La unidad latinoamericana

o monumento
O monumento

Quando a corda aperta vemos quem é quem.

O golpe de estado em Honduras revela uma nova unidade latino-americana a se formar. Sorrateiramente, ela já se revelava na celebração da candidatura de Vargas Llosa, no brasileiríssimo aplauso às intervenções de Fernando Gabeira contra Severino Cavalcanti (embora ninguém fale muito do voto dele no Severino) no Congresso Nacional, na alegria pela paridade do real com o dólar e, sobretudo, pelo reconhecimento do Oscar aos filmes americanos feitos nesta parte do mundo.

Fazia tempo que eu não via tanta gente bater no peito e se dizer latino-americano por aqui. Mensagens na internet, via blogs, twitter etc. reiteram a delícia de ser quem é. Latinos se unem não mais no conglomerado de frentes nacionais de libertação, mas em nome de gente como eles aqui e ali. Gente que usa a internet, viaja para a Europa e apóia ações dubein. É o lixo reciclável, as boas promoções de roupa, eletrodomésticos, o reconhecimento de profissionais nacionais no mercado de entretenimento cultural dos países centrais.

Ainda existem aqueles que reclamam da herança colonial ou da economia subdesenvolvida, mas a novidade é um novo tipo de latino-americanistas: que se solidariza com os golpistas, os aplaude e coloca poréns a quem se opõe de maneira frontal a qualquer golpe de estado em qualquer lugar do mundo. Afinal, não é bem assim.

O golpe é golpe, é verdade, mas não é bem assim. Colocam os presos políticos dentro dos estádios, mas não é bem assim. Depõem candidatos eleitos legitimamente, mas não é bem assim. Afinal, mesmo que eles tenham passado por cima de todas as regras democráticas, eles afirmam: “você mesmo nunca votaria nesses caras”. O engraçado é que possivelmente eu não votasse mesmo, mas não é por isso que enquanto leio isso, escuto ao longe a voz de uma multidão a se aproximar gritando, fantasmas a clamar:

NAA ZIOO NAAA LIZZMOOO? PREEEESEENTE!

NAA ZIOO NAAA LIZZMOOO? PREEEESEENTE!

PA-TRIA-Y-LI-BER-TAD

Todos os golpistas de todos os tempos na mesma voz. Agora uma voz de quem já morreu.

O engraçado é que o clamor vem dessa vez sem apoio do departamento de estado americano, sem encanto pelas benesses do primeiro mundo. Vem de um grupo que não aceita essa cafonália atrasada. Que acha que se for para tirar alguém em quem “nem eu e nem você votaríamos”, tudo bem. Golpe de estado e ditadura no dos outros é refresco.

Se for para apoiar, que seja gente como eles, moderna, civilizada, globalizada (aqui o sentido pode ser qualquer um). Quando alguém lhes pergunta, “e a instituição, meu querido, e as decisões soberanas do eleitor em Honduras, na Bolívia, no Equador?”, aparece a indignação com essas figuras que nem sabem quem é o Seu Jorge. “Gente como esse Zelaya, com aquele chapelão a nos fazer passar vergonha, como se o lado austral do continente fosse composto por uma série de festas de peão. Que horrrroorrrr!”.

Ao contrário da antiga unidade, que tinha raízes no catolicismo gauchista, essa nova é mais moderna, mais bem vestida e mais cheia de pompa. É a unidade do topo da pirâmide latino-americana. Assim, não se dá a partir da união entre trabalhadores, camponeses e intelectuais; mas é renovada, pela aliança da burguesia com as camadas médias e os colunistas (ou quinta-colunistas). Eles se identificam pelo uso de iPods, por conhecer pessoalmente uma porção de gente que nós vemos na tevê, por sacar o que está rolando por aí, por freqüentar os lugares que os astros da cultura globe trotter freqüentam.

O Lauro e o André Maleronka que me falaram desses tipos. Meio assustado, vi que o apoio aos golpistas era maior que eu imaginava. A princípio, pensei que ele estava restrito ao tradicional pensamento autoritário de tipo latino-americano: aqueles que acham que a vontade popular não precisa ser obedecida, que o povo é burro e que para chegarmos a uma sociedade civilizada é preciso por o populacho na corrente. Mas não era só isso.

O apoio sorrateiro aos golpistas vinha de uma vergonha muito grande de ser antigolpista. Vergonha porque as força do contragolpe reconduziriam um chapeludo muito do cafona ao poder. Zelaya não era um dos deles, decidia-se que era a hora de pôr um fim naquele chapeludo mesmo.

Aí, como no Fora Sarney, pouco importa quem ocupará a cadeira, mas em saber que eles tiravam um que não era um deles – como o Gabeira, a Soninha, o Obama e tanta gente bacana. O problema não é de política, é de identidade. Como alguém pode apoiar um chapeludo, bigodudo que ficaria horrível em uma foto do lado do Obama?

Sem muitos elementos, só me resta concluir que essa nova indignação é uma nova forma de celebrar padrões de consumo globalizados. Gente como a gente é gente que compra como a gente. Gente que compra mais que a gente, os patrões, são nossos ídolos. Por isso se protesta contra a barbaridade de Teerã e não contra a arbitrariedade latino-americana.

Democracia? Pouco importa em um caso ou em outro. O importante é entrar para o clube e para isso é preciso comprar, e, para comprar, é necessária a grana do chefe, as ideias do chefe.

8 comentários sobre “La unidad latinoamericana

  1. O mais triste é que essa Internacional Consumista não busca nenhuma transformação da sociedade ou algum direcionamento político. Tanto faz, o que importa é a identificação social.

  2. Uma coisa muito louca que eu vejo diariamente no meu trabalho como professor de ensino médio em uma escola particular de SP, e que tem a ver também com a questão do ódio ao Brasil, é como os adolescentes do eixo Leblon-Morumbi, como diz o Idelber Avelar, mimetizam de forma ridículamente explícita os seriados de TV a cabo. Parecem encarnações bizarras de personagens de programas como The OCs, Gossip Girl etc. Para quem tem mais de trinta, é a versão atual do babaquíssimo “Barrados no baile”. Eu tenho alunos que falam “português de legenda”, uma versão do idioma de Camões inventado pelas empresas que fazem a legenda dos filmes e seriados de TV a cabo. É uma turma impressionantemente – morbidamente, patologicamente – consumista, e incrivelmente a par de qualquer coisa mais séria. E são, evidentemente, desterrados, horrorizados com o que veem fora da TV e do condomínio fechado.

  3. O Ede outro dia me contou aqui no Guaciara que se sentou na mesa com um sujeito que falava “bem vindo ao meu estado de espírito”. Isso é bem legenda, diz aí.
    De resto, não se brinca com golpes de estado na América Latina. Todos nós sabemos o que isso nos custou.

  4. eu vou usar essa, “bem vindo ao meu estado de espírito”…
    só um detalhe: eu não sei muito bem qualé a do chapéu do Zelaya, mas ele faz parte da elite hondurenha, é grande fazendeiro… já li interpretações convincentes dizendo que a relação Zelaya-Chaves seria meramente circunstancial: que o primeiro se apoiou no segundo por se ver frágil em termos políticos, que não seria esse nem o seu perfil nem o seu projeto… mais uma ambiguidade para lidarmos…

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