Alan e Richard Bishop na TV

(com Tiago Mesquita)

Sun City Girls - Richard Bishop, Charles Gosher e Alan Bishop
Sun City Girls - Richard Bishop, Charles Gosher e Alan Bishop

Hoje de manhã, o Arthur nos passou uma ótima entrevista do Ian Sveonious (ex- Make Up e Nation of Ulysses) com o Jello Biafra, do Dead Kennedys. A conversa era só mais um episódio do Soft Focus, programa que o Sveonius entrevista personagens-chave do que já foi chamado de underground.

A atração transmitida pela VBS.TV é uma das melhores coisas sobre o rock e música pop recente, o que é bastante melancólico. Afinal, trata sobretudo da ideia da música popular não coorporativa  e de seu fim. É quase uma memória ao mesmo tempo engraçada e amarga. Falam muito mal do Nirvana e do grunge e sobretudo do rótulo besta do “rock alternativo”.

Vem de um dos sujeitos que esteve a frente de um dos grupos que levou mais a sério a música popular como algo consequente e preocupado com o mundo e também uma das bandas mais bem-humoradas do rock: o Nation of Ulisses.

A banda trabalhava quase como um combo de agit prop  teatral. No som, o espaço entre as notas e a explosão vinha do freejazz, a energia e a gritaria, do hardcore.

Pelo Soft Focus já passou gente muito importante pra nós: Mark. E Smith, Genesis P- Orridge, Shaun Ryder, Terry Hall, Will Oldham, Ian MacKaye, Stevie Albini, Stephen Malkmus, Mike Watt e mais uma cacetada de músicos que ao longo dos  anos 80 e 90 tinham muita coisa a dizer sobre o mundo. Ainda têm, como dá pra ver pelas entrevistas.

Já tínhamos assistido o Soft Focus na VBS algumas vezes e garantimos: a nova temporada está muito boa. A abertura é com os grandes irmãos Alan e Richard Bishop, que juntos com o falecido baterista Charles Goucher, formavam o explosivo Sun City Girls.

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

A banda é importantíssima e pelo que escutamos aqui e ali ajudou a moldar algumas cenas do underground americano. Hoje, por exemplo, essa espécie de adoção de um ponto de vista não-ocidental do rock, que percebe a música americana como o exótico, como um artefato de turismo, aparece em grupos melhores e outros piores.

Os integrantes do Sun City Girls ainda hoje têm uma compreensão completamente diferente sobre o que se trata a música pop. Conhecedores profundos da cultura americana, eles rodaram a Ásia e a Oceania pra tentar desamericanizar o rock americano.

O esforço construiu uma estética violentamente anti-ocidental, como se alguém tentasse deslegitimar o que toca nas rádios do mundo de americanos e europeus. O mergulho no oriente faz com que a banda pense a música comercial e a cultura de disco, nascida nos EUA,  como um  material antropológico.

Na entrevista, entre os elogios ao cigarro e piadas com Barack Obama (“Iraq Hussein Osama?”, como eles dizem), uma das coisas legais é a revolta deles cotra a padronização cultural causada pela globalização.  Contra o desejo de se ocidentalizar. Reproduzo de memória o que o Richard Bishop, que também é um guitarrista impressionante, fala ao final da entrevista: “As pessoas deviam não ouvir a Voz da América e aproveitar mais as músicas feitas no seu país”.

Esse trabalho de compôr a partir de um material fora do repertório comum das rádios ocidentais continua no trabalho solo do guitarrista Sir Richard Bishop, no Alvarius B – projeto solo de Alan – e no Brothers Unconnected – o duo dos irmãos.

É uma relação que remete ao esforço de parte da arte de todo o século 20. Passa pela pintura de Gauguin e pela estética musical de John Cage. Se o Tahiti era o paraíso de Gauguin as ilhas da Indonésia são algo misterioso , violento e sedutor para os SCG.

O cantor Phil Minton me contou que sua curiosidade por usos não convencionais da voz tinham algo a ver com uma ausência em sua herança puritana. Ao se estabelecer entre os anglo saxões, os protestantes proíbiram todo adereço, todo o exceso. Formas de cantar como o yodelay galês passaram a ser malvistas e quase que desapareceram. Não por acaso, movimentos na arte contra as formas mais consagradas muitas vezes se voltaram para outras culturas, com outros padrões de racionalidade e de espiritualidade. Acho que essa busca contra a racionalização puritana é forte nos irmãos Bishop e em tudo o que eles fazem.

The Brothers Unconnected: Richard e Alan Bishop
The Brothers Unconnected: Richard e Alan Bishop

Além disso, eles são responsáveis por dois selos da maior importância: Abduction e o Sublime Frequencies. Em um lançam grupos  e músicos, em sua maioria americanos ou residentes nos Estados Unidos. São grupos esteticamente desafiadores que insistem em não ser institucionalizados não só por uma posição independente, mas por uma produção radical, que vê na música comum de rádio uma certa “desespiritualização”. No Sublime Frequencies eles lançam discos e filmes da música popular produzida em países da Ásia, da África e da Oceania.

Essa produção também é importante no projeto Bishop, eles nos ensinam a olhar com distância para nós mesmos e, mais que isso, procuram uma nova relação com a música ao mirarem em gente que a OTAN trata como inferior, gente que parece buscar um sentido mais profundo para a música.

Esse povo não está para brincadeira, quer mudar o mundo, ou melhor, destruí-lo.

Não sigo o conselho deles de evitar música americana e posto aqui algumas coisas que me fizeram um grande fã dessa banda desde a adolescência:

10 comentários sobre “Alan e Richard Bishop na TV

  1. Eu recomendo, do Soft Focus, alem das citadas, a entrevista com Andrew WK. Acreditem ou não, é bem interessante. Indo assistir a dos Bishop agora mesmo.

  2. RA, eu vi o tributo o charles gocher no lakeshore theater o ano passado, foi demais.

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