Parada Gay e o fosso da desigualdade

3,5 milhões de pessoas e nenhum gay assumido no Congresso?
3,5 milhões de pessoas e nenhum gay assumido no Congresso?

Para muita gente pode ser alienação ou deslumbre fácil. Mas para mim, os três milhões e meio de pessoas que marcharam ao som de house music ontem participaram de uma das mais importantes movimentações políticas e culturais do Brasil.O caráter político do evento sempre me chamou atenção por várias razões.

À primeira vista, a Parada Gay é só uma grande festa. Um carnaval fora de  época da noite gay de São Paulo. Em meio ao som alto e grave das caixas de som, desfilam uns fortões de sunga, travecas  altamente siliconadas, homens agarrando homens; mulheres agarrando mulheres; mulheres agarrando homens; todo mundo dançando a celebração de uma sexualidade livre e menos inibida.

Em primeiro lugar, a festa é um espaço muito democrático. Lá se valoriza um meio de vida, uma linguagem e várias belezas que são marginalizadas. A festa é aberta a todo mundo e o discurso – pelo menos pra quem vem de fora do universo gay, como eu – parece ser o de inclusão e ampliação do olhar das pessoas para uma realidade muito legal, criativa, cheia de coisas que melhorariam a nossa convivência. E como é uma festona, é tudo com um tom mais debochado, brincalhão.

No evento tem gente nova, velha, gays, héteros, pobre, rico, fantasiados, militantes, é um panorama legal das pessoas comprometida com agendas bastante variadas, que vão da pegação à militância. É uma festa essencialmente popular.

No meio da folia toda, existe uma das reivindicações sociais mais justas e, a princípio, mais óbvias que poderiam existir – o direito do indivíduo ter seus sentimentos e seus desejos respeitados. Nada mais justo. E por isso que o carnaval fora de época em torno dos carros alegóricos é tão importante.

Por incrível que pareça, e por mais que a redemocratização tenha avançado, o direito de gays e lésbicas de serem sinceros com seus sentimentos é ainda negado às pessoas em várias esferas sociais. E algumas vezes esse não vem à base de porrada. A coisa de beijar em público, pegar na mão, assumir que namora também é pouco aceita até mesmo entre os gays. Enquanto isso não se tornar normal, viveremos numa sociedade pouco democrática.

Na Internet, um monte de otários escreve sobre a falta de necessidade de um parada gay ou do caso de se promover uma parada hétero. O discurso além de ser ridículo é de uma rasteirice de dar dó. Afinal se assumir viado, se assumir lésbica ou se sentir mulher em um corpo de homem já é, em si – e mesmo em famílias mais liberais –, uma operação danada de difícil de se promover. A rejeição familiar é um componente, os amigos te encaram de maneira diferente…

A fé é outra esfera interessante. Como se sabe – apesar de alguns blogueiros dogmáticos terem dificuldades para entender que não vivemos nem no Estado do Utah e nem na Alemanha -, a crença religiosa no Brasil e em outros países da América Latina se dá de uma maneira muito mais heterodoxa e mais individual do que no hemisfério Norte ou nos países islâmicos.

Por lá, o engajamento em uma religião é uma adesão sem poréns a uma série de regras sociais muito bem traçadas e estabelecidas. Qualquer mudança de comportamento frente a esses parâmetros, é visto como uma corrupção da maneira certa de se viver. A insistência nesses hábitos implica necessariamente no rompimento com o modo de vida ditado pela religião.

No Brasil, a relação com a religião é menos unidirecional. Muitos gays são profundamente devotos ainda que a visão mais dogmática da igreja os exclua. Mesmo assim, um dos maiores inimigos da promoção de direitos aos gays se encontra nas igrejas católica e neopetencostais.  Por isso foi curiosa a participação de algumas novas igrejas ao longo da parada. Nem sei qual é a da dita cuja do link ao lado, mas é positivo que exista um espaço de fé menos excludente.

Agora, na situação brasileira, o mais triste é que esse julgamento privado e na microesfera social da família também extrapola em questões trabalhistas e sociais (como a adoção de filhos, o financiamento de uma casa pra um casal gay e por aí vai).

E é nesse enrosco que eu acho que a coisa complica. Mesmo depois de 13 anos de evento, a Parada Gay não conseguiu organizar seus participantes para eleger um político que seja. Apesar do combate à homofobia ser uma bandeira suprapartidária e contar com apoio até de políticos mais conservadores, a falta de uma bancada com gays trava todo o reacionarismo do Congresso Nacional, no Senado e na Câmara.

Pra se ter uma idéia, no início da gestão Serra, a continuidade da Parada Gay em São Paulo só foi garantida por causa da grita de hotéis e restaurantes que perderiam milhões com o fim do maior evento turístico de São Paulo.

Apesar do caráter de afirmação do mega evento, ele só se garantiu por causa de sua força turística e comercial. Pra que a festa se converta em uma aceitação social maior e em políticas públicas mais efetivas, a parada precisa extrapolar o caráter de festa.

Eu mesmo posso falar pouco, minha opinião é de um simpatizante que acredita que a causa gay seja uma das fronteiras mais importantes na conquista de direitos básicos de cidadania no Brasil. Apesar dos avanços em várias esferas institucionais e o crescimento dos movimentos GLBT, ainda parece estar longe a formação de uma legislação que dê conta da isonomia de direitos no Brasil. É só dar uma olhada melhor pra ver que a desigualdade brasileira vai além…

9 comentários sobre “Parada Gay e o fosso da desigualdade

  1. Laurão, texto massa demais. Seria uma grande contribuição brasileira à história dos movimentos sociais se algum dia, por pressão de uma festa loucamente descontraída como a Parada do Orgulho Gay, se resolvesse ampliar direitos a quem ainda é privado deles.

  2. Concordo com o Jay. Se eu não puder dançar (e beijar, trepar com quem eu quiser) essa não é minha revolução.

    Lá no início do Centro de Mídia Independente, havia muitos gays – sobretudo lésbicas. E eram gays bem politizados, casca grossa. Havia toda uma discussão contra o caráter abusivamente festivo da festa e pouco reinvidicativo. Eu até participeipor anos a fio da lista de discussão da organização da Parada. lembro quando o João Silvério trevisan brigou com a organização e de diversas agremiações minoritárias que o acompanharam. Mas sabe o curioso? NINGUÉM deles deixava de comparecer a festa. O espaço em si era muito mais importante do que as desavenças de estratégia etc, todo mundo queria ir lá pelo menos um dia ao ar livre manifestar sua sexualidade sem medo de apanhar.

    Teve outra história curiosa no CMI: um ativista, pobre, de Diadema, muito dedicado e estudioso, chegou a USP. Lá, pode se assumir gay abertamente, inclusive para nós. Ele um dia me confidenciou que tinha muito medo de como iríamos tratar ele, já que antes o tratávamos como hetero, falávamos de mulher, papos másculos com ele, se lá. E disse que tinha muito medo sobretudo de como algumaspessoas em especial o tratariam – incluindo eu. Naquela hora, eu vi que, por mais que você abdique de certa ideologia dominante, se autoproclame anticapitalista, antiautori†ário, participe inclusive das reinvidicações feministas e gays, não estamos livres de certos preconceitos. Pelo que e entendi, o fato de e ser casado na época, gostar de futebol, cerveja e mulher, ser um tanto agressivo, já o remetia ao que viu em casa – imcompreensão, repressão etc. Eu fiquei bem mal naquele dia.

    Passa-se um tempo, ele volta da Inglaterra, troca o nome por um feminino, e se torna mulher. Aquilo foi um lance impressionante na época e eu fiz questão de ser um dos primeiros a falar com ele sobre isso, oferecer a mão. São essas coisas que educam a mente e o coração.

    Essa letra do chumbawamba resume muito do que penso sobre o assunto: Beaware with the holy trinity – church state and law!

  3. De uma certa forma, podemos dizer que a Parada Gay é a última manifestação daquela ideia de que dá pra revolucionar o mundo colocando flores na boca dos canhões. Honestamente, acho que dá mesmo. Depois de ter sido coroado com uma flor, o canhão se tornou uma imagem ridícula. A discriminação está indo um pouco pelo mesmo caminho, vide o desespero dos neoconservadores americanos, tentando aparecer de qualquer jeito.

    Acho que a Parada Gay poderia virar um grande símbolo da igualdade humana se ela adotasse a expressão “diversidade sexual” no lugar de GLBT. Dando a ideia de que é de todos, todos podem e devem participar. Já é assim, claro, mas precisa estar na formulação da ideia, no nome, no conceito. Para que não seja um evento de ruptura no calendário, mas que, ao terminar, a diversidade e o respeito continuem no dia-a-dia das cidades. Enfim, é algo a se pensar.

    Agora, cá entre nós, São Paulo não tem jeito mesmo. Os números estão cada vez mais fantasiosos. 5 anos atrás, quando não cabia mais uma mosca na Paulista, os jornais estampavam: quase um milhão de pessoas na avenida! Depois subiu pra 2… 2,5… já estamos em 3 milhões e meio. É um milhão a mais, por exemplo, do que o mais que abarrotado Réveillon de Copacabana, sendo que a praia de Copacabana, mais calçadão, mais avenida, mais canteiro central, mais a outra calçada, mais Leme, é beeem maior do que a Paulista, e fica abarrotada. Enfim… estatística nunca foi o forte do Brasil.

  4. Diego, não sei quantos milhões, mas o aperto que vai da Paulista até a avenida Ipiranga é grande. Dito isto, têm duas coisas que eu gostaria de ressaltar:
    1) O fato do evento ter forma de festa me parece importante politicamente. Mais que isso, é forte. Antes, as celebrações gay eram coisa de reduto, comemorações a serem feitas na penumbra, enquanto ninguém olhava para você. Acho bonito as festas gay serem feitas a luz do dia e se tornarem o evento público mais frequentado da maior cidade do Brasil. Há poucos anos atrás, ir a uma festa gay era motivo de constrangimento e vergonha, aqueles lugares eram antros de perdição demonizados. Hoje, alguma coisa mudou. Por isso, embora concorde com o Diego quando ele fala que o tema da “diversidade sexual” aponte para um grau maior de universalidade, acho que o fato da sociedade ser convidada a participar de uma parada gay seja um ato politicamente agressivo e eficaz.
    2) Fico muito feliz com a participação cada vez maior de gente de meios sociais diferentes na cidade. São Paulo tem uma vocação danada para a segregação. É comum vermos textos sobre festas e bares da cidade que exaltam o aspecto exclusivista. Assim, o sucesso da parada gay poderia ser também um modelo de uma convivência menos guetificada na cidade. Mas isso é outra história.

  5. Laurão faltou uma coisa no texto, fundamental aliás: um imbecil soltou uma bomba caseira, do alto deu prédio, numa sacola, no largo arouche, quando tava escurecendo e feriu quase trinta pessoas. Cara vi uma coberura bem rápida e superficial da mídia…sintomático.

  6. Oi Bugrão bom que vc colocou isso aqui. Na verdade rolaram vários incidentes antes, durante e depois da Parada:

    http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/6_77_73085.shtml
    http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/6_79_73075.shtml
    http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/11_101_73071.shtml

    Muita coisa ruim rolou. O que não tira os méritos do evento.De qualquer forma, pelo que eu li por aí, como qualquer movimento político a Parada Gay carrega uma série de contradições em sua condução. Muita gente que a excessiva espetacularização e o potencial turístico do evento encheram a Parada de héteros. E o espaço gay tem se reduzido ao longo dos anos. Muitos reclamam que os gays podem se tornar gueto em sua própria Parada, o que seria uma consequência muito triste pra um movimento tão importante.

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