Universidade, pesquisa e desenvolvimento

A ideia de que as universidades públicas brasileiras são mausoléus que abrigam servidores públicos (administrativos e docentes) indolentes, inúteis e reclamões – gozam do insuperável privilégio de uma carreira garantida no funcionalismo, aposentadoria integral e o cacete, mas ainda assim vivem pedindo um upgrade na pensão que recebem da Viúva – são mais uma manifestação daquelas estruturas mentais que, na maior parte do tempo (pelo menos depois da democratização do país), permanecem recalcadas até que um fato – muitas vezes envolvendo homens fardados – as tragam de novo à tona. Outro exemplo dessas manifestações são as ideias: “a distribuição de renda prejudica a meritocracia” ou “um sistema de cotas destroi a excelência”.

Assim como essas duas últimas alucinações, a concepção da universidade como um cemitério científico e intelectual assombrado por servidores fantasmas e professores incompetentes é desmentida pelos fatos. Pesquisa da Prospectiva Consultoria, divulgada parcialmente na edição de fim de semana do jornal Valor Econômico (para assinantes), mostra que a produtividade das universidades públicas brasileiras, estaduais e federais, medida pela quantidade de pedidos de patentes junto ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual), supera a do setor empresarial. Em suma, as universidades brasileiras têm sido, nos últimos anos, as principais responsáveis pela inovação tecnológica e científica no país. Para se ter uma ideia da importância do fato, entre as empresas que contribuem para a inovação em ciência e tecnologia no país, estão gigantes mundiais como Petrobras e Vale.

O resultado é reflexo, claro, do aumento de recursos destinados às universidades e a transformações na lei de patentes que, permitindo que os pesquisadores responsáveis retenham parte dos direitos, estimulam sem dúvida a pesquisa. Vale reforçar que esse indicador sinaliza algo bem diferente das tradicionais avaliações de produtividade das universidades segundo a produção de dissertações e teses. No caso de patentes, é possível medir a contribuição real, direta, das universidades para o desenvolvimento do país. (A área mais produtiva, segundo a pesquisa, é a de saúde).

(Vale uma ressalva, em nome de meus colegas da FFLCH-USP e do IFCH-UNICAMP: esse tipo de indicador é inútil nas nossas áreas, e seria uma perversão se fosse generalizado como critério para financiamento.)

Deposito de pedidos de patente por ano na USP (fonte: Agência USP de inovação)
Deposito de pedidos de patente por ano na USP (fonte: Agência USP de inovação)

E – o que é ainda mais irônico, dados os acontecimentos dos últimos dias – no topo da lista de universidades que mais inovam estão duas universidades estaduais paulistas, Unicamp e USP. Assim, o governador deveria ter mais cuidado com a forma como lida com as reivindicações dos professores, funcionários e alunos. Como informou em carta à Folha de São Paulo a professora Marlene Suano, do departamento de história da FFLCH-USP, os professores acumulam perdas salarias de “42% em relação ao que eram em 1989”.

Professor, cientista, pesquisador, etc., são tipos curiosos, mesmo. Há uma parcela profunda de “vocação” na condução de sua vida profissional, que os faz enfrentar as dificuldades (salas lotadas, turmas enormes, falta de financiamento, burocracia medonha que impede muitas vezes projetos de pesquisa deslancharem) em nome de suas escolhas profissionais. E, como sabem os que estão na universidade há algum tempo, estão longe de viverem ou querem viver como nababos. Mas pagam contas, também.

8 comentários sobre “Universidade, pesquisa e desenvolvimento

  1. O absurdo é como a coisa é tratada na imprensa. Enquanto o salário mínimo teve aumento real desde o governo Lula (http://www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2009/01/30/materia.2009-01-30.6410153935/view), nas universidades públicas houve achatamento.

    Os gestores “competentes” do PSDB desvalorizam o setor público, estimulam a falência expontânea da inovação tecnológica afundando salários dos professores. É muita submissão ao setor privado.

  2. A chamada de capa do Valor:

    Universidade inova mais que empresa

    As universidades ultrapassaram as empresas e hoje fazem a maioria dos pedidos de patent es para novos produtos no Brasil. Entre 2001 e 2008, as maiores universidades do país protocolaram 1.359 solicitações junto ao INPI, superando os 933 pedidos das empresas. O resultado contraria a percepção de que a academia não transforma conhecimento em produto. Os dados são de um estudo da Prospectiva Consultoria, que catalogou os pedidos de dez empresas nacionais e dez universidades. Segundo Ricardo Sennes, da Prospectiva, o que explica a guinada das universidades é o fato de o governo ter aumentado o volume de recursos para a academia e o novo arcabouço jurídico permitir que o pesquisador receba parte dos royalties. (págs. 1 e A4)

  3. Inovação é quem vai ser ministro da educação do Serra: Paulo Renato, essa jovem promessa!

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