Gran Torino

Os filmes mais recentes de Clint Eastwood são profundamente ambíguos. Seus protagonistas (em geral, interpretados por ele mesmo)  são constituídos pela tensão entre a celebração da America branca, cristã, masculina, de um lado, e o desespero existencial de quem se depara, no momento crucial, com as consequências trágicas dos atos que suas convicções – brancas, cristãs e masculinas – os levam a realizar.

Conservador, sempre na contramão das tedências progressistas – em plena contracultura, esse filho de São Fransciso vivia nas telas, não sem convicção, o policial durão “Dirty” Harry, caçador implacável de hippies psicopatas (numa improvável versão dos Freak Brothers para o cinema, Dennis Hopper ficaria bem no papel de um dos “freaks”, e Clint Eastwood com certeza seria um dos narcs tentando dar um enquadro nos doidões) –, Eastwood se tornou  um dos grandes emblemas da cruzada contra a decadência dos valores americanos. Para boa parte dos espectadores, encarnou, e encarna, o tipo celebrado pelos republicanos, durante a era Nixon, como a “maioria silenciosa”, que supostamente assistia, passiva e vitimizada,  a sociedade americana se desfazer por conta da ação perniciosa da miscigenação racial, do relativismo cultural, do conflito de gerações e da decadência dos valores religiosos – um caldo cultural venenoso que haveria de destruir os fundamentos da sociedade capitalista industrial. Para quem se interessar, dois clássicos da ideologia conservadora nixoniana que ajudam a entender esse discurso são o trabalho do sociólogo Daniel Bell, trotskista convertido ao neo-conservadorismo, As contradições culturais do capitalismo, de 1976, e o romance Mr. Sammler’s planet, de Saul Bellow, de 1970. Ambos – é difícil confessar – dois livraços, se os lermos com máscaras cirúrgicas e luvas. Mas isso é outro assunto.

"Go ahead, punk, make my day"
"Go ahead, punk, make my day"

O que faz de Eastwood algo mais do que um fanático fazendo proselitismo barato é justamente a ambiguidade de seus filmes, e de seus personagens. Toda a certeza que seus personagens parecem ter sai pela culatra quando chega o momento crucial. São portadores de uma sabedoria que se perdeu não porque foi ignorada ou abandonada, como uma verdade para a qual a humanidade resolveu fechar os olhos, mas porque no fim se revela ela mesma como farsa, como equívoco.

Gran Torino (2008) não é diferente. Walt Kowalski é o eterno cowboy solitário da mitologia de Eastwood. Viúvo, sem vínculo afetivo com filhos e netos, vive sozinho num bairro empobrecido e habitado por imigrantes asiáticos. Multi-nacionais – os hmong habitam regiões da Coréia e da China – , presos a tradições e marginalizados da sociedade americana, são a tribo indígena ameaçadora que Walt tem de enfrentar nessa fronteira urbana pós-industrial. O avesso da civilização, que o cowboy iria encontrar nas terras distantes do oeste selvagem, agora mora ao lado, no coração mesmo da América – em pleno Michigan, o estado por excelência da indústria automobilística e da sociedade que se estruturou em torno dela. Para Kowalski, os tempos de expansão de seus domínios acabaram. Resta-lhe defender, decrépito, o seu gramado.

Walt verá-se diante da necessidade de enfrentar seus vizinhos, de forma desesperada, com os elementos da ética que, acredita, construíram a grande América: a sabedoria do soldado e do operário, da guerra e do capitalismo industrial, a grande arte das armas e das ferramentas. Para Thao, seu jovem vizinho, Walt reserva lições duronas a respeito de como se tornar um homem digno: trabalhador, másculo, firme. Para a gangue que ameaça a vizinhança, o bom e velho estilo do “cowboy sem nome” dos filmes de Segio Leone.

Cena de Gran Torino
Cena de Gran Torino

Mas essa ética não serve mais para ninguém. A tentativa de incutir em Thao a “ética do trabalho” resulta na reação violenta dos jovens da comunidade hmong, membros de gangue inconscientemente a par do destino de párias sociais que essa América nova, decadente, lhes reserva. O enfrentamento com a gangue hmong desencadeia igualmente uma violência sem direção que se espalha incontrolavelmente em torno de Walt, atingindo principalmente seus vizinhos. De salvador, Walt, o “Diabo branco”, passa ao próprio desencadeador do apocalipse.

A garagem de Walt, repleta de ferramentas – de todas as ferramentas que um homem pode vir a precisar, uma coleção construída ao longo de 50 laboriosos anos – remete agora a um cemitério de coisas obsoletas, instrumentos sem utilidade de um mundo que não existe mais. E do qual ninguém sentirá falta.

A ambiguidade de Gran Torino está nessa sugestão de que, no fim, estamos todos errados. Esse fatalismo tem, sem dúvida, algo de reacionário, mas acho que – além de ser um dos melhores filmes de Eastwood, conciso, virtuoso – é um dos retratos mais provocativos da sociedade contemporânea. Afinal, a ambiguidade e a contradição são mesmo a marca da modernidade.

Off-topic: festinha animada hoje com M. Takara.

14 comentários sobre “Gran Torino

  1. Fodaço o texto hein Jay, e o mais interessante do Gran Torino é que ele parece ser tão cristalino em suas ações, mas a ambiguidade das ações do personagem dão margem a uma gama gigante de interpretações. Não fecha em nada sobre o lado certo das coisas. Só é certo de que uma coisa muda muito pouco nos EUA, a ética da violência como intermediária da solução de qualquer nó social.

  2. jay, muito legal o texto. gostei sobretudo do modo como você mostra o personagem da ordem a provocar a desagregação total. É engraçado como o Clint Eastwood foi para uma posição de amargura desde aquele “mundo perfeito”. Acho curioso que ele tenha escolhido no “Sobre meninos e Lobos” atores declaradamente progressistas para interpretar os papéis principais (como o Sean Penn e o tim robbins), mas isso fica para a sessão fofoca.
    O que eu achei interessante no filme anterior do Clint Eastwood, “Atroca”, é que ele leva essa caduquice para a forma do cinema comercial americano tradicional. A fórmula do desenrolar de uma trama é vista como uma fantasia que de fato nunca se resolve. A promessa de justiça é uma mania. Algo que mais tem a ver com a manutenção de uma doença do que a cura de um trauma profundo. Assim, no filme, a espera pelo filho roubado torna-se algo que sustenta uma ilusão que não tem mais o menor sentido.
    O legal é que o registro deixa de ser o do envelhecimento de uma promessa, mas a idéia de obsessão mesmo, inclusive da obsessão de se organizar o material narrativo de certa maneira (à maneira que ele e o resto de Hollywood eternizou).
    Por fim, tenho uma pergunta, você vê alguma consonância entre esse possível novo ponto de vista conservador do Clint Eastwood alguma consonância com o neo-realismo politico(como o dos cientistas políticos ligados à John F. Kennedy School of Government). Queria saber a opinião do J e se possível dos cientistas sociais que frequentam o blog.

  3. ótimo texto mesmo, o melhor que eu li sobre esse filme. Ambiguidade é realmente a marca do Clint Eastwood. Ao mesmo tempo que parece apontar os males da intolerência e da violência também não deixa de associar a degeneração de valores aos perigos da assimilação cultural.Também nunca foge da mitificação do indivíduo e da noção de que a mola propulsora de qualquer transformação é essencialmente fruto de uma ação pessoal. Não considero este um de seus melhores filmes mas é tão acima do que o cinema americano vem produzindo, especialmente na elegância e na fluência narrativa que acaba chamando atenção, além do que deixa brechas pra grandes debates.

  4. Outra coisa, passada a discussão sobre o pós-moderno, seria legal repensar o Daniel Bell. A sua idéia de pós-indústrial foi pisada e repisada, mas acho que a discussão em torno dos pontos de vista científicos e políticos dele ainda são bastante pouco explorados, pelo menos até onde eu sei. Gosto especialmente do seu texto sobre o “bazar psicodélico”.

  5. tiago, rodrigo
    valeu demais pelos elogios. sobre esse lance do neo-realismo político eu teria que pensar. acho que alguma relação existe, sim. mas acho sempre que o que dá bons resultados para a arte – uma certa suspensão da opinião, uma recusa a pontificar – em geral funciona como ideologia na teoria e na prática políticas.

  6. só uma coisa que tem de certa forma algo a ver com o post. O único filme em que, ao meu ver, predomina uma radical negação do Clint Esatowood como mito que vai além da caracetrização do anti-herói que ele sempre encarna é o Estranho que nós amamos (the Beguilled) que nem foi dirigido por ele mas pelo grande Don Sieguel. Trata-se de uma obra prima de gótico sulista que lembra demais os contos do Ambrose Bierce ambientados na Guerra Civil. Fracasso de público mas um dos grande filmes americanos dos últimos 50 anos.

  7. “A promessa de justiça é uma mania. Algo que mais tem a ver com a manutenção de uma doença do que a cura de um trauma profundo.”

    Interessante lembrar do Os Imperdoáveis e do Sobre Meninos e Lobos com essa frase na cabeça. Até aquele filme da boxeadora tem um pouco disso, assim como o Coração de Caçador, aquele sobre o John Houston filmando na Africa (que é muito bom, ou pelo menos foi o que achei lá pra 1992). O Sean Penn tambem bate bastante na tecla da obsessão e da ausência de resolução, três dos quatro filmes dele tem esse tema bem a frente (exceção, talvez, seja o primeiro, The Indian Runner, que tambem é foda).

  8. Citando Tiago:

    “Por fim, tenho uma pergunta, você vê alguma consonância entre esse possível novo ponto de vista conservador do Clint Eastwood alguma consonância com o neo-realismo politico(como o dos cientistas políticos ligados à John F. Kennedy School of Government). Queria saber a opinião do J e se possível dos cientistas sociais que frequentam o blog.”

    Tiagão, tinha visto o post, mas ainda não vi o filme. Coloquei como primeiro na lista de filmes que recebo e vou dar meu pitaco depois. Valeu pelo “dever de casa”!

    Abraço,
    Rapha

  9. J, gosto do texto e preciso confessar que muita coisa que vocês discutem é bem difícil para mim.

    Gran Torino me fez pensar no tema do estranho, do estranhamento e do estrangeiro. Do estranho, no sentido Freudiano mesmo, de que aquilo que nos é estranho nos outros é o que estranhamos em nós mesmos. Não agimos como os filhos de Walt algumas vezes? Quem já não deu alguma coisa ao pai ou à mãe para que não se sentintissem sozinhos ou para que recorressem a nós com mais facilidade e rapidez para compensar nossa falta? Não pensamos o que Walt pensa de seus vizinhos?

    O melhor momento do filme para mim é quando o padre pede que Walt se confesse dizendo a ele que às vezes fazemos coisas que não queremos fazer por ordem de outra pessoa. E Walt diz que o pior é quando fazemos determinadas coisas sem a ordem de outras pessoas…

    O tema do estrangeiro me vem como sugere Simmel, de que somos estrangeiros nos mundos a que pertencemos. Ser estrangeiro em seu país, no bairro em que se mora há tanto tempo… E se sentir mais estrangeiro em relação aos filhos do que em relação aos imigrantes coreanos…

  10. Jay, parabéns pelo post. Vi esse filme hoje pra depois reler seu texto.

    Voce disse tudo.

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