SÃO PAULO UNDERGROUND

O Lauro me mandou um vídeo do SPU tocando em algum recanto da Europa e eu fiquei com um baita orgulho. Primeiro como amigo. São todos meus chapas, gente com quem eu converso sobre coisas da música, do mundo e da minha vida. Já escrevi sobre eles e em parceria com eles mais de uma, mais de duas vezes. Esse é o outro motivo para me gabar. Não sei por quê, eles sempre cometem a bondade de me incluir nas brincadeiras que inventam. No primeiro disco escrevi, li e cantei no disco deles. Em 2007 ,tive a honra de escrever um texto que foi para a capa do disco The principle of intrusive relationships.

Para celebrá-los, insiro o vídeo e o texto:

SÃO PAULO UNDERGROUND:

Conheciam-se desde a faculdade, mas voltaram a se encontrar há uns dois anos atrás. Um deles agora era sócio de uma faustosa escola particular do sudeste brasileiro e o outro fazia pesquisas, levantamento para o governo, coisas do gênero. Nunca trabalharam juntos, mas um sabia que o outro gostava de andar no meio do mato; por isso se procuraram. Por meio de amigos em comum um modo se encontraram e agora se falavam sempre.

O mais rico estava em um pequeno avião e seguia viagem para uma tribo no Xingu. A rota utilizada não era muito comum. Ele dava voltas para ver a natureza. Ouviu falar e quis ver um riacho que parecia secar todo o meio do ano e que em 1998 não secou. Isso parece ter embelezado a paisagem de uma maneira inacreditável. Infelizmente, não sei o nome do riacho e nem as mudanças que ele causou na por onde passa.

Quando o sujeito que seguia de Belo Horizonte para Perdões soube dessa história, lembrou de um riachinho que corria ao lado de sua casa durante a sua infância. Na época, já havia enchente por lá. Na cheia, o córrego ampliava as suas proporções e trazia a impressão de que todas as casas haviam sido construídas sobre a água.

A água escoava para a ribanceira, lavava o cheiro de morango e o sereno da vila embora. Embora causasse transtornos terríveis pros moradores, a cheia dava tranqüilidade aos dias. Suspendia um pouco da gravidade e deixava as casas numa calmaria, onde tudo flutuava, a contragosto, mas flutuava.

Enquanto lembrava disso, o homem que dirigia o carro lembrou que seu relógio estava parado. Ele precisava dar corda no aparelho e seguir viagem. Parou no acostamento e perguntou quanto marcavam os ponteiros do companheiro que estava no avião. O amigo lhe deu as horas do alto e ele adiantou seu relógio em um minuto, só pra garantir.

O outro professor, acabara de acertar o seu relógio, assim que entrou no avião. Perguntou o horário ao piloto, preparou o cronômetro e adiantou um minuto do seu relógio, só pra garantir. Há quase um ano atrás, assim que ganhou seu luxuosíssimo relógio, o piloto acertou os ponteiros a partir do serviço telefônico de consulta às horas. Por via das dúvidas, adiantou no múltiplo de cinco minutos seguinte, só pra garantir

A água que passaria no tal riacho tinha idade para estar em muitos horários diferentes. Já conhecia boa parte do país e esteve, inclusive, em uma das cheias no bairro da infância de um dos professores. Agora ela cumpria o seu destino e diluía-se no rio. Não tinha que garantir nada a ninguém e sabia que o melhor era deixar o tempo pra lá.

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