Sob risco de extinção

Esse aí conhece o drama, não quer nem ver
Esse aí conhece o drama, não quer nem ver

A crise na imprensa continua a mil por hora. Parece que depois de alguns anos de coma induzido, o primeiro jornalão a cair duro pode ser a Gazeta Mercantil. O negócio ainda sobreviveu com doses do dinheiro e da influência do empresário Nelson Tanure.

Tanure gosta de investir em negócios falidos, como o Jornal do Brasil e a Editora Peixes. Pelo jeito também tem gosto pela telefonia celular. Mas, nem ele e nem o antigo dono, Luiz Fernando Levy, mostram a mesma vontade na hora de pagar as dívidas de seus negócios.

A Gazeta se atolou em dívidas que nenhum dos proprietários quer pagar. Débito de rico brasileiro é bicho solto mesmo, nunca tem dono. Se bobear, vira responsabilidade do Ibama ou de algum outro órgão governamental que cuida de espécies abandonadas. O Gabeira que gosta de rico e do Verde bem que podia dar uma força nessa questão.

Mas na hora do vamo vê, não tem Gustavo Franco que convença, não existe brasileiro que goste mais do Estado do que um rico endividado (na rua, na chuva, na fazenda e até numa casinha de sapê). Pena que a paixão só dura nos momentos difíceis. E se tem uma coisa que arrebenta a coleira que prende o bicho-dívida a quem cria o animalzinho é a tal da ação judicial.

Nessas horas ó o que acontece:

****

Vou falar o quê?
Vou falar o que?

Tal crise chama atenção pra outros baques profundos que o jornalismo vem sofrendo e que já foram debatidos aqui no Guaciara em outras ocasiões.

Uma matéria da Economist, traduzida pelo Observatório da imprensa, diz que a coisa tá tão feia lá fora que o pessoal já começou a ter dó dos veículos diários. Para John Kerry trata-se de uma “espécie em extinção” (o Ibama vai ter trabalho). Capetão e candidato a Berlusconi anglo-saxão, Rupert Murdoch, acha que em 15 anos, os jornais não vão servir nem pra embrulhar peixe.

Nos blogs, tem um monte de coisa legal para se ler a respeito. O Idelber Avelar acha melhor fecharem logo a tampa do caixão porque já tá fedendo. E dá boas provas disso. O principal problema que ele , e também o Hermenauta apontam é para o oligopólio dos veículos de comunicação no Brasil (oligopólio que restringe fontes e faz questão de nos dar uma versão bem “particular” das notícias, como mostra o Sakamoto).

O Sérgio Leo pondera muito bem sobre a importância dos jornais na história recente do Brasil e sobre o risco do debate se reduzir a um Fla-Flu. Afinal, a notícia da grande imprensa ainda é o principal combustível de quem mais desce o pau nela.

Todas essas questões devem dar o tom do debate político a medida em que se aproxima a Conferência Nacional de Comunicação, a Confecom. O evento acontece na primeira semana de dezembro tem como principal objetivo debater a lei de concessão a veículos de imprensa. O blog Liberdade de Expressão tem uma cobertura muito interessante sobre o assunto e merece ser acompanhado.

Qualquer um que acompanha a história recente do Brasil sabe que as concessões de Rádio e TV  por aqui têm muito a ver com o poder político e econômico.

Entre 1985 e 1988, quando ainda era atribuição exclusiva do poder executivo a outorga de concessão de rádio e TV, o presidente Sarney outorgou mais de mil concessões, 168 delas para veículos de parlamentares que o ajudaram a aprovar a emenda constitucional que deu a ele cinco anos de mandato.”

Por isso, eu acho mais que bem-vinda a Confecom. É hora de todos os insatisfeitos com a maneira como as notícias são veiculadas acompanharmos isso bem de perto. Tô com o Liberdade de Expressão e com o Eduardo Prado, que escreveu isso aqui:

A atual lei de radiodifusão é de 1962 e a de telecomunicações, de 1995. De lá pra cá novas tecnologias surgiram e a sociedade brasileira mudou muito. Os movimentos sociais cresceram e ganharam importância, mas não são representados adequadamente pelas grandes redes de comunicação, pelo contrario, muitas vezes são retratados de forma preconceituosa e até como criminosos. Esta é a oportunidade para discutirmos as políticas públicas para o setor, apontar suas falhas e propor mudanças. O atual modelo é marcado pela concentração dos meios de comunicação em poder de poucos grupos. Isso precisa ser revisto. Não faz sentido que um país com as dimensões do Brasil, com uma rica diversidade humana, cultural e religiosa seja tão pobremente representado pela mídia.
O acesso a informação é um direito fundamental à realização da democracia, por isso é preocupante que a repercussão da convocação da I Conferência Nacional de Comunicação tenha sido minimizada pela imprensa. Se esta postura se mantiver caberá mais uma vez à blogs como o Liberdade e aos fóruns da Internet informar sobre a conferência e mobilizar a sociedade civil, organizada ou não, para que essa oportunidade não se perca.”

9 comentários sobre “Sob risco de extinção

  1. HINO DO BNDES PARA O EMPRESÁRIO BRASILEIRO

    Clementina de Jesus

    Na hora da sede
    Você pensa em mim
    Lá,laiá
    Pois eu sou o seu copo d’água
    Sou eu quem mato a sua sede
    E dou alívio à sua mágoa

    Na hora da sede você pensa em mim

    Na hora da sede
    Você pensa em mim
    Lá,laiá
    Pois eu sou o seu copo d’água
    Sou eu quem mato a sua sede
    E dou alívio à sua mágoa

    É sempre assim
    Você foge de mim
    Eh, pra você eu só sirvo de água
    Mas se a fonte secar você se acaba
    Lá, laiá
    Você vai, você vem
    Você não me larga
    Lá, laiá
    Mas se a fonte secar você se acaba
    Lá, laiá
    Você vai, você vem
    Você não me larga
    Lá, laiá

    Na hora da sede
    Você pensa em mim
    Lá,laiá
    Pois eu sou o seu copo d’água
    Sou eu quem mato a sua sede
    E dou alívio à sua mágoa

    Na hora da sede…

    É sempre assim.

  2. Pucha, é tão legal uma coisa dessas, que o trackback me apresente este blog que estou fuçando que nem louca, acho que descobri um tesouro de novas emoções.

    Posso postar o teu texto no Liberdade? Posso colocar você de blogue parceiro? (blog parceiro é todo aquele que ajudar a fazer uma rede interneteira em torno deste assunto que é a Confecom ao linkar o Liberdade, já linkamos ele na categoria, mas acho sempre de bom tom perguntar… infelizmente acabamos de mudar de template e estamos ainda com problemas técnicos – o novo template não aceita as categorias de links ainda)

  3. Pode e deve Flávia, tô nessa com vcs e depois, se vc puder passar mais informações pra gente, sempre vai ser um prazer publicar por aqui. Acho que a convenção é fundamental pra mudar o panorama político no Brasil e democratizar o acesso à informação.

  4. Tá lá, Lauro, vai sair amanhã (se não eu mato o leitor de post novo). Super obrigada. Tudo o que vai saindo eu vou botando lá, mas as informações novas vão saindo nas listas de e-mail(veja no Liberdade, na lista de links) uma coisa que eu estou fazendo é passar informações locais que chegam em mim pra alguém que eu sei que tá na região,como eu fiz com o Hugo, que estuda na PUC: eu fui na reunião na Câmara e soube da coisa e avisei o Hugo. Mas não sou só eu que tenho notícias, as vezes a gente deixa passar, só por que não saiu no Estadão. O Estadão que se dane, a melhor notícia sai do cara que nem é jornalista. Notícia das Grandes agências todo mundo já tá sabendo. Agora é o blogueiro mostrando como ELE mesmo faz suas notícias. Por essas e por outras vale a pena formar uma rede. Não tenho certeza de onde você mora, mas se não quer botar no seu blog a cidade é só mandar por e-mail 🙂

  5. Lauro,

    Fiquei muito feliz em ter o trecho de um post citado aqui no “Blog do Guaciára”!

    Sobre o futuro dos jornais, é bem isso que você escreveu, não há futuro para eles, pelo menos não dentro do atual modelo. Provavelmente os jornais impressos continuaram existindo ainda por muitas décadas, mas como uma alternativa a mais para aqueles que procuram ler uma análise jornalística mais aprofundada sobre uma determinada notícia, ou seja para um número de leitores BEM menor que o atual.

    Abraços!

  6. Oi Eduardo, acabei não te ando crédito né? Foi mal, vou colocar o seu blog e o Liberdade de Imprensa na lista de links do blog. Muito boas informações por lá.

    Flávia, eu moro em BH e vou ficar de olho no que acontece por lá tb pra ajudar a alimentar o Liberdade de Expressão. Acho essas questões na Copnfecom são das mais importantes na atualidade. Apesar do Hélio Costa, é um debate que pode a ajudar – e muito – a mudar o panorama político brasileiro. Tô com vcs. Pode contar. Depois vou tentar puxar os outros donos do Guaci a entrarem nessa conversa tb.

    Grande abraço
    Lauro

  7. Um dia, dessa maneira, elas não existiam…Nada mais óbvio, então, que eles deixarem de existir dessa maneira.
    Antes talvez dessa dinamização da informação, o leitor era o sujeito que deveria se filiar/sujeitar aos veículos de comunicação. Necessariamente as fontes se multiplicaram e essa situação de sujeição acabou ou está em vias de…

    PS: Quando isso chegar à TV vai ser lindo…

  8. Eu quer o ver tb isso chegando na TV, mas vai demorar ainda. Mas eu tenho certeza que a Confecom é o primeiro passo pra democratizar o acesso à informação.

    Enquanto isso, a queda livre continua:

    O mês de abril registrou a pior circulação média diária dos jornais no ano: 6,7% menor que em abril de 2008. No acumulado do ano a queda foi de 3,8%. Pela hierarquia de circulação: Folha de SP, (-10,84%) / Super Noticia, (-9,85%) / Extra, (-25,69%) / Globo, (-7,75%) / Estado de SP, (-16,93%) / Meia Hora, (-15,4%) / Zero Hora +3,58% (olha a crise do governo Yeda aí geeeente!)/ Correio do Povo, (-1,24%) / Diário Gaúcho, (-13,24%) / Lance, (+4,55%). Fonte IVC.

  9. É, e eu creio que essa queda é melhor explicada pela perda de confiança na mídia, como você disse, do que mais um dado da crise econômica, pois as classes que consomem essas publicações são menos afetadas que as que não são público desses jornais. Não sei qual o perfil do consumidor do Correio do Povo, mas se ele for um jornal mais popular, como parece pelo nome, a queda de consumo dele indicaria que para o povo mais atingido por qualquer crise, poderiamos contar com em média 1% que deixa de ler jornais – se isso for indicativo, creio que a crise explicaria talvez menos que 0.5% de queda de consumo nas classes A e B (que são menos afetadas financeiramente que as classes que dependem da economia no seu sustento diário), não sei se tô muito confusa, mas isto indicaria que há mesmo uma perda de sentido de se ler jornal na classe média e média-alta.

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