O tempo da ruína: Cao Guimarães na Galeria Nara Roesler

Em seu número mais recente a revista Dasartes publicou um texto que escrevi sobre a última exposição de Cao Guimarães na galeria Nara Roesler. Por dois motivos, fiquei muito satisfeito: Faz tempo que queria falar do trabalho do artista e pude participar dessa revista, que é a primeira publicação comercial de arte depois de mais de 15 anos sem nada do gênero no país.

O texto seguinte, é uma versão diferente da que está publicado. Lá fiz um texto mais enxuto e informativo, atendendo, inclusive, às exigências de espaço do veículo. Recomendo fortemente a publicação.

Em anexo, posto dois vídeos do artista que não estavam nessa exposição.  O vídeo “Da janela do meu quarto” (2004) é o trabalho de Guimarães que eu mais gosto. Acho a cena tocante, o modo que o artista capturou a imagem mais bonito ainda. É como se uma epopéia acontecesse em um canteiro.

O trecho de “Acidente” (2006) que posto é lindo, mas tenho razões pessoais para inserí-lo. A cidade onde acontece a ação é Heliodora. Parte importante da vida de muitos dos meus amigos aconteceu lá, aliás, a cidade mereceria muitos posts a respeito. A retratada do filme é uma quasitravesti chamada Buba, conhecida de muitos dos meus amigos e amiga de outros. Ela, como outros personagens da cidade, oscila entre o folclórico e o trágico. Como eu conheço pouco, acho melhor me calar agora, mas adoraria que meus amigos nos contassem mais. Por enquanto, fiquem com o filme. Antes, o ensaio.

Memória
"Memória"

Cao Guimarães:

A beira da estrada se empoeira, se enferruja, envelhece, acumulando tudo o que os carros largam sem tomar conhecimento.  É o preço de ter que falar sempre com tanta velocidade a quem passa tão rápido por lá.

"Campo cego"

 

As placas de trânsito que aparecem na série de fotografias Campo cego, de Cao Guimarães, e Carolina Cordeiro, são apagadas, corroídas pela ferrugem e cobertas de poeira. Pelo enquadramento, elas parecem ter sido apartadas da estrada e já não se comunicam com ninguém. Seus dizeres estão cobertos de sujeira. A poeira esconde o aviso e a placa ficou muda, isolada e sozinha.

Em algumas das fotografias, as crostas que cobrem as placas são riscadas por passantes que deixam seu recado veloz. De tão privados, os comentários parecem feitos para ninguém. Assim, aquele lugar tem algo de ruína. De um espaço que perdeu seu vínculo com o uso feito do caminho e agora só é a lembrança de um tempo que passou. Embora as placas ganhem agora uma presença pictórica, são quadros que ninguém vê.

Curiosamente, os dias que emolduram as placas de beira de estrada são promissores, cheios de sol, dias que correm normalmente enquanto largam partes do caminho à decadência e à entropia. Como se o crepúsculo daquelas placas subsistisse ao nascer de todos os dias.

O trabalho de Cao Guimarães sempre lidou com a presença residual das coisas. Em seus filmes, já trabalhou com formas de vida que dão de ombros às mudanças na história e fotografou objetos que não aceitam o desgaste que sofreram com o tempo. Aqui ele trata da presença residual de elementos que em geral tendemos a ignorar, mas não conseguimos. Algo que persiste e se torna estranho a percepção de quem sempre passa com pressa pelas coisas. O filme O fim do sem fim falava da vida de profissionais obsoletos. Como eles levavam a vida adiante e criavam fissuras em um ritmo ditado de fora. Agora, acho que o artista formula isso melhor ainda. Gosto muito mais desses trabalhos que do filme e que da coleção de fotos das Gambiarras. Acredito que elas, diferente das outras não são apenas a documentação de objetos que resistem ao desgaste e insistem em existências, que ainda precárias, são resistentes. Aqui o artista fala de existências paralelas que existem lado a lado. Cao Guimarães nos faz notar isso.

"Campo cego"

 

O artista trabalha sobre eventos que não presenciamos ou não damos atenção. Não é por acaso que na outra série de fotografias exposta na Nara Roesler, ele retratou espantalhos. Aqueles bonecos vivem em outra temporalidade. Parados, eles presenciam todo o tipo de movimentação que nós nem reparamos. O uso do som reforça essa espécie de vida secreta, que corre em paralelo às nossas experiências.

Esse olhar que vê para esquecer é o tema do vídeo Memória. Durante um percurso, o artista filma o vidro dianteiro e o espelho retrovisor ao mesmo tempo. Através do vidro vemos o que está diante do motorista, o espelho nos mostra o que já passou. O espectador fica entre essas duas coisas. Enquanto isso, pode ver sinais em grego e uma voz que conversa baixinho em uma língua que eu não sei identificar. Tudo é inapreensível e passa rápido.

O vídeo parece um contraponto às fotos de Campo cego. Nele, o artista registra o que se dilui na passagem do tempo, enquanto nas fotos o que permanece, apesar da decomposição. Em uns e no outro, o tempo passa rápido e parece não atender às nossas vontades.

Ao olhar para lugares que não reparamos muito bem, Cao Guimarães, no entanto, mostra que ao lado do ritmo do nosso dia-a-dia, a história aponta para outras direções, para lugares abertos a facão.

"Campo cego"

 

Filmes:

DA JANELA DO MEU QUARTO (2004)

 

ACIDENTE (2006)

aqui o artista comenta o filme e aqui uma crítica na contracampo


9 comentários sobre “O tempo da ruína: Cao Guimarães na Galeria Nara Roesler

  1. Tiago, vou te falar, que texto lindo cara. E essas cenas com Buba, que coisa porreta. Na mistura do texto com Heliodora eu acabei lembrando também de uma coisa impressionante que é o tanto de coisa que acontece quando nada acontece. Eu lembro de ficar acordado batendo papo com o Pedro e da barulhada no meio do mato na hora em que todo mundo dormia. Um barulho absurdo de mil coisas acontecendo e pra quem batia o oolho tava tudo parado. Acho que esse efeito de oxidação das placas tem muito a ver com isso. Maior orgulho viu fera.

  2. Aoba,

    gente esse video é demais mesmo, to impressionado, ainda não tinha visto e achei muito foda. A Buba é uma amigo meu de infância, aka Fernando, nessa época do video ele estava morando na rua pois vendeu sua ultima casinha por amor, e o bofe pegou a grana e vazou, ele tava sofrendo de amor. Nessa época ela dormia no jardim com sua bolsinha onde sempre tinha um 600tão de pinga e um creme níeva para não ressecar a cutis. Buba e Gordo seu irmão eram de uma familia rica de Heliodora, quando eu era criança eles tinham de tudo, quando os avós faleceram, eles ficaram com a herança e simplesmente fizeram igual o filme “Despedida em Las Vegas”, beberam toda a grana com amigos, bofes e qqer um q aparecesse por aqui. Depois de muito tempo numa clinica de recuperação Buba esta morando aqui em Heli novamente, e está “clean”, como ela mesmo me disse. Demais esse post Tiago !!! ta de parabéns !

  3. Pedro, que bonito isso que você contou. Bem que um dia você poderia nos mandar um texto sobre Heli. Seria muito bem vindo.
    Lúcio, muito obrigado, volte sempre e sinta-se em casa. Vou visitar o seu blog agora

  4. Tiago, vc parece ser bem tranquilo. Vou ler seu blogue assim que terminar esta mensagem. Em primeiro lugar, obrigada por me avisar que nao me xingaram! Desculpe entrar aqui, mas seu link estava lá, no Biscoito, numa mensagem prá mim. Como o Idelber bloqueou meu IP, respondo aqui. Não sou Adriana, o Idelber tem o poder de olhar os IPs e ver que não tenho nada a ver com ela. Por isso foi muito muito desonesto da parte dele insinuar que ele viu os IPs e insinuar que eram os mesmos. Não tenho motivo nenhum prá me esconder, meu e-mail está aí, leio muitos blogs, e participo um pouco do blog da Lola (escreva Lola). Eu adoro o Biscoito. Me divirto muito e aprendo também. E descubro outros blogues, como este seu, e outros. Agora só porque eu acho que o Biscoito é elitista ele tem um chilique e censura o meu IP? E só porque eu acho que nem tem coerência nenhuma o discurso dele sobre PIG e novo jornalismo (nos blogs) e esquerda e direita? Que suscetibilidade! Agora é muito feio ele ter mentido. Mentido sobre o meu IP e o do dessa tal de Adriana. Plagiar o Tulio V. também foi muito feio. Não foi o TV que mandou o Gravataí Merengue procurar psiquiatra? Aliás, eu também não xinguei ninguém! Sei lá, me parece um pouco de misoginia. Eu hein!
    Um abraço. Priscilla

  5. Davi, que bom que você gostou, fiquei muito feliz com isso. Você escutou O Grivo? acho que você ia gostar.

    Arthur, os filmes, ambos, são muito bonitos. é uma pena não existir na rede outros trechos do Acidente.

    Priscila, desculpe-me pela parte que me cabe e eu só queria apaziguar. Esses malentendidos de internet acabam ganhando uma dimensão maior que eles precisam ter, bem, espero não ter sido injusto. Visite-nos sempre que quiser e se divirta. Bem vinda

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