Jean Rouch: Uma oportunidade histórica não pode ser perdida

Cena de Le Dama d’Ambara, enchanter la mort
Cena de Le Dama d’Ambara, enchanter la mort

Acabei de voltar da exibição de Tourou et Bitti – os tambores de outrora e de O Dama de Ambara – encantar a morte. E saí ainda mais fascinado com a maneira como o cinema do Jean Rouch dá conta de tanta coisa ao filmar dois rituais, o primeiro no Niger e o segundo no Mali.

Não conheço nada de cinema e menos ainda de antropologia, mas a obra desse grande documentarista convida a gente pra uma série de descobertas. Ao vermos e escutarmos essas peças instigantes, saímos da sala querendo escutar mais, ver mais e entender melhor as sociedades que ele filma. 

Na abertura o curador da mostra, Mateus Araújo, disse que a obra de Rouch abarca tantas coisas que renderia um mutirão de  discussões de suas epistemologias, das maneiras como ele buscou entender as complexidades de vários povos usando o cinema. E isso deve motivar os colóquios internacionais para discutir o legado de Rouch no cinema, na antropologia e no pensamento, em SP (de 30/6 a 4/7, na Cinemateca) e no RJ (de 7 a 11/7, no Instituto Moreira Salles). 

Tudo parece refletir uma curiosidade e um encanto incessante de um sujeito que essencialmente se interessava pelo que acontecia ao seu redor e que, com bastante rigor teórico, parecia buscar a possibilidade de criar se questionando, renovando sua criação.

O que me chamou atenção em primeiro lugar nos dois filmes de hoje é que eles dão conta de uma musicalidade muito rica no Oeste da África, entendendo essas sonoridades (principalmente de tambores) como uma orquestração complexa de verdade. Uma organização de instrumentos musicais essencial para conduzir uma história nada linear e com muitos significados.  

O arranjo único dos instrumentos, com variações ilimitadas, é que apontam a direção às encenações e possessões vividas nas tribos do Mali e do Níger, respectivamente.

Os músicos de Tourou et Bitti
Os músicos de Tourou et Bitti

O diálogo dos tambores em Tourou et Bitti é uma das coisas de riqueza musical mais impressionante que eu já vi – sem exagero. É uma pequena obra prima (só dez minutos) da relação música e cinema, além do texto primoroso do narrador.

Os dois filmes dessa noite apresentaram maneiras das pessoas entenderem o seu dia-a-dia e de se expressarem por meio de rituais que, apesar de ancestrais, se renovam sempre. São essencialmente contemporâneos, e por isso fazem sentido e criam sentido dos pontos de vista espiritual e mundano. É muito impressionante e muito bonito.

Como eu disse antes, o cinema do Jean Rouch merece mesmo uma ampla discussão que seria enriquecedora pra se pensar o cinema moderno, as representações sociais e pra se descobrir a África com olhares novos. É tudo muito instigante. Filmes que em sua realização já interferem na vida de quem realiza, de quem é filmado e de quem assiste. Verdadeiras aventuras – no sentido mais amplo dessa palavra –que fazem uma diferença danada na maneira que a gente enxerga o mundo. É necessariamente transformador e convida o espectador a repensar sua maneira de ver as coisas. 

É uma pena que nossa imprensa cultural não se interesse por uma discussão tão importante e que tem tantas ramificações no Cinema e nas Ciências Humanas. Acho que qualquer pessoa que gosta de ver as coisas do mundo vai aprender e renovar o seu olhar ao assistir a Mostra Jean Rouch. É muito bom sair de uma sala de cinema alimentado de curiosidade e se lamentando por não poder ver todos os 91 filmes que vão ser exibidos aqui na Sala Humberto Mauro, em BH.

Espero que o pessoal que está em SP aproveite essa última semana de festival. É uma oportunidade histórica. É a maior mostra de Jean Rouch que já feita fora da França. É histórico e imperdível. Apareçam lá e divulguem para todo mundo. Eu vou continuar acompanhando a mostra daqui até o dia 19 de julho. A mostra ainda vai pro Rio e pra Brasília.

E só pra terminar parabéns para o Mateus e para Ju, irmã dele, que estão fazendo um verdadeiro trabalho de heróis, uma aventura que merece muito ser aplaudida. E para quem não pode ver na Mostra, Tourou Et Bitti (sem legendas) tá logo embaixo do texto, devidamente surrupiado do YouTube.  

4 comentários sobre “Jean Rouch: Uma oportunidade histórica não pode ser perdida

  1. Lauro, estou de acordo com você, pois Jean Rouch vem de um cinema etnográfico onde há uma abertura ao outro e ao inesperado, com indescritível riqueza. É ele que, em colaboração com Edgar Morin, vem inaugurar o que será denominado de cinéma verité. Termo caro ao nosso ‘cinema de conversas’.

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