Ele só quer ser feliz

1 – Em primeiro lugar, a torcida do Flamengo é impressionante. Eu fiquei emocionado com a comemoração do primeiro gol do Adriano no Campeonato Brasileiro. Coisa linda, ainda mais se considerarmos a história do Imperador. Infelizmente, não dá pra assistir esse vídeo aqui no blog. Ou vocês clicam na telinha aí em cima ou no link aqui do lado.

2 – O Rap da Felicidade, do Cidinho e Doca, deve ser uma das músicas mais importantes dos últimos tempos o Brasil né? A dupla na verdade merece um post a parte. Compuseram muita canções marcantes na década passada. Dois baita artistas. Mas de volta ao rap,  é  impressionante como a letra toca as pessoas em vários casos e como o refrão ganha força em casos como esse do Adriano (quem vem do exterior/da favela sente saudade…). Além disso, é mesmo uma música muito linda, que parece essas cirandas de rua. E nego ainda tem preconceito.

3 – Pouca coisa deve ser mais triste do que quando um jogador de futebol perde o prazer no campo. Afinal é uma carreira que começa quando ele ainda é menino, o craque da rua. É sempre o primeiro a ser escolhido pelos amigos. O craque de bola se revela na rua e em qualquer lugar e todos são absolutamente aficionados pelo rude esporte bretão. Passam horas em campinhos, quadras, nas famigeradas escolinhas e na rua, com golzinho de chinelo, tijolo ou o que aparecer.

Por isso, quando o jogo perde toda a graça, o que acontece é o fim de uma identidade que vinha sendo construída há anos e anos pelo sujeito. Imagino que deve ser triste e desencantador demais.

Um jogador que já foi muito infeliz na quatro linhas mas que nunca perdeu o entusiasmo em jogar foi o Ronaldo. Poucos parecem ser tão felizes de bater uma bola.

Agora Adriano e Ronaldinho Gaúcho são na minha opinião casos recentes de grandes jogadores brasileiros que pareciam estar de saco cheio com o futebol. Ficaram infelizes mesmo. Eu não sei se foram as pressões, a falta do Brasil ou a vida infernal de treinos incessantes, dores e amolações de um jogador de futebol.

Lá fora ainda, os brasileiros ainda carregam esse estigma da genialidade. Têm de ser gênios. E eles mesmo se cobram por isso. É foda.

No caso do Adriano eu acho a coisa mais séria ainda. Essa vida transformou ele num sujeito deprimido. Muito triste isso vindo de um jogador tão talentoso.

4 – Por isso minha campanha continua. Depois de pedir sem sucesso a volta do Felipão; comemorar a volta do Ronaldo junto com o Jay e ficar feliz com o gol do Adriano, eu lanço a nova campanha: Volta Ronaldinho, o que você tá fazendo no banco de reservas de  um time do Berlusconi? Até o Kaká, que é amigo da bispa, já saiu fora.

Que voltem todos pro Brasil.

26 comentários sobre “Ele só quer ser feliz

  1. legal seu texto Lauro e este rap da felicidade é bonito mesmo, mas será que não rola um certo paternalismo em relação a esses caras, não? um bando de marmanjos precisando de carinho, ficando triste porque moram na Itália, porque jogam na Inter de Milão. Vejo um certo infantilismo nisto,na forma como a mídia trata estes jogadores como se fossem crianças mimadas que não se pode encostar a mão se não quebram. Não sei, eu fico lembrando do Didi, do Nilton Santos,Zito, Carlos lberto Torres, Zico, nenhum destes caras era santo,mas pareciam tão mais sólidos, tão mais estruturados, o foco era tanto na bola. Não ficavam chorando nem fazendo biquinho. E isto se refletia na atitude dentro do campo. Sinceramente, não acho triste a situação de nenhum destes caras.

  2. Oi Rodrigo, valeu pelo comentário. Acho que ele vai servir pra colocar as coisas um pouco mais às claras.
    Eu até concordo com esse argumento contra o excessivo paternalismo e com o incômodo com a exposição exagerada de dramas pessoais. Mas eu acho que existem alguns detalhes que precisam ser pontuados:

    – Essa coisa do sujeito ficar triste, independe de onde ele mora e do sucesso profissional dele. E não acho condenável uma pessoa ficar deprimida em uma situação que todo jogador de futebol sempre sonhou.

    – Jogadores de futebol com problemas e pouco sólidos sempre existiram. O Garrincha, o Paulo César Caju, o Reinaldo (cujo o problema com contusões parece muito com a história do Ronaldo), o goleiro Barbosa e o Almir Pernambuquinho estão aí para não me desmentir.

    – O que não existia era esse hábito de expressar a tristeza, assumir a depressão. Não era visto como coisa de homem.

    – A situação de hoje é completamente diferente, e é aí que está o meu ponto. Todos os jogadores que você mencionou tiveram tempo de estruturar suas carreiras (apesar de ganharem muito menos dinheiro) em praticamente um só clube. Conseguiram se estruturar próximo de suas famílias e num clima de certa estabilidade.

    O Zico mesmo não aguentou ficar na Itália, voltou pro Flamengo. Só se deu bem no Japão depois de velho, estruturado e sem nada a provar. Com o Didi o caso é bem parecido, sua passagem pelo Real Madrid em 1959 foi dramática, marcada por boicotes de jogadores estrangeiros (como os hoje louvados Dio Stéfan o e Puskas) por ele ser o único negro no time. Ele também pediu pra voltar.

    Nilton Santos só soube o que era clube no Botafogo. E o Zito só conheceu o Esporte Clube Taubaté e o Santos, nada mais. E embora o Carlos Alberto Torres tenha rodado mais, sempre jogou entre Santos, São Paulo e Rio (Flamengo, Fluminense e Botafogo). No final da carreira foi jogar com o Pelé no Cosmos, mas daí era aquela curtição antes da aposentadoria. A coisa era diferente.

    O Romário tá certo quando se auto-define o último romântico do futebol. Foi o último a encarar a vida de jogador dessa forma mais solta, sem se preocupar com o que cada ação dele pode provocar e foi o primeiro a perceber que essa vida de superstar no futebol europeu é, na maior parte do tempo, um pé no saco. Você joga pra uma torcida que o desprezaria se vc não fosse jogador e é tratado como uma commodity o tempo todo.

    – Também era diferente a vida de jogador. Os caras hoje vão ainda muito jovens pra fora. Vivem sob tutela de empresários que o tempo todo ficam alertando eles sobre o valor de cada passo ou palavra dos jogadores.

    Eles ainda estão presos e a uma ideologia em que voltar pro Brasil (como fizeram Zico e Didi) é pra eles quase um reconhecimento de final da carreira.

    Fora isso, além da publicidade, a atividade física é extremamente pesada e a exposição às contusões no futebol europeu é uma temeridade.

    Por causa disso tudo , e também pelo primeiro motivo, eu entendo a situação triste dos caras sim.

  3. Pô, Lauro, ia dizer que tinha me divertido com o artigo, mas sempre achando que havia um subtexto irônico nele todo… e agora, por teu post, vejo que não.
    Você enfoca a coisa de um modo pertinente e generoso, mas pra mim não dá, não consigo encarar essa abordagem.
    Acho lamentável e mesmo imoral – sim, não menos que isso, num país como o em que vivemos – essas atitudes e condutas [estimuladas pela mídia] na linha paternalista-compreensiva-apaziaguadora envolvendo esses caras, jogadores de futebol que não seguram a onda de “ficar longe de casa” e afins. É o fim da picada: nego ganha por mês o que a maioria da população brasileira não vai ganhar em 30, 40 anos e não consegue ser profissional o suficiente pra se adequar a contextos e situações que lhe são estranhos mas que fazem parte da atividade.
    Nem estou entrando no mérito do “perder a vontade de jogar”, que no caso do Adriano revelou-se uma falácia completa [ok, entrei]: soltou essa choradeira, todo mundo “sensibilizado” com a “aposentadoria” e a “coragem” pra largar a Inter, e na semana seguinte assina com o Flamengo. Palhaçada. Ainda fico impressionado com o grau de alienação das massas [com o perdão do clichê, argh] no que se refere a isso: todo mundo recebe de volta feliz neguinho que foi ganhar uma grana lá fora e, mimado, decide que não vive sem “o feijão” ou “os amigos” [lembro bem do Viola e do Marcelinho na Espanha]. E que recebe uma grana de novo pra isso, claro. E deixa uma péssima imagem de jogador brasileiro no exterior, como vc deve saber, no que se refere a esse profissionalismo. E, bem, por aí vai, mas não vou te alugar mais…

  4. Oi Guy, valeu pelo comentário. E volte sempre aqui por que o seu aluguel vale ouro. Mas vamos parar com a rasgaçaõ de seda e voltar pra conversa. Eu não entendo por que o pessoal espera tanta inclemência e ironia contra jogadores de futebol. Não mesmo.

    OUtra coisa, eu acho que jogador de alto nível tem de ganhar muito mesmo. O que eles fazem ninguém faz no mundo. Ninguém. No futebol circula muito dinheiro, muita lavagem de dinheiro tb. Mas por que as estrelas do espetáculo não podem ganhar?

    Errado é existir tanto dinheiro na mão de pouca gente, mas os jogadores não têm responsabilidade nenhuma nisso. São uma parte bem pequena dessa cadeia, sinceramente.

    Como você bem sabe, no mercado da arte circula tanto dinheiro quanto. E tanta lçavagem de dinheiro quanto tb. E todo mundo fica feliz quando artista brasileiro consegue ganhar dinheiro. Eu também fico. Mas poucos nesse meio são os que submetem o corpo ao desgaste que os jogadores de bola se submetem.

    Vida de atleta é difícil, tem de gostar muito daquilo pra aturar o ritmo de treinamento e a encheção de sacoi ilimitada. O Michael Phelps é um bom exemplo disso. O sujeito desgasta o corpo dele e neguinho ainda quer mais. Não pode nem se divertir. E ntambém ganha uma fortuna. O Ian Thorpe, da Austrália, tb ganhava, mas se encheu e aposentou com 24 anos.

    Com jogador de futebol é a mesma coisa.

    Adriano tem a mesma idade do Thorpe (exatamente a mesma) e não dá pra comparar a passagem dele no futebol europeu com a do Viola ou a do Marcelinho. Adriano virou Imperador no Inter de Milão, ganhou duas Coipas da Itália e três campeonatos italianos. Foi artilheiro nos italianos de 2005 e 2006.

    Nunca vi ele reclamando de feijão ou bobagens. Nunca entrou e saiu de clubes (como o Marcelinho) pra atender esquemas estranhos de dirigentes.

    Ele jogou muita bola até 2006, quando começou a ficar mal depois que o pai dele morreu. Entrou numa depressão brava e foi jogado na reserva.

    Daí ele voltou pro São Paulo, e jogou pra caramba de novo. E não jogou por que tava mentindo pro pessoal da Inter, mas por que ele ficava triste na Inter. Não se sentia valorizado por lá. É só seguir o retrospecto dele depois da volta à Inter. Começa jogando muito, em poucas rodadas já tava na reserva e voltando à vida loca.

    Eu também ia querer voltar. Vou ficar na Itália cumprindo tabela e passando mal?

    Sinceramente Guy, mas eu sou da opinião que pouco importa a imagem que o jogador brasileiro tem lá fora e pensar mais na imagem que a gente quer da gente mesmo. Acho que essa preocupação mais atrapalha qu ajuda.

    Quanto às risadas, tô vendo que estou chegando num nível cada vez mais próximo do Luís Fernando Vanucchi de composição de texto e babação de ovo. Tá feia a coisa…

    No mais vamos continuar batendo papo, participe mais.

    Abração.

  5. Eu queria o Adriano no São Paulo. E acho que jogador brasileiro devia fazer como o Juninho Pernambucano: firmar carreira aqui, se ligar ao circuito nacional, dar alegria à moçada como ele deu aos vascaínos, e depois ir ganhar uma grana alta na Europa. Além de ser ruim pro futebol brasileiro não ter grandes jogadores, fico imaginando a quantidade de moleque bom cuja carreira termina cedo ou não deslancha como poderia por causa de empresário incompetente.

  6. Lauro, só uma correção.

    O Adriano não artilheiro do campeonato Italiano em 2005 e 2006. Os artilheiros foram:

    – 2004/2005 – Cristiano Lucarelli (Livorno – 24 Gols;
    – 2005/2006 – Luca Toni (Fiorentina) – 31 Gols;

    Na temporada 2004/2005, seu ano de maior sucesso na Inter, ele fez 16 gols no campeonato italiano.

    Em 2005/2006 ele fez 13 gols.

    Grande abraço.

  7. Ei Lauro … Sinceramente, fiquei feliz pelo Adriano e entendo a tristeza que ele estava sentindo. A pressão em cima deles é enorme, a família geralmente está muito longe, eles não têm estrutura emocional (muitas vezes) pra segurar este tranco. Com quantos anos esses caras vão pro exterior? Também penso que não adianta comparar a vida do Zico, Falcão, etc, com a dos caras de agora. Não existe nenhuma inocência no futebol. Enfim … Espero que o Ronaldinho Gaúcho se recupere desta fase ruim também. Sou fã dele 🙂

  8. Eu fico lembrando é do João Saldanha ans eliminatórias de 70 quando o Brasil não cosneguiu sair do 0x0 no primeiro tempo de um jogo e ele deixou todo mundo, Pelé, Gerson, do lado de fora do vestiário na chuva no intervalo. Uma pena ele não ter sido o técnico em 2006, ia mandar aquela galera gorda e conformada para Pedras de Maria da Cruz jogar em campo de terra, hotel de uma ponta de estrela e tomar banho de cuia na beira do rio depois dos treinos. To sem paciência pros não me toques dessas donzelas.

  9. Tenho raízes em Pedras de Maria da Cruz, que é muito melhor do que Capão Redondo ou Belfort Roxo. 😛

    Mas eu tô com o Lauro nessa. Nem acho que o Adriano joga essa bola toda, mas ele foi sempre muito profissional… até este ano. Ficou deprê, não aguentou, e cansou do esquemão europeu (que é NOJENTO mesmo!). Pronto. Simples.

    Quero mais é que os europeus NÃO nos entenda!

    E, nos casos em que o indíviduo não tem a tal “estrutura”, não se pode culpar o camarada, poxa! Da favela direto pra Milão em 1 ano. Complicado…

    Ronaldinho Gaucho tem mais é que voltar pra cá também.

    Marcelinho Carioca é F.D.P. Não vale!

  10. Eu quero o França de volta, já que o Luís Fabuloso não volta tão cedo… Até o Grafiteira tá valendo…

  11. E eu acho o seguinte, sucesso fode a vida das pessoas mesmo. São poucos os que conseguem viver com isso numa boa. Os melhores exemplos de boa convivência com o sucesso são o Pelé e o Paul McCartney. Mas em geral dança a cachola mesmo.

  12. É por isso que eu prefiro o anonimato atrás de uma peruca loira e um rayban.

  13. Tomara que o Adriano seja muito feliz no Mengão, porque o Obina já deu todas as tristezas que a gente não queria esse ano!

  14. Jay, não esquenta não; sou muito mais fã do Chips do que dos irmãos Mesquita. PRAW.

    Zer, tristeza? Porra, vcs trocaram um cavalo pangaré por um mangalarga! É despedir o Barrichello e contratar um Schumacher, hahahaha

  15. Hehehehe… as coisas não mudam… a torcida do Flamengo passa 89 minutos do jogo dormindo, acorda depois de um gol, e neguinho diz que é “impressionante”… Esse é o maior produto da Indústria Cultural no Brasil… notável!

  16. Olha só o que é o maior produto da Indústria Cultural Brasileira:

  17. maior produto da indústria cultural brasileira é o Jô Soares. Pelo menos, em tamanho do ego e circuferência. PRAW!

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