Michael Jackson, humano convertido em imagem

Antes de tudo uma imagem assimilável
Antes de tudo uma imagem assimilável

Muita gente se escandaliza com o fato do velório do Michael Jackson ter se tornado um grande evento midiático. Eu também não gostaria de ter um caixão de um amigo ou de um ente querido cercado de outdoors no estádio, uma multidão aflita, imagens icônicas, patrocinadores e coisas do tipo, mas  nada faz tanto sentido nesse caso quanto um espetáculo bizarro.

Gostava das músicas do garoto de Gary, Indiana, mas nunca fui grande fã, daqueles que sabem detalhes da carreira. Como qualquer um que cresceu na frente de uma TV nos anos 80, eu conheço de cabeça um carrilhão de músicas e imagens produzidas pelo ex-garoto-prodígio da Motown.

Também me maravilhava com sua excelência como bailarino e pela maneira como Michael continuava a trajetória de James Brown como um criador e ídolo solitário de uma cultura negra e essencialmente americana de música, dança e entretenimento.

Lembro como eu – garoto ou mais velho – achava legal os monstros do Thriller, as tretas do Bad ou os efeitos especiais do Black or White. Também fiquei todo interessado com a gravação do They don’t care about us no Brasil,  as negociações com o tráfico, o interesse pelo Brasil, por mais besta e pueril que tenha sido. Parecia que a gente se tornava parte do cenário dessa fábula bizarra e sem fim, que teve final trágico.

Por uma dessas conjunções astrais inexplicáveis, Michael Jackson morreu justamente um dia antes da defesa de mestrado do  Tiago Mesquita, meu irmão gêmeo e velho conhecido de todos os que lêem o Guaciara. A curiosidade aqui é porque as investigações que o Tiago apresentava sobre a transição de Andy Warhol da pintura tradicional para a feita em serigrafia em muito têm a ver com  a tragédia e a tristeza do que foi a carreira e a vida do Michael.

E é na criação desses ícones e na construção de um personagem também icônico ( e no caso do Michael, constantemente modificado) que moram as semelhanças dele com alguma das coisas faladas sobre o Andy Warhol. Michael Jackson não era pra ser conhecido em um show e nem na radiola. O esquema dele era se apresentar a mim e a você pela televisão, pelo cinema ou por coisa que o valha,  a linguagem era eletrônica e em 2D, mesmo nos shows. Era a imagem sem passagem do tempo e sem endereço.

Por isso assim como os habitantes da ilha de A invenção de Morel ou os ícones de Andy Warhol, já explicados aqui, aqui e aqui,  Michael há muito tempo se tornou uma série de fantasmas que povoavam TVs, telas de computador. Uma série de personagens de fantasia. Ele era seu próprio Walt Disney que fazia de si mesmo Mickey Mouse, O Rei Leão, Branca de Neve etc.

Ao vê-lo mais uma vez, agora pela Internet, fiquei convencido disso. Levado por essa curiosidade enlutada que carrega o mundo inteiro, eu fui assistir ao videoclipe do Thriller há uns dias atrás. É engraçado como o filme diz muito sobre um mundo novo, que nascia ali. Em diversos sentidos Michael Jackson é arauto desse tipo de linguagem.

Elementos de uma convivência mais desavergonhada dos astros da música pop com a publicidade estão lá. A letra da música é uma lista de chavões dos filmes de terror. Descreve uma serie de sensações que o espectador pode sentir ao assistir um filme de terror:

‘Cause this is thriller
Thriller night
And no one’s gonna save you
From the beast about to strike
You know it’s thriller
Thriller night
You’re fighting for your life
Inside a killer
Thriller tonight, yeah”

A canção, de certa forma, é uma versão atualizada para Hollywood das platitudes repetidas pelo Kraftwerk. Se o nascente hip hop se encantava, com as batidas e os sintetizadores dos alemães, o Michael usava a temática quase industrial (que já tinha voga também na Motown).

Mas se o Kraftwerk descrevia a calculadora de bolso de uma maneira que ela se tornava quase um objeto bizarro – como o futuro dos filmes vagabundos de ficção científica da década de 50 – , ainda mais no contexto de uma canção pop, Michael fazia questão de arrastar o ouvinte pro universo dele, levava milhões de pessoas pra uma fantasia cada vez mais demencial.

E é nessas que dá pra entender o seu fascínio com filmes de terror. O barato do Michael Jackson era produzir fantasias em série em que ele era o personagem principal. A sua vida era um blockbuster permanente. É por isso que ele vivia de acordo com a expectativa do público. Na minha opinião,é daí que vem a sua obsessão com as mudanças físicas.

Antes da morte do ídolo, o crítico de arte Rodrigo Naves falou desse projeto com muito mais clareza e propósito:

Todo o projeto de Michael Jackson (que inclui o sítio “Neverland” -Terra do Nunca-, onde ele criou uma realidade permeada pela eterna infância) pressupõe, segundo Naves, “um mundo convertido em imagem”. Só assim “se pode conceber o próprio rosto como algo sem espessura, sem nenhuma resistência, algo escaneável, transformado em informação sobre a qual se pode operar qualquer mudança”. (…)

“Assim como Cristo morreu pra salvar os cristãos e produz a imagética da Pietà na pintura, assim como Marat morreu pra salvar os revolucionários franceses e produz aquele quadro maravilhoso de David, Michael Jackson teria na face algo correspondente”.

Em um desses vários especiais exibidos pela TV, ele falava que um dos momentos mais duros de sua vida foi quando uma passageira de avião – ainda na época do Jackson Five – não o reconheceu como o pequeno e belo Michael da época de ABC ou da parceria dos irmãos com Diana Ross.

Ele já era um negão adolescente, grande e cheio de espinhas no rosto. Estava longe da imagem angelical amada pelo público americano. Além disso, sofria muito com a maneira como seu rosto perdia o valor (e o pai dele não o deixava esquecer disso). A partir daí o fera nunca mais deixou de mudar.

Seu rosto e seu corpo se tornou uma mercadoria pós industrial, em permanente alteração. Nesse sentido Michael também foi um arauto, um arauto de um tempo em que o corpo pode ser modificado de acordo com a necessidade da pessoa. A travestização do mundo.

Michael em certo limite virou só uma idéia de alteração constante. Não havia matéria sobre ele que não mostrasse as suas várias faces ao longo dos anos. O mundo precisava conviver com todas elas antes de encontrar com a atual.

Era sozinho uma série de personagens holográficos, que viviam no imaginário e nas telas de TV, do cinema e dos computadores. Assim como a música que sai do rádio, a imagem do Michael também ganhou uma etereidade. Por isso que o seu enterro parece uma coisa tão impessoal, para a maior parte das pessoas é muito mais parecido com a hipotética falência da Disneyworld (ou da GM) do que com um funeral de uma pessoa querida.

Michael era importante enquanto entidade imaterial e pouco importava às pessoas. Sua vida era contada como um enredo de um filme esquisito. Era como se fosse mesmo um fantasma que aparecia de quando em quando para um culto assombroso de imagens.

26 comentários sobre “Michael Jackson, humano convertido em imagem

  1. Michael Jackson era excepcional compositor, cantor e dançarino. Foi criado na Motown que já trazia no DNA o conceito de crossover bem formatado. Era necessário chegar a uma platéia branca, ser aborvido pelo maistream, ser assimilado, mas ao tempo conservar a energia, a sexualidade, o sentimento do rhytm and blues. A Motown conseguiu isto e Michael Jackson, seu filho legítimo, também. Basta escutar uma obra-prima como aquele album “off the wall” para perceber como mesmo na eminência da massificação, a música continuava poderosa, James Brown e Smokey Robinson continuavam ali nos movimentos e na voz. Pra mim a trajetória auto-destrutiva do Michael Jackson lembra muito a do Elvis Presley. Dois artistas absurdamente talentosos que nunca tiveram os recursos necessários para lidar com as consequências do seu sucesso e da sua influência. Se eu pudesse fazer sua lápide escreveria só Michael Jackson, americano e mais nada. Howard Hughes, Elvis, Michael Jackson, caras assim só poderiam ter nascido lá.

  2. Lauro, adorei o texto. Tem várias relações que eu nunca havia imaginado e me ensinaram muito, a começar pela relação do Warhol com os personagens da Invenção de Morel, mas também, e sobretudo, pela proximidade que você encontra entre “Pocket Calculator” do Kraftwerk e “Thriller” do Michael Jackson. Aprendi mesmo.
    Depois, nos comentários, o Rodrigo ainda me lembra da proximidade do Jackson com figuras excentricas como o Elvis e o Howard Hughes. Muito bom. São essas conversas que me dão alegria de participar do blog.

  3. Lindão, lorose!

    Rodrigo, não estou certo se os declínios de MJ e Elvis são compatíveis, mas certamente MJ teve os maiores recursos de marketing do universo infinito sem fim êêê mundão! Mas a pergunta é: que relação você vê entre MJ e Smokey Robinson?

    Lauro, sobre o papo da FLIP: concordo com o Jay e concordo com voce AO MESMO tempo. 😉

  4. Acho que MJ não teve os maiores recursos, ele criou isso. Ele criou o que a indústria do POP ainda é hoje (mas tá acabando rsrsr) Isso criou as oportunidades e também corroeu o sujeito como ser humano. Imagina o quanto difícil deveria ser michael jackson. Um inferno!

  5. “Bob Marley morreu
    porque além de negro era judeu
    Michael Jackson ainda resiste
    porque além de branco ficou triste”
    Talvez o Michael já fosse triste, de qualquer forma concordo com o Gil, em genero, numero e grau. Mas fiquei muito emocionado de assistir, numa TV pirata, Stevie Wonder tocar e cantar “I never dreamed you’d leave in summer” na festa-funeral

  6. Ok, Guilhim, ele concentrou muitas fichas mesmo.

    E eu realmente acho que a vida dele foi um horror. Um freak, assexuado, com síndrome de Peter Pan, sem liberdade, etc. Mas ninguem nunca se importou muito com a “pessoa ali dentro”, ne’?

    Vida boa teve o Quincy. Cara normal. Foi de Natasha Kinsky pra cima! 😉

  7. Ceará, aquele timbre de voz em falseto era uma especialidade da Motown e funciona nem num tipo de rhytm and blues menos cru e visceral que o da Stax por exemplo. O Eddie Kendricks dos Tempatations também cantava assim. Além disso, o Michael Jackson compunha seu próprio material, algo não muito comum entre soul singers. Ele não era um letrista tão bom quanto o Smokey ,mas na história da música pop quantos foram?

  8. Smokey escreveu um dos versos mais belos da música popular americana: my smile is the
    make up I wear since my break up with you”. Michael Jackson não tinha folego pra tanto mas compôs coisas excelentes também.

  9. Valeu pela atenção, Rodrigo. Sou fanzoca do Smokey, e vejo o Jacko muito aquém dele. Hoje ouvi umas coisas dele, da fase irrelevante (1991-2004). Ai’ veio ele em “Jam”, de 1991, muito fraco, totalmente desconectado da realidade dele, só “jogando pra galera”:

    “(…)
    I have to find my peace cuz
    No one seems to let me be
    False prophets cry of doom
    What are the possibilities
    I told my brother
    There’ll be problems,
    Times and tears for fears,
    We must live each day
    Like it’s the last”

    Viram a do Sieber? -> http://talktohimselfshow.zip.net/images/jackoautopsy.jpg

    E voltando a FLIP – Guarufolia na kbeza:
    http://www.apostos.com/wagnerebeethoven/

    🙂

  10. é Ceará, o que me interessa do Michael Jackson vai até Thriller, nem Bad eu acho muita graça.

  11. Lauro, o texto tá brilhante. Rodrigo, sua capacidade de juntar os pedaços de uma história (ou das paralaxes históricas) e estabelecer correlações é de uma sensibilidade, cara… Eu sempre chapei mto com esse negócio de fantasmas, imagens no espelho, formas sem substância ou sombra… vem de assistir o “ano passado em Marienbad”, que vi muito novo mesmo… Mas o que eu ia dizer é que, já faz uns meses, disse a um fã da Madonna que, se ela fosse esperta de verdade, já teria feito poses e caras e bocas e vozes para alimentar infinitamente os sucessivos tempos finitos. Inda poderia citar outros que fazem isso muito bem, como o Videoshow da Globo. E uma nota final: acho que foram realizados vários funerais do MJ: fui a uma festinha só de músicas dele… meio estranho…

  12. pô Daniel, valeu cara… Laurão, se interessar eu gostaria de escrever um post focando mais no contexto cultural e social da obra do MIchael Jackson como artista, já que estes aspectos da personalidade dele, inclusive tudo que existe de fantasmagórico, voce já cobriu tão bem no seu texto.

  13. Oi gente, que ótimo que a caixa de comentários esteja tão animada. Também concordo com Rodrigo, acho que depois do Thriller, o Michael gravou uma ou outra música que o valha e caiu num ostracismo bravo mesmo.
    Pois é Daniel, o Marienbad, inclusive, é uma versão da Invenção de Morel do Bioy Casares. Incrível como essa realidade de se perpetuar em imagem é hoje cada vez mais próxima da gente.
    A festa funeral reforçou essa coisa estranha de americano de transformar qualquer evento em palco de apresentação. Tem um texto do Lorenzo Mammi sobre o João Gilberto em que ele fala sobre isso. Eu acho meio bizarro, pra ser sincero. Vi os melhores momentos na TV depois e achei o Stevie Wonder comovente tb, assim como dei uma choradinha ao ver a filhinha dele. Foi a única que pareceu tratar ele como gente.

    **Rodrigo, saiba que as portas do Guaci estão abertas pra você escrever o que quiser. Os três aqui do blog adoram seus textos. Assim que o texto estiver pronto, mande pra cá que eu publico no ato.

    E valeu pela participação de todos.

  14. O bad é o melhor album de Synthpop que eu ja ouvi na minha vida.Alem da perfeita dosagem entre um MS-20 daqui e uma TB-808 dali e todos os timbres que marcaram época, sintetizadores cabreríssimos.O groove, as melodias, a textura sonora, hoje eu escuto e é como se fosse tudo um sonho.extremamente futurista e contagiante.

  15. Eu também chorei com a filha do cara falando. Ja’ os irmãos do MJ ao redor dela me deram nojo.

  16. Zé, achei muito legal isso que você disse. Não lembro mais do disco e quero escutá-lo de novo. O que me interessou, sobretudo, foi a sua associação do Jackson com um nicho da música sintética. Queria saber se você, que também é músico, vê alguma relação entre o raciocínio do lauro sobre o Kraftwerk e o Michael e esse seu juízo sobre a produção Synthpop do Michael Jackson.

  17. A diferença entre um ídolo americano internacionalmente conhecido e um ídolo brasileiro internacionalmente conhecido:
    O americano é empenhado,perfeccionista e segue procedimentos caros aos travestis para manter e se aproximar de uma imagem que ele faz da juventude. O brasileiro engorda pra cacete, fuma, cai na gandaia e acaba no motel com os travestis.
    Porra, mas o Ronaldo fez três golaços hoje

  18. Nessa linha de raciocínio, dá pra dizer que a morte de MJ foi uma espécie de esgotamento somático, uma reação extrema do corpo forçado ao longo de cinco décadas a buscar a bidimensionalidade e a textura impecável da imagem impressa (ou transmitida). Ou será que dizer isso é muito metafísico?

  19. Acho que não Diego, para mim o seu raciocínio faz todo sentido. Embora ele tenha morrido em decorrência de uma dose exagerada de opiáceos — que ele tomava por conta de uma dor nas costas extenuante. Mas a carne cobra um preço caro pelo fausto de se converter um corpo em algo fora do tempo, como se ele fosse um reflexo que ficou no espelho.

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