Severino Reloaded (with lasers y bigodón)

Rito de possessão satânica no Senado
Rito de possessão satânica no Senado

Em poucos momentos, a política consegue provocar um frenesi próximo do sexual ao eleitor que pouco acompanha o que acontece na agenda dos três poderes. O discurso do Gabeira (PV-RJ) contra o Severino Cavalcanti (PP-PE) foi um clássico momento em que os os pelos da nuca se arrepiaram e que os eleitores das praias do Leblon e da zona Oeste paulista se animaram em sair pra tomar um chope, encontrar pessoas e celebrar o fato de um “homem de bem” como eles estar no poder.

Para esse pessoal que pouco sabe o que é uma política pública, melhor que o homem de bem de sunguinha de crochê, só esse sujeito antenado e de aparência frágil – que cresceu politicamente mentindo que era guerrilheiro – golpeando um político do nordeste, um sujeito notório pelas práticas mais medonhas, antigas e abjetas de clientelismo e troca de favores.

Com o Severino, a classe média se sentiu vingada pelo Gabeira. Não porque o verde (?) propôs uma lei de desoneração tributária, uma medida que garantiria melhorias na Amazônia ou uma boa política de geração de emprego, mas por que ele mandou pra casa o sujeito que foi colocado na presidência da Câmara pela mesma coalizão que o apoiou para prefeito do Rio  (PPS, PSDB, PFL/DEM e PV). Inclusive com o voto dele, Gabeira.

Mesmo por que, pra essas pessoas, pouco importa o que é votado no Congresso, o que é sancionado ou vetado pelo presidente da República. Pra eles, são poucos os políticos que valem o voto. Ou como disse um taxista na quinta passada para mim: “Que pena a morte desse Michael Jackson, um homem tão bom morrendo jovem e esses caras no Senado aprontando…”. O Michael Jackson, o Senado ou o que for é só uma novela ruim que eles acompanham de vez em quando. É a substituição da política pelo moralismo típico dos folhetins da Globo, mesmo que mal disfarçado de consciência.

Em 2005, o último capítulo foi a expulsão do Severino da Câmara. O público vibrou e o assunto morreu. Era como se um exorcista, tivesse tirado o capeta de um corpo meio baqueado. Com o coisa-ruim expulso é só dar aleluia pro padre, pro pastor ou pro sacerdote e tudo fica bem. O discurso cacifou o Gabeira não mais só como o simpático herói dos maconheiros, mas como um sisudo símbolo da moralidade de Reinaldo Azevedo e companhia limitada. Digo, repito e recomendo o link: É a substituição da política pelo moralismo.

O inesquecível embate de Severino e Gabeira
O inesquecível embate de Severino e Gabeira

Passaram-se outros escândalos menos memoráveis que eu nem me lembro e nem tô afim de procurar a essa altura da madrugada.

O colapso do Congresso Nacional iria se repetir como farsa no escândalo Renan Calheiros (PMDB-AL, um celeiro de Gilbertos Braga e Manoels Carlos dos escândalos parlamentares) em 2007. A história começaria com o não-pagamento de pensões (com uma ajudinha de um lobista) e terminaria com capa na Playboy. Em meio a tudo isso, não faltaram manifestações de indignação pública e parlamentar e até porrada na porta do Senado.

Renanzinho escapou da cassação por pouco e ficou na moita, quietinho, destilando veneno até o começo desse ano. Mexeu seus pauzinhos e com apoio maciço de PMDB e DEM, elegeu o que havia de mais retrógrado no Brasil, o político e romancista (assim como Gabeira) José Sarney. O Senado desistiria das novelas e partiria para a produção de séries.

Desde então começou uma temporada de escândalos no Congresso. Vale tudo pra desestabilizar “o cara”, ainda mais depois que nem a crise econômica o pegou. O primeiro a chocar a população foi o castelo do deputado mineiro Edmar Moreira (ex DEM). Daí em diante era gritaria em tudo que é primeira página da imprensa. Muita gente que havia cansado antes e que depois passou a se dizer decepcionada e/ou desiludida inventou um movimento pra não reeleger ninguém. A idéia não colou, o pessoal já não lembra em quem vota, não ia ter o trabalho de saber quem é deputado e quem não é, é muito cansativo.

Mas as matérias deram uma força pra essa galera tão indignada. Tudo que era escândalo começou a apontar pra só um bigodão, aquele que enxerga marimbondos flamejantes. De acordo com essa estratégia a culpa de qualquer merda no Senado era do Sarney. Mas também não é sem razão, o ex-presidente já passeia por lá há tanto tempo. Dessas denúncias da imprensa nascia a indignação que ia conquistar o coração das celebridades e da juventude brasileira, o #forasarney.

Versão Reloaded (with lasers y bigodón)
Versão Reloaded (with lasers y bigodón)

Acho bem bom que o Sarney desapareça do cenário político brasileiro, mas sabe o que é dose? O dono do Maranhão virou o Severino Reloaded (with lasers y bigodón). Os internautas que pouco se interessam por política acharam um bode expiatório pra todos os males no legislativo brasileiro. Afinal ele também é um coronelzão malvado, desses que se aprende que não deve prestar já nas nossas novelinhas das oito.

Não é sem motivo que os inventores do movimento foram buscar apoio não dos sindicatos, da OAB, da ABI, dos movimentos sociais, das igrejas ou de lideranças políticas, mas de um ator americano de quinta que ficou famoso por fazer pegadinhas na MTV! E ainda levaram uma bronca do sujeito que sempre carrega marido da Demi Moore e pessoa mais seguida do twitter ao lado de seu nome.

Mais uma vez é um movimento absurdamente despolitizado, que não cobra nenhuma agenda positiva da política brasileira. Não tem plano de reforma; não tem vontade alguma de analisar mais profundamente a relação entre funcionários do Congresso, empresários, lobistas e senadores e nem um plano de constituir bases legais menos frouxas pra coibir o uso de verba pública para fins privados (que até o paladino da moral utilizou).

Nesse meio tempo, o dono do castelogate se deu bem . Em meio a gritos de #forasarney, o tal do Edmar ex-DEM foi absolvido nessa quarta.

Mas não tem problema, Sarney há-de sair. Sangue de Jesus tem poder. Resolver a política nacional pra essa turma é como extirpar um câncer, exorcizar um capeta ou tacar fogo em uma bruxa. Tudo naquele foguinho bem brando e on line, que só machuca um pouquinho e logo passa. O Cláudio Weber Abramo escreveu bem sobre isso em um texto entitulado Fica, Sarney:

O mais importante nessa história de Sarney sai-não-sai nada tem a ver com Sarney em si, mas com a pretensão de que, defenestrado o presidente da Casa, o assunto todo das nomeações secretas desapareça.

Essa tem sido a tática habitual usada pelos membros do Congresso: arranja-se uma punição (quanto mais branda, melhor) para um ou dois e o resto se escafede numa boa.

Assim, sob o ponto de vista da galera que paga a conta, quanto mais a situação se complicar em termos dessa politiquinha de quinta categoria a que se dedicam os senadores, e quanto mais impasses surgirem no que tange o presidente do Senado, melhor.”

O tal do forasarney no Congresso nada tem a ver com Sarney em si, mas com a pretensão de acabar com o assunto todo das nomeações secretas. Fora do Congresso, também pouco tem a ver com política. Em alguns momentos, é mais uma festinha, em outro um episódio de TV.

É por isso que o DEM –  até ontem fiador da eleição do Bigode na presidência no Senado – saiu correndo pra recomendar a sua licença. No caso do Severino foi a mesma coisa. Os tais Demo têm de agradar o público mais despolitizado, qualquer coisa eles colocam a culpa no PT. Mas político do DEM é assim mesmo, vota mal pra escolher presidente da Câmara, vota mal pra escolher presidente do Senado e vota mal pra escolher presidente da República. Depois vem algum jornalão ou revista semanal e puxa a orelha deles e eles se arrependem.

Depois, eles colocam um desses parlamentares da bancada da câmera de TV pra se indignar. Tipo o Pedro Simon (PMDB-RS), tão bravo pra apontar o seu dedo pela moralidade em Brasília e tão quietinho na hora de falar a respeito do controverso governo Yeda Crusius (que briga em âmbito federal com o Senado na coleção de denúncias de corrupção). Ou o animado Arthur Virgílio que de tão indignado se recusa até a se defender.

No final é só ficção. Dos congressistas ou dos revoltados internautas, não há compromisso político de fato. Boa parte da galera do #forasarney nem deve saber quem é o Agaciel Maia.  É mudar só um pouquinho, pra ficar tudo como está. É jogar pra galera…

25 comentários sobre “Severino Reloaded (with lasers y bigodón)

  1. porra!!!! vc escreveu tudo o que estava na minha cabeça, mas eu não tinha talento para escrever. Valeu.

  2. Lauro, meu caro, impressionante seu texto!
    Interessante como esse movimento histérico e de histeria acha que é só remover o trauma da vez (O recalcado) que as soluções aparecem prontas, como uma sessão de descarrego; uma catarse disfarçada de consciência social que duram 1 semana até a próxima temporada…e absolutamente sem agenda propositiva alguma;
    carnaval fora de época…Micarê dos bem nascidos.
    Muito legal mesmo seu texto.

  3. Pô fico feliz que vcs gostaram do texto. O central é que a cobertura de imprensa e os movimentos da Internet esvaziam a questão central que é elaborar políticas para coibir as práticas ilegais. É reforçar a institucionalidade e não sair babando pra um só senador ser caçado.

    O Nassif escreveu uma análise muito legal sobre o assunto hoje:

    http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/07/02/a-analise-politica-e-o-fator-dia-seguinte/

    http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/07/02/a-ameaca-de-sarney/

  4. sim, excelente texto, the best yet. Acho que merece atenção nisso tudo como o poder judiciário tem salvo conduto em suas caixas pretas conta qualquer incomôdo da imprensa. Mas não me espanta nenhum pouco. Como intérpretes autorizados da lei eles tem o poder de pegar qualquer avanço social conquistado e reduzir a pó. Tem o poder de anular qualquer ação contra a grande imprensa. Enquanto isso ninguém se escandaliza com o fato do STJ ter sancionado sexo com meninas menores de idade desde que seja pago, algo infinitamente mais grave e ptreocupante do que tudo isso que acontece no senado. Por que a imprensa não se escandaliza com isto? o legislativo brasileiro é um poço de mazelas e sem vergonhices, mas alguém disse muito bem que é um espelho fiel da sociedade brasileira. E essa sociedade não gosta do que vê.

  5. sim, excelente texto, the best yet. Acho que merece atenção nisso tudo como o poder judiciário tem salvo conduto em suas caixas pretas conta qualquer incomôdo da imprensa. Mas não me espanta nenhum pouco. Como intérpretes autorizados da lei eles tem o poder de pegar qualquer avanço social conquistado e reduzir a pó. Tem o poder de anular qualquer ação contra a grande imprensa. Enquanto isso ninguém se escandaliza com o fato do STJ ter sancionado sexo com meninas menores de idade desde que seja pago, algo infinitamente mais grave e ptreocupante do que tudo isso que acontece no senado. Por que a imprensa não se escandaliza com isto? o legislativo brasileiro é um poço de mazelas e sem vergonhices, mas alguém disse muito bem que é um espelho fiel da sociedade brasileira. E essa sociedade não gosta daquilo que vê.

  6. Mais análise e menos histeria:
    http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/07/02/o-fato-novo-na-crise-do-senado/
    Preocupa-me muito a falta de interesse no que é discutido no congresso nacional, o que tem sido proposto, quais leis têm tramitado (como a reforma eleitoral) e prevalecem entre o jornalismo, os comentaristas e as figuras midíaticas o disse-que-me-disse, o maniqueísmo e a preocupação com um mar de lama indistinto. Quem fortalece essas convicções é essa chamada bancada do holofote. Infelizmente, hoje em dia o deputado Fernando Gabeira é ponta de lança dessa bancada. Por isso, tem o elogio das revistas mais conservadoras, da juventude e de toda a família. Parece que abandonou suas interessantes plataformas, como a da legalização da maconha, em nome de uma participação na oposição mais conservadora. Hoje vota sistematicamente com o DEM, inclusive em votações importantes( votou no Severino), por exemplo.
    Outro fato importante nessa questão específica do Senado é que no governo e na oposição os partidos mais organizados votaram contra o Sarney. Quem comanda a grita, votou no Sarney.

  7. O veneno da madrugada do Laurão! Demais.
    Eu só acho que o Severino e o Sarney são figuras muito diferentes. Concordo com o lance da invenção de bodes expiatórios, mas vale lembrar também que o Sarney representa – ou na verdade ele é – uma amarração política muito mais profunda na história da política brasileira pós-ditadura (com raízes anteriores, craro). Então concordo com a análise, é muita cortina de fumaça e vácuo para FDP se promover ou satisfazer o sentimento cívico conservador; mas é também um tensionamento que expõe de forma mais significativa os grandes pactos políticos nacionais dos últimos vinte e cinco anos. Desse ponto de vista, a malhação do bigode tem alcance político maior.

  8. Também acho Jay, por isso que é reloaded (with lasers y bigodón). O Severino era um cara do chamado baixo clero da Câmara.
    O Sarney é ex-presidente da República. É um cara importante na história do país há no mínimo 30 anos.
    Controla uma bancada grande no Senado e representa vários interesses que surgiram ao longo da transição democrática e da Nova República.
    Mas o que eu quis tratar aqui é mais o que se trata esse movimento contra o Sarney. É além da política. É um jeito de individualizar uma crise de uma instituição em um sujeito que tem altos índices de rejeição desde 1986.

  9. o Sarney é o oportunista que larga o barco quando vê o naufrágio. É basicamente da mesma extração que o ACM, só que mais tolerante e diplomático. Serviram à ditadura e deram uma banana pra ela pra sobreviverem. Sarney nunca fez oposição a governo nenhum, seu DNA é o do adesista e oportunista. Está na política para ele e para sua família. O Estado onde ele manda há 40 anos paga um preço alto por sua autocracia. Uma das mais lastimáveis figuras do cenário político nacional, sem sombra de dúvida.

  10. sem sombra de dúvida. Além de ser um líder político que coordena a última oligarquia familiar no País. Uma oligarquia que domina (mesmo que no tapetão) o Estado mais miserável e injusto do país. Sarney é um lixo. Mas os faniquitos do forasarney despolitizam isso e só apontam pra lamentação inútil.

  11. Parabéns, Laurose! O texto era urgente!

    Outro ponto dessa histeria é que levantou a bola caída de pilantras como Lúcia Hipócrita, Miriam Torresmo, William Waaaaaaack, etc.

  12. Pois é, eu queria perguntar para o pessoal do fora sarney o que eles propõem para tornar o funcionamento da burocracia do senado mais transparente e eficaz. Até ontem eles se perguntavam na página deles se ocongresso nacional era necessário. Com um bando de democratas como esses estamos feitos

  13. Olha só, sem querer patologizar qualquer coisa (ou transformam em algo puramente maniqueista), mas lendo a notícia dos 26 que foram na candelária na tal manifestação, fiquei me perguntando: é sem sentido mesmo (e ai seria um caso realmente patológico)? Ou qual seria o sentido desse pessoal? Deve ter um? Faz sentido ficar gritando e assoprando cornetas durante 1 hora, com cartazes de fora Sarney? É o que isso? Vender disco? posar de bonitinho? Para quem?
    Tenho curiosidade em entender a cabeça desse pessoal…

  14. É a vida imitando a novelinha das oito…E não é de hoje…

  15. Cara, hoje eu li todos os textos do cara do rumbora sobre o Sarney. A campanha fora sarney é despolitizada sim, é sensacionalista sim, mas é sobretudo de uma burrice atroz. Todo mundo pede a renúncia do sarney, até aí eu estou de acordo, mas não pensa porque o que aconteceu no senado acontecee muito menos o que fazer depois. É gente que não consegue passar para a segunda página. Aliás, no caso do menino santacruz, acho que ele não lê nem bula de remédio

  16. Vilgi camaradas. Vocês estão levando a sério demais o movimento forasarnento. No entanto é legítimo não querer um lixo como ele lá. Demonizar quem está querendo que ele saia é repetir o erro do do psdb e do pt em nao fazer a reforma politica, so para se manter no poder. Esse debate inutil se repetirá sem fim até que isso aconteça.

  17. Gus, por isso que esses movimentos me dão tristeza cumpadi. A reforma eleitoral está agora no topo da agenda. A paralisia no senado atrasa a dita de novo.

  18. Então Gus, meu problema é esse mesmo, é um movimento que não se leva a sério e não quer resolver nada. Ontem o Nassif escreveu uma coisa interessante sobre isso sobre como os partidos e mesmo os movimentos socais e políticos perderam uma oportuidade de chegar com uma proposta de mudança de funcionamento no Congresso. Mas o que acontece é que nem situação, nem oposição têm nada formulado a respeito.

    Repito o que escrevi aí em cima: “O tal do forasarney no Congresso nada tem a ver com Sarney em si, mas com a pretensão de acabar com o assunto todo das nomeações secretas. Fora do Congresso, também pouco tem a ver com política. Em alguns momentos, é mais uma festinha, em outro um episódio de TV.”

  19. É uma novela com atores horríveis, roteiro péssimo. Mas o Brasil inteiro sofre com as consequencias disso. Temos que cobrar uma agenda de reformas da Dilma ou seja lá quem for a grossa ou canastrao que ocupara o palacio.

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