Merce Cunningham (1919-2009)

Cheguei duas horas antes para poder olhar as obras e o arquivo no prédio do Merce Cunningham Studio. Por todos os lados havia meninas e meninos se esticando com roupas colantes. O elevador subiu mais devagar do que o normal, enquanto a porta pantográfica abria no andar errado, eu parecia ter chegado no meio de uma peça coreografada pelo próprio Cunningham: os dançarinos se mexiam sem olhar uns para os outros. Eram gestos econômicos, mas que não se coordenavam, mas criavam eventos paralelos.

No dia, um dos heróis da música experimental norte americana tocaria lá: Gordon Mumma. A reunião foi marcada nesse dia por isso. O meu amigo Kenny me disse: “será uma inflação do que a cultura dos Estados Unidos produziu de mais radical”. Era mesmo, a melhor pintura de um grande artista sobre o maior coreógrafo do país dele. Mumma, um compositor com a radicalidade de William Carlos Williams, tocaria piano junto com o trombonista, compositor, improvisador e escritor George Lewis. Não podia estar em outro lugar.

Logo encontrei o David Vaughn, o historiador que toma conta do arquivo a quase quarenta anos. O Kenny me avisou: “o sujeito conhece tudo sobre essa cidade”. Muito simpático ele me levou direto à tela que o Andy Warhol fez a partir de movimentos da dança de Cunningham. Só depois ele me mostrou as imagens do Rainforest (1968) espetáculo com música de David Tudor e cenário de Andy Warhol.

Cunningham & Cage
Cunningham & Cage românticos

Com tudo isso, não dava para ser uma visita pouco proveitosa, mas bem depois, já no saguão do salão de dança, onde eu esperava o concerto começar, ficou melhor. Eu estava sozinho, o meu amigo ainda não havia chegado, e muita gente que viveu com personagens da vanguarda novaiorquina dos anos sessenta começou a sair pela porta pantográfica. Era uma homenagem ao recém-falecido Sol LeWitt, um dos artistas mais conhecidos da minimal e responsável pelo termo conceptual art. Empinei e escutei uma porção de histórias. Visões nostálgicas dos grandes artistas americanos, gente que esteve ou teve algum parente no Black Mountain College e muitos depoimentos sobre John Cage, o grande amor da vida de Merce Cunningham.

De repente, Cunningham aparece por detrás de uma porta do estúdio. Já estava muito velho e provavelmente não mexia mais que 20% do corpo. Na sala diziam que o pintor Robert Rauschenberg estava muito mal e dificilmente agüentaria outro ano e ele não agüentou. Todos sabiam que aquele mundo que eles criaram já estava se esvaindo. A saída era criar novas formas de lidar com o que vinha por aí, sem saudade, sem utopia e com muita sede de fazer. Mais que isso, era conviver. Mas, eu confesso, não quis que aquilo fosse passado.

A sensação de morte é aterradora, talvez como a idéia de movimento na tela de Andy Warhol.

Andy Warhol, "Merce" (1963)

Andy Warhol, “Merce” (1963)

4 comentários sobre “Merce Cunningham (1919-2009)

  1. Então Guy, fui à fundação ver essa tela (mais que o Layout do rainforest, que é basicamente feito das nuvens prata), que o Merce ganhou de presente do Warhol. Acho a pintura mais bonita sobre movimento que eu já vi.
    São quadros estáticos onde olhamos o corpo de um jtio e no quadro seguinte ele está de outro. Entre uma coisa e outra, a imagem desaparece. É emocionante.
    Carol, sempre bom te ouvir, te ver e te ler. Fiquei muito feliz por esses dois amigos terem gostado
    abraço

  2. texto do Antonio Gonçalves Filho:
    http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,merce-cunningham-criou-uma-ponte-com-a-pintura,409163,0.htm
    Se Merce Cunningham tivesse apenas revolucionado a dança moderna como o coreógrafo que descentralizou o espaço do palco, subvertendo a perspectiva renascentista, já estaria de bom tamanho. No entanto, Cunningham fez muito mais. Revelou para o mundo artistas como os pintores Robert Rauschenberg e Jasper Johns, além de ter lançado aquele que é considerado o principal compositor experimental nascido nos EUA, John Cage (1912-1992), seu companheiro por muitos anos. Os dois se conheceram quando Cunningham ainda estudava na Cornish School of Performing and Visual Arts de Seattle, onde Cage tocava como pianista acompanhante e o coreógrafo ainda aprendia a técnica da coreógrafa Martha Graham, antes que essa o convidasse pessoalmente para integrar a sua companhia de dança.
    Cage foi muito importante na vida e na carreira de Cunningham. Ambos tinham certa reserva ao derramado emocionalismo de Martha Graham. O coreógrafo queria descobrir o que era, de fato, o movimento, qual a autonomia da dança em relação à música. Cage, igualmente rebelde, não queria subordinar suas composições a gestos expressionistas ou apenas ilustrar piruetas. Ambos sabiam que a dança era muito mais. Queriam, enfim, trazer para o palco todas as artes, da performance à pintura, passando pelo cinema. E foi isso que fizeram. Além dos nomes já citados, Cunningham teve como colaboradores cineastas como Stan Van der Brook e Charles Atlas.

    O primeiro grande colaborador visual de Cunningham foi Rauschenberg (1925-2008), que se tornou o primeiro conselheiro artístico de sua companhia em 1954, posição mantida até 1964. Em 1967, assumiu seu posto Jasper Johns, um dos principais representantes da arte pop e hoje, aos 79 anos, considerado o maior pintor vivo norte-americano. Os dois trabalharam com Cunningham justamente no período mais criativo da companhia – e também o mais rico da cultura americana, que via nascer não só a arte pop como os movimentos de contracultura, o novo cinema de Scorsese, Coppola, Cassavetes e companhia.

    Essa história começou, porém, no verão de 1953, quando Cunningham e Cage foram convidados para dar aulas no Black Mountain College, uma espécie de Bauhaus americana onde os professores eram arquitetos como Buckminster Fuller e pintores como Josef Albers – além de outros artistas de diferentes tendências como Willem de Kooning e Rauschenberg. O clima cultural da época contribuiu. Rauschenberg levou para o palco pneus velhos, pilhas de jornais e suas “collages”, obrigando os dançarinos de Cunningham a interagir com a sucata. Cage, então já fascinado pelo I Ching, convenceu Cunningham a tentar coreografias baseadas em números randômicos. O aleatório foi, então, incorporado à dança na mesma época em que Cage passou a usar os hexagramas do oráculo chinês para compor, integrando som ambiente e música.

    Rauschenberg criou cenários incríveis para coreografias de Cunningham, entre eles os painéis pintados de Minutiae (1954) e um conjunto de caixas brancas para Noturnos (1955). Coube, porém, a Jasper Johns a tarefa de traduzir para o palco a mais difícil obra do artista conceitual Marcel Duchamp (1887-1968), o Grande Vidro, sete gigantescas estruturas infláveis reproduzindo imagens dessa peça hoje pertencente ao Museu da Filadélfia. A obra original é constituída por dois painéis de vidros emoldurados em alumínio, em que a parte superior se contrapõe à inferior como a natureza feminina à masculina. Johns assumiu a tarefa de “traduzir” o hermético Duchamp e, dois dias antes da estreia de Walkaround Time (1968), quase desistiu, alegando que a estrutura iria desabar sobre os bailarinos.

    Cunningham não pararia de usar infláveis. No mesmo ano viu uns travesseiros do pop Andy Warhol, que virariam a instalação de nuvens prateadas do cenário de Rain Forest (1968). Aguns dos travesseiros ficavam sobre o palco. Outros, enchidos com hélio, flutuavam – e os bailarinos tiveram de aprender a técnica de lidar com eles sem perder a concentração nos movimentos.

    Outros cenários utilizados pela companhia de dança de Cunningham viraram obras de arte disputadas pelo mercado. Os painéis de Rauschenberg usados em Minutiae – e que eram transportados numa Kombi nas turnês pelos EUA – foram parar em Paris, comprados por um colecionador na Suíça. Cunningham, irônico, riu quando soube da transação. Não parou de experimentar até a sua morte. Anteontem, para azar da dança.

    http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1393522
    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2807200909.htm
    Coreógrafo deu liberdade para a arte
    RODRIGO PEDERNEIRAS
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    Merce Cunningham foi o nome que mudou tudo na dança no século passado. O coreógrafo foi o responsável por criar a ponte entre a dança moderna e a contemporânea, levando em frente, de uma maneira diferente, o que a bailarina Martha Graham (1894-1991) havia iniciado na primeira metade do século. Se Graham criou a técnica e estruturou um método didático para a dança moderna, trabalhando muito a partir da mitologia grega, Cunningham teve o mérito de ir além de uma metodologia e de permitir à dança uma liberdade muito maior, trombando de frente com regras e conceitos mais ou menos estabelecidos. Cunningham abriu as comportas para a liberdade na dança. Ele não via, por exemplo, a necessidade de se contar uma história a partir das coreografias, algo que perdurava desde o balé clássico. Para o coreógrafo, os movimentos não precisavam ter uma finalidade ou uma explicação. E experimentava de tudo. Foi provavelmente o criador de dança que mais ousou na história, levando a ela, inclusive, a possibilidade de explorar novas mídias. Entre outras coisas, conduziu elementos do vídeo para dentro das coreografias. Mas foi a parceria com o compositor John Cage (1912-1992), seu companheiro de vida e de trabalho, a responsável pela maior inovação na obra de Cunningham. Juntos, os dois levaram o silêncio para a dança e reviraram tudo para criar uma nova ordem. É possível dizer que hoje, na dança contemporânea, não exista ninguém que não tenha sido, de certa forma, influenciado por Merce Cunningham.

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