Cuidado com as ditaduras

O Brasil vive um momento de revisionismo histórico preocupante. Tentam relativizar a violência de uma ditadura que matou, torturou, pilhou, massacrou populações nativas e atrasou o país em pelo menos 100 anos. O pensamento autoritário continua forte aqui, apesar dos resultados eleitorais das últimas décadas nos darem a impressão contrária. Sempre tem alguém disposto a descer o cacete e quebrar as regras quando descobre que alguém pensa diferente.

não se fecha os olhos para a violência política
não se fecha os olhos para a violência política

Na década de oitenta, a Alemanha viveu uma discussão parecida. Na época, aguns intelectuais, sempre em nome da razoabilidade, quiseram relativizar a violência nazista. Em 1986, por exemplo, o historiador Ernst Nolte chegou ao descalabro de afirmar que “a história do “III Reich” teria sido amplamente escrita pelos vencedores, tendo se tornado um “mito negativo” (“Between Myth and Revisionism. The Third Reich in the Perspective of the1980s”, in Koch, H.W.,Aspects of the Third Reich, Londres, 1985).

Em um artigo de 1986 chamado Tendências apologéticas, o filósofo Jürgen Habermas comentou sobre o revisionismo e a violência de se pensar nos termos daqueles historiadores. Segundo o autor tratava-se de uma escalada neoconservadora. Uma onda de se salvar os “valores alemães”. Em nome da normalização de uma história traumática relativizavam a violência e o arbítrio.

Mutatis mutandis, aqui a absolvição dos carrascos e ideólogos da ditadura também visa uma espécie de normalização do processo político. O arbítrio da ditadura não viria do processo em si, mas de radicais de um lado e de outro. O país tentava ser  estável, apesar da oposição de esquerda. Isso gerou monstros. Nessa concepção o país é visto como um mar de tranquilidade, que por vezes tem sua paz ameaçada por baderneiros, que precisam ser calados. O problema não é a violência política em si, mas a baderna. O problema não é a ditadura, mas o que esses sádicos chama cinicamente de “excessos”.

Tal concepção tomou de assalto orgãos de comunicação e a cabeça de opositores mais conservadores ao governo federal. Cegos de raiva com o governo Lula, talvez por não ocuparem mais o aparato de estado, talvez não, resolveram culpar a esquerda (que até então, nunca havia estado no poder) por todos os dissabores da ditadura militar (ou como eles preferem, do regime forte, da revolução de 64). Deles viriam os “excessos”. Assim, todo mundo é democrata, até quando fecha o Congresso, prende líderes trabalistas, tortura, delata e mata.

Pois é, diante do golpe ocorrido em Honduras, acho bom esses revisionistas pensarem duas vezes antes de enaltecer as “qualidades democráticas” da ditadura, a defesa do estado ou o cinismo de quem fala em acabar com a democracia para salvar ela dela mesma. Honduras é um dos países mais pobres das Américas. Além da instabilidade democrática, eles vivem aterrorizados com Las Maras, grupos de deliquentes super violentos.

Um golpe na democracia além de todo o problema ético e de violência política e institucional irá piorar a vida dos irmãos latino-americanos drasticamente. Devemos nos opor a isso com energia.

Um governo eleito legitimamente foi golpeado. Joaquim elencou uma série de endereços em que nós podemos nos informar melhor sobre a violência política.  O Twitter dele também tem notícias atualizadas sobre o caso. Todos os democratas devem protestar contra isso e lembrar que não toleramos regimes de força ou de exceção. Não se trata de apoiar ou não sua orientação política, não se trata de se concordar com as suas políticas, trata-se antes de se respeitar a decisão soberana dos eleitores hondurenhos. Repito aqui a convocação feita ontem no saite 300:

O povo de Honduras não está só

Diversas articulações e movimentos sociais já iniciaram demonstrações de solidariedade ao povo de Honduras, frente ao golpe deste domingo. Para segunda-feira, estão convocadas manifestações em frente das embaixadas e consulados de Honduras em todo o mundo.

Confira aqui o endereço dos consulados em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília, e fique esperta/o pra saber o horário da manifestação nestas cidades (ou melhor, ajude a organizar!).

Coloquei o link aqui de alguns pronunciamentos e análises dos últimos dias lá em Honduras, que ajudam a entender o que se passa.

Também reproduzo aqui o chamado a ação dos movimentos sociais da ALBA (iniciativa de vários movimentos sociais, que no Brasil tem a participação da Via Campesina, Marcha Mundial das Mulheres e Jubileu Sul, entre outros), e uma tradução (livre e corrida) da nota da Aliança Social Continental.

A Aliança Social Continental rechaça o golpe de Estado contra o Presidente Manuel Zelaya em Honduras

O debate sobre a consulta ao povo hondurenho sobre a possibilidade de realizar uma assembléia constituinte que procura democratizar a institucionalidade de Honduras, foi resolvido da pior maneira pelas Forças Armadas desse país, em associação com outros poderes do Estado que temem a participação dos povos na gestão política e administrativa desse país: pela via da força e o uso das armas. Portanto, rejeitamos o golpe de Estado e denunciamos sua ilegitimidade.
O seqüestro do Presidente Manuel Zelaya, assim como a militarização que padece hoje a sociedade civil hondurenha, privada de energia elétrica e do serviço de comunicação, e a declaração de um toque de recolher às 16:00 horas, são fatos inaceitáveis, que demonstram qual é o tipo de democracia, qual é o respeito aos direitos humanos que professam os opositores ao Presidente em Honduras. Prova disso, é que os líderes sociais começaram a ser perseguidos. Neste momento, se desconhece o paradeiro de Carlos H. Reyes, reconhecido líder sindical que tinha inscrito sua candidatura independente à presidência. Exigimos que as Forças Armadas informem onde se encontra e garantam todos seus direitos civis e políticos.
A Aliança Social Continental reconhece o valor democrático da abertura que teve o Presidente Zelaya ao escutar a voz dos movimentos e redes sociais centro-americanos sobre as implicações do Acordo de Associação entre a União Européia e a América Central e ao encaminhar ao país em um atalho de democracia e integrar a ALBA
A comunidade internacional deve realizar com urgência as gestões para garantir o restabelecimento da institucionalidade democrática em Honduras. Deve ser garantido o direito do povo hondurenho a realizar pacificamente a consulta e a ter de volta, são e salvo, o Presidente Zelaya, a sua família e a toda sua equipe. Da mesma forma, deve ser garantida a inviolabilidade das delegações diplomáticas de todos os países presentes em Honduras.
Expressamos nossa total solidariedade com o povo hondurenho que, apesar da intimidação e ameaça das forças Armadas de seu país, mantém sua decisão de participar, pela primeira vez na sua história, de um processo de consulta democrática.
Convocamos às organizações sociais e democráticas de todo o continente a expressar seu mais enérgico rechaço a este golpe e a se mobilizar em apoio ao povo de Honduras.Aliança Social Continental

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Chamado Urgente dos Movimentos Sociais da ALBA

O povo de Honduras não está só!

Neste momento o povo de Honduras, e os povos da América Latina, estamos em uma batalha fundamental: evitar que se consuma o golpe de estado reacionário contra o presidente constitucional Manuel Zelaya Rosales, e o povo de Honduras.

A conspiração de políticos, militares, juízes, os meios de comunicação, com o apoio do governo dos Estados Unidos, querem reverter o passo dado pelo governo hondurenho ao integrar-se à ALBA, e evitar a convocatória que ia realizar-se nesse domingo (28 de junho) para aprofundar a democracia através de uma consulta popular, que possibilitaria a Reforma da Constituição.

O seqüestro do presidente constitucional é uma ação inaceitável para os povos da América Latina e do mundo, e está recebendo o rechaço inclusive da maioria dos governos, que desconhecem a decisão do grupo conspirador no Parlamento, de substituir o presidente de Honduras.

Desde os movimentos sociais que promovemos a ALBA, convocamos a mobilizar-nos desde agora, amanhã, e nos próximos dias, para que nenhum governo reconheça os títeres que as forças reacionárias querem ungir como ditadores, e para que se devolva o governo às suas autoridades legítimas. Que cesse a repressão contra o povo de Honduras e suas organizações. Que se aceite a livre decisão do povo hondurenho, expressada através da consulta popular.

Honduras não está só. Hoje existe um conjunto de países que estão formando uma alternativa bolivariana junto com os movimentos sociais, e tem uma comunidade internacional que rechaça o retorno das ditaduras.

Todos e Todas na Embaixada e Consulados de Honduras, amanhã nas ruas, mobilizados, com ações que construam coletivamente o Nunca Mais Latino americano às políticas fascistas, e o respeito às demandas dos povos.

Se mexerem com um, mexem com todos!

Movimentos Sociais da ALBA

10 comentários sobre “Cuidado com as ditaduras

  1. Esse discurso revisionista e pró-autoritário das direitas é muito amedrontador. Na greve da USp foi parecido. Aquela conversa de maioria silenciosa e tudo mais.

    A direita fecha os olhos pra violência política e tenta justificar um golpe e um crime de sequestro com base na birra ao Hugo Chavez. É muito louco. Já que o presidente hondurenho estava cometendo irregularidades, por que ele não passou por um processo de impeachment ou coisa que o valha?

    Esse recurso digno de Fernandinho Beira-Mar aplicado pelas forças militares Hondurenhas (com toda a classe da Escola das Américas) só mostra a necessidade do país passar por uma profunda reforma constitucional.

    Quanto ao revisionismo histórico da direita, acho que é hora de um grande esforço de resistência a essa defesa do autoritarismo. Um esforço de defesa da democracia na América Latina. O discurso pró ações militares e policiais e pelo fechamento de congressos e afastamento de presidentes é cada vez mais assustador.

  2. De novo, o atraso… O bolivarismo é atrasado, mas a direita voltar ao poder ressuscitando os anos de chumbo é banditismo jurássico e revoltante. Democracia já!

  3. A melhor foto é a que tem a seguinte legenda:

    Sali a protestar con mi camisa de Mortification soy Cristiano Protestante y como soy Cristiano apoyo al pueblo! Cristo Vive y que Viva el Pueblo!

  4. Não é exatamente o ponto de vista de um democrata radical. Esticar a corda não é impor uma transformação à força, aliás, a interpretação dele do golpe de 1964 não é exata. as reformas de base iam à votação no congresso e não era de nenhuma radicalidade. Se o president Zelaya cometeu alguma irregularidade, que abrissem um processo de impeachment com base nisso (o judiciário é contra ele). Não tentaram. Democracia é assim, o processo não pode ser a revelia.

  5. Sim,estão com um novo método antigo(oximoro necessário para exprimir-se diante da tática dos capitalistas de frearem o desenvolvimento humano social.Lembro da política de James Moonroe do “big stick”(grande cacete) que ele determinou para a AL.Irá haver derramamento de sangue.O único país que possui poderio militar(atômico e convencional são os EUA),portanto os outros não possuem poder letal de barganha.A CIA está por trás.A mídia hondurenha de todos os meios de comunicação está sendo corrompida financeiramente para apoiar o exército.Com Irã não funcionou,bem, aí são outros quinhentos

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