Crônicas da desilusão 1 – As tragédias

Primeiro capítulo da primeira minissérie do Blog do Guaciara.

Aqui, pretendo escrever sobre os episódios que se seguiram ao auge da contracultura e que demonstraram certo desgaste das promessas dos anos sessenta. Na verdade, o desgaste vem de antes, vem de uma crise do modelo americano do pós-guerra. Como a contracultura cobrava as promessas do tal “sonho americano”, a sua decadência parece ser significativa. Começarei com eventos históricos, depois falarei de alguns filmes e por fim verei onde chega isso na década de oitenta.

depois desse entuasiasmo veio a decepção
depois do entuasiasmo veio a decepção

Em 1969, durante o festival de Altamont tudo o que era bonito no Festival de Woodstock pareceu trágico. Como Monterey, o evento queria ser  uma celebração das culturas alternativas que haviam tomado conta da costa oeste americana. Era um festival gratuito, bem perto de San Francisco, cidade que havia se tornado a capital dos dropouts e hippies.

Antes que qualquer coisa acontecesse, George Harrison declarou que não se sentia bem por ali e tirou seu time de campo. A barra havia pesado pra valer. A expansão da consciência já havia dado lugar ao vício, a paranóia e a bandidagem. O hippismo era mais uma falta de perspectiva de uma parcela gigantesca de jovens do que uma promessa de uma nova América. Àquela altura dos acontecimentos, não tinha mais nova América. Embora a luta contra a guerra fosse eficaz, o capitalismo e a burocracia enredavam tudo, limitavam a democracia e largavam parcelas enormes da sociedade americana a esmo. O pau cantava e o chamado complexo-militar-industrial tocava a máquina.

Mal o primeiro conjunto subiu no palco e um grupo de Hells Angels, contratados pelo empresário dos Rolling Stones para fazer a segurança, começou a horrorizar. Tudo acabou em tragédia, com o grupo assassinando a facadas o jovem negro Meredith Hunther durante o show dos Rolling Stones.

Como a idéia era transferir aos próprios grupos juvenis toda a organização do evento, não deixa de ser uma primeira morte do hippismo. Em Woodstock aqueles jovens provaram que poderiam levar a vida da sua forma, sem interferência da institucionalização carcomida da sociedade americana. O filme que retrata a turnê dos Rolling Stones é a primeira obra-prima dessa desilusão: Gimme Shelter, dos irmãos Maysles .

sem abrigo
sem abrigo

Durante o documentário, vemos uma banda confiante e cheia de entusiasmo, mesmo depois da morte de Brian Jones, murchar. Eles começam o filme como a maior banda do mundo. Estão cheios de energia, a convidar Deus e o diabo para a mesma mesa. As coisas começam a mudar de figura quando a organização baseada nos dropouts da época começam a ruir. A coisa piora até o ponto em que nem o fato de ser a banda mais famosa do mundo entusiasma. Mick Jagger era um pavão, o rei da cultura jovem naquele momento. Progressivamente, de rei confiante ele passa a espectador constrangido das cenas filmadas pelos documentaristas. No fim, não há mais nada a ser comemorado. Ele sai da sala de montagem e se levanta como se houvesse ido ao necrotério reconhecer um cadáver.

Fosse só essa tragédia já seria muito, mas outras piores e maiores aconteceriam.  Soube-se na mesma época, que uma comunidade de jovens no sul da Califórnia promovia massacres em nome de uma promessa racista e apocalíptica de um maluco manipulador chamado Charles Manson. Em nome de uma reconciliação com a terra e com os valores originários, uma rejeição da banalização do mundo se tornou um delírio de psicóticos.

O deleite psicodélico, as novas percepções do mundo e as novas formas de enxergar haviam chegado à política, com resultados extraordinários. A associação entre gozo erótico e a emancipação, a crítica às instituições políticas contaminou uma parte significativa da nova esquerda. De forma não muito diferente, ainda na primeira metade dos anos setenta, essas formas perderam o propósito e a existência. A auto-afirmação de alguns grupos se tornou um fim em si.

Um pouco depois, a guerrilha urbana destruia ela mesma. Em nome de uma utopia e da culpa americana, pretendiam trazer a guerra do Vietnã pra casa. As aventuras sinistras do Exército Simbionês de Libertação Nacional talvez sejam o ponto alto desse desespero. Era um grupo que não dizia mais respeito a nada que não eles mesmos. Sua salvação era apenas uma linguagem da violência, que aliás, o sonho americano respondia com violência equivalente, em um quadro muito pouco otimista.

No dia 18 de novembro de 1978,  a tragédia é ainda maior. No meio da selva da Guiana, mais de 900 membros da Peoples Temple se matam. A igreja do pastor Jim Jones foi a primeira congregação que militava diretamente pela integração racial e tinha apoio de figuras importantes da política de São Francisco como o ex-prefeito George Moscone e Harvey Milk. Em um processo de degeneração mental completo, ele isola a população em uma cidade utópica e passa a mediar todo o acesso ao que vem de fora e a mergulhar todos em uma paranóia persecutória que misturava a sua mitomania, à mania de grandeza e a vontade de poder. Por fim, depois que os membros da igreja matam um congressista norte-americano, Jones e os seus mais leais súditos fazem com que todos se envenenem.

Jonestown
Jonestown

A história foi muito bem contada no documentário Jonestown: The Life and Death of People’s Temple, do diretor Stanley Nelson. Acho que esse é  um dos registros mais tocantes do fim de uma época. Ao invés de tratar os fiéis do Peoples Temple como fanáticos idiotas, o diretor tenta entender, a partir de depoimentos dos sobreviventes, as razões que os levaram a ingressar no culto, a promessa que ele representava e, por fim, a profunda decepção que a quebra de uma promessa causou.

A tristeza de todos foi causada por viver toda aquela barbaridade, mas também em perder a única promessa que foi feita para muitos dos norte-americanos que resolveram entrar para aquele culto.

Acredito que essa tenha sido a pá-de-cal lançada sobre a contracultura dos anos sessenta. Depois disso, não por acaso, o hippismo tornou-se ou um estilo de vida, uma tribo urbana, ou uma forma conservadora e escapista. A idéia de transformação radical da sociedade dos Estados Unidos tornou-se quase um palavrão. Um certo horizonte utópico sumiu dos Estados Unidos junto com aqueles cadávers, com a crise do petróleo e, por fim, com uma espécie de burocratização do poder.

Continuaremos o assunto na próxima postagem.O certo é que ninguém mais associa as novas formas de antes à liberação e nem a uma oposição. No máximo, os yuppies utilizaram isso como uma forma de atrair bons consumidores.

7 comentários sobre “Crônicas da desilusão 1 – As tragédias

  1. queria acrescentar algumas coisas a este excelente texto. Gimme Shelter que hoje é percebido como uma obra prima foi violentamente atacado quando lançado por toda crítica americanam especialmente os dois mais conhecidos Vincent Canby e Pauline Kael. A Rolling Stone também denunciou o filme como uma tentativa de encobrir a responsabilidade dos Stones na tragédia já que eles haviam financiado o documentário. Discordo,mas de qualquer forma isto evidenciava um racha estretégico dentro do próprio movimento, já uqe a Rolling Stone era na época um jornal underground. No fundo, como disse uma vez alguém do Grateful Dead, Woodstock e Altamont foram dois lados da mesma moeda, a massificação da boemia. Aquilo que começara como um movimento de iniciados de classe média se contaminou no caminho do underground para o mainstream e expos o grande conflito existente entre os movimentos dos anos 60, a contradição entre revolução e capital.Absorvida pela sociedade de consumo, a contracultura deixou o projeto revolucionário a partir dos anos 70 para se concentrar no reformismo. E muitos cidadãos que não se envolveram diretamente com aquilo, mudaram a sua maneira de se relacionar com o sexo, com a Igreja e com o Estado,se beneficiaram dos principais eixos de questionamento dos que dormiram no sleeping bag. A verdade é que havia uma ansiedade de mudança evidenciada em várias frentes, nos mais diferentes paises do mundo. Como é impossivel entender a contracultura de forma unidimensional talvez o melhor seja mesmo fcehar o foco sobre o que aconteceu nos Estados Unidos. Essa discussão rende e são tantas as ramificações que fica impossivel falar tudo num post só.

  2. só uma premissa do seu texto com a qual discordo, Tiago. Não acredito que a contracultura tenha sido uma cobrança da promessa do sonho americano. Ela é isto sim, uma forma de contestação ao que vinha embrulhado nesse sonho. A matriz dos hippies vem dos beatniks dos anos 50, nasce do esgotamento da fórmula conformista, com o apequenamento da sociedade do pós-guerra envolta em seus devaneios suburbanos e delirios anticomunistas. Vários beatniks como Neil Casady e Allen Ginsberg foram figuras proeminentes do hippismo. Foi em Sâo Francisco que Allen Ginsberg leu Uivo pela primeira vez, todos eles em algum momento moraram lá. A genese do movimento hippie é o inconformismo literário e comportamental dos beatnik, com a diferença que uma geração adotou a expressão literária e seus seguidores eram basicamente musicais.

  3. Rodrigo, como sempre, muito bons os seus comentários. Eu também acho que as dinâmicas jovens que se iniciaram dos anos cinquenta em diante abriram tantos caminhos na cultura e na vida das pessoas que é difícil falar de mais de um aspecto deles de uma vez. Aqui eu só quis falar de um: quando o sonho virou pesadelo. Quando o que era utópico se tornou aterrador, quando uma idéia voltou-se contra ela mesma. Não acho que isso seja uma dinâmica geral dos movimentos da contracultura, mas que existiu esse momento de ressaca.
    Acho que além do beatnik, a contracultura também se iniciou com as novas formas de revindicação política e a procura de novas formas de racionalidade. Penso nos movimentos de minorias, nas novas formas de religião nova era, na contestação da cultura dita como oficial.
    Em geral se trata de um movimento de contestação dos padrões de racionalidade dominante. Por isso, você tem razão, me expressei mal quando disse que eles cobravam uma promessa do sonho americano. Na verdade eles evidenciavam que a promessa de recompensa pelo esforço não era cumprida por aquela sociedade.
    Nos textos mais a frente, falarei do filme de entretenimento e depois de gente que interpretou a diluição e crise da contracultura como o fim de um ciclo de promessas que a sociedade americana criou para si mesma. Valeu muito pelos comentários

  4. Engraçado os críticos terem recebido o filme dessa forma né Rodrigo? Basta a ver a cara de tacho do Mick Jagger no final para notar a bosta que ele fez. é engraçado que todo aquele esquema de vida espontânea e auto-gerida de Woodstock, em Altamont se torna um horror. Aliás, agora eu chuto pra valer, acho que esse tipo de tragédia ajudou a definir o que seria um grande espetáculo de rock. Rodrigo, você conhece isso muito melhor que eu , você acha que uma coisa teve alguma influência na outra?

  5. Tiago, a visão de Altaont como erupção do caos, e fim dos tempos, deriva basicamente da reportagem demolidora da Rolling Stone e uma das premissas da matéria é que os Stones queriam fazer um festival de qualquer jeito e filmar o evento por puro narcisismo. Essa premisa de que os espectadores foram tratados como extras num set de filmagem pontua grande parte das críticas. Mas Woodstock também foi marcado por overdoses, péssimas condições de higiene e por pouco não houve uma calamidade, só que nao se ve no documentário chapa branca do conglomerado time warner o que aparece de sobra no filme dos irmãos Maysles. O fator prepoderante foi o assassinato agravado pelo componente racial, fora isto Altamont e Woodstock não foram assim tão diferentes não.

  6. quant a sua outra consideração, acho que voce tá certíssimo.Os grandes festivais foram tentaivas de reproduzir em larga escala o espirito dos shows voltados para a comunidade hippie em são Francisco. A despeito de toda mística sobre Woodstock, os artistas chegavam de helicoptero enquanto o público chafurdava letargicamente na lama. Aquele foi o festival do guitar hero e do exibicionismo. A diferença é que em Altamont o conflito entre arte e dinheiro que sempre esteve no bojo daquela cultura chegou no seu limite máximo de tensão. Ficou evidente a impossibilidade de tratar um negócio que envolvia milhões de dólares como um projeto comunitário. Prevaleceria dai pra frente o gigantismo, a tal massificação da boemia só que com um aparato muito mais compatível com a linha racional de produção.

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