem que nós discutimos na Alemanha, abre-se para a diversidade das mídias de imagem [Bildmedien] atuais e ocupa-se também com as imagens internas e os imaginários na consciência de uma sociedade

ou

Mas uma antropologia da imagem parece ter sido sugerida somente pelo meu livro de 2001 [Bild-Anthropologie: Entwürfe für eine Bildwissenschaft – Antropologia da imagem: esboços para uma ciência da imagem]. Creio que a práxis humana da imagem é o verdadeiro tema desde o início. A ela pertencem rituais imagéticos, iconoclasmo etc. Antes de tudo, o tema aqui é a diferença, bem como a interação, entre imagens endógenas e exógenas, como eu as denomino, na antropologia da imagem.

A reflexão vinha de longe, em 1983, Belting publicou uma conferência em que problematizava a viabilidade e a legitimidade de se insistir nos preceitos da disciplina que ele dedicou boa parte de seus esforços intelectuais. O título do livro era bastante direto e vinha em forma de interrogação: O fim da história da arte? Para ele não se tratava de abordar nem o fim da arte e muito menos o fim da história, mas do esgotamento de uma tradição do conhecimento, que predominou na reflexão sobre a visualidade. Segundo o autor, tratava-se de um modo de abordar um determinado recorte de fenômenos, chamado por ele de “enquadramento”, que articulava processos distintos em uma sucessão coerente e linear de eventos, como se todos pertencessem a um mesmo desenvolvimento, dotado de natureza comum. A pergunta feita seria um teste para os limites daquele tipo de narrativa.

O livro O fim da história da arte – uma revisão dez anos depois, publicado pela Cosac Naify em 2006, transforma o que era um questionamento em uma certeza. Segundo o autor é preciso reformular o que ele chama de “ciência das artes” para uma abordagem que evite que o historiador incorra no seu maior pecado: o anacronismo. A história da arte, tal como era contada, aparece para o autor como um “equívoco ocidental”. Que trata o desenvolvimento de algumas correntes da produção visual de uma determinada cultura como uma narrativa única e universal. Como Belting descreve: “A assim chamada história da arte foi sempre uma história da arte européia, na qual, apesar de todas as identidades nacionais, a hegemonia da Europa permanecia incontestada. Mas essa bela imagem provoca hoje o protesto de todos aqueles que não se consideram mais representados por ela”. Mais do que isso, ela parece incapaz de incorporar desenvolvimentos recentes da produção, associados a outro tipo de relação com a obra, distintos da contemplação tradicional.

Portanto, não se trata de declarar o óbito da pesquisa sobre arte e nem de tentar  trazer para essa sucessão fechada e auto-referente de eventos, fenômenos que não se incluíam nela até então: como a produção visual do Leste europeu, que corria em paralelo à chamada tradição ocidental e os novos modos de se lidar com as imagens e os fenômenos estéticos. Mais do que isso, o autor propõe uma revisão das concepções da pesquisa em um novo modo de encarar esses fenômenos e chamá-los pelo nome que eles têm.

Como resume a historiadora Glória Ferreira “Para Belting, a idéia originária presente no conceito de “história da arte” – de restituir uma história efetiva da arte e trazer à luz seu sentido – vê-se questionada, diante das transformações de seu objeto, por não assegurar um padrão (ou enquadramento) segundo o qual a obra individual possa ser avaliada. A constatação da premência de uma mudança no discurso não implica, diz o autor, em decretar seu fim, pois o jogo pode prosseguir, e suas regras não mais serão as mesmas, encontrando-se agora em processo contínuo de transformação”.

Na tentativa de reformular a chamada “ciência das artes” o autor nos oferece um amplo panorama da produção em história da arte, problematiza algumas peculiaridades da arte contemporânea, tenta entender as peculiaridades dos museus ontem e hoje e nos sugere “uma nova e mais abrangente história da imagem”, onde “a história da arte prévia fosse integrada mas não dissolvida. A história da imagem poderia conceder o seu direito às mídias imagéticas, onde quer que entrassem em cena, do mesmo modo que também identificaria a arte onde esta se apresentasse historicamente com essa pretensão. A arte apareceria então como um fenômeno histórico tanto quanto o são a coleção de arte e a literatura sobre arte, que igualmente surgiram apenas em determinadas épocas.”

Para quem trabalha com uma tradição estrita e pensa as suas mudanças e a vontade de outras tradições migrarem para os domínios tradicionais da arte, a questão é muito forte. Hoje é comum a revindicação de artisticidade a tudo, da culinária à pichação, da televisão à pintura mural. Curiosamente, mesmo ações que se dizem antiartísticas na verdade querem um bom assento na mesa da história da arte.

Talvez fosse o caso de explicitar os limites dessa forma de reflexão e criação marcada no tempo e na cultura para começarmos a ver as outras coisas como o que elas são, fenômenos diferentes. O fetiche em torno da idéia de arte faz com que outros modos de expressão se empobreçam diante do fascínio em ser arte. O livro de Belting me parece ,a cada dia, mais atual, mas não para mostrar os limites da arte, mas o rídiculo do desejo de inserção à essa instituição de outras manifestações. é mais importante entendermos o que tem de novo aí do que inserí-las em algo tão recortado na história e na cultura.

3 comentários sobre “Hans Belting e os limites da História da Arte

  1. estamos organizando um seminário sobre peter greenaway na UnB e gostaríamos de saber se vcs tem o contato do hans Belsting, para convidá-lo a participar do evento.
    obrigado
    prof. maravalhas

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