Simonal não era assunto pra ninguém

Eu ainda nem vi, mas já sigo dando pitacos.  Um monte de gente tem escrito sobre Ninguém sabe o duro que dei, o filme sobre o Simonal. Uns falam sobre o linchamento da esquerda contra o Simonal. O tal macartismo às avessas.

O Arnaldo Branco, por outro lado, escreveu um texto muito bom sobre como gente que não fez nada para ajudar o cantor na época, agora se levanta em protesto à injustiça cometida contra o rei da pilantragem.

Simonal, como todo mundo aqui deve saber, foi acusado de ser delator da ditadura e carregou o estigma de dedo duro por 26 anos, até morrer.  Como escreve Arnaldo Branco,  nenhum músico, produtor ou jornalista o defendeu nessa época. Ninguém organizou disco de tributo e nem show de volta.

Hoje, muita gente acredita que o Simonal foi vítima de uma conjunção de acontecimentos infelizes misturados ao preconceito racial, a vontade insaciável da imprensa em denunciar e a sanha de linchamento do respeitável público. Nessas horas não tem esquerda e nem direita. A galera lincha qualquer um que arranhe a moral do telespectador do Jornal Nacional.

Curioso é ninguém comentar o papel do próprio governo militar nessa história do Simonal. Afinal, segundo a versão mais ventilada por aí, o cantor teria abusado da sua pilantragem e contratado um agente do Dops para assustar (espancar e torturar) o seu contador.

Simonal achava que o contador o roubava. Ao contratar os torturadores, o cantor expôs o regime militar duas vezes. Primeiro, a existência da tortura nos porões da polícia. Tá certo, todo mundo sabia, mas raros eram os momentos em que se podia falar desse assunto de maneira tão aberta.

Depois, ele expôs como todo sistema de barbaridades da tortura era também usado para interesses privados. Os torturadores também trabalhavam ao gosto do cliente, como uma empresa de coação e tortura privada.

Não é sem motivo que a ditadura militar também quisesse o Simonal bem longe de qualquer holofote. Ele era a prova viva das barbaridades da ditadura militar e de que essa máquina pública de violência e assassinatos também prospectava clientes privados.

Já ouvi mais de uma vez que no jornal O Estado de S. Paulo o nome de Simonal era vetado em circular emitida diretamente da mesa dos Mesquita (não a maravilhosa família mineira, é bom ressaltar).  Os jornalistas não podiam falar por ordens dos patrões, que lidavam diariamente com agentes da repressão no Brasil.

Certamente, muita gente queria retalhar mesmo o “agente do governo militar” que Simonal representava nos holofotes de matérias sensacionalistas, mas é inegável que o sujeito se transformou em um baita incômodo também para a ditadura.

13 comentários sobre “Simonal não era assunto pra ninguém

  1. Eu também li o texto do Arnaldo Branco e acho que ele tem razão. Tá parecendo aquela mini-série que a Globo fez sobre a Elis Regina: Elisinha Light, sem sexo, drogas e rock’n roll.

    Parece que os filhotes da Trama querem vender seus pais a todo custo (já é o segundo) e, claro, pegar uma carona. Acho que o próximo filme será sobre o Jair Rodrigues…

    Enfim, coisas de Nelson Motta e Nelsons Mottinhas.

  2. sim, lauro, esse foi exatamente o ‘dilema simonal’: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. o cara foi o judas perfeito para a ocasião, e acho incrível mesmo como ninguém passou essa história a limpo na época.
    parece certo, mesmo, que foi muito conveniente para o governo militar que as coisas acontecessem daquele jeito.

  3. lauro, lembrei de outra coisa. o que me pareceu significativo, na exibição do filme, é que os fãs do simonal pareciam à parte desse julgamento todo. fãs que realmente não compreendiam o porquê do desaparecimento de um artista tão querido.
    só por curiosidade, fui em uma sessão predominantemente de terceira idade, onde o protagonista – pasme – possuía na telona o mesmo domínio hipnótico que tinha nos shows: as pessoas CANTARAM junto com ele. e um pouco avergonhadas, também.

  4. Que bom Lauro que você abertamente criticou a ditadura militar no contexto dessa história. Há um outro assunto relacionado: o exército brasileiro hoje em dia. Como é que funciona, e por quais motios?

  5. Eu vi o filme, e achei muito “estranho” que ambos os filhos dele tenham, nos depoimentos, “se esquecido” que o pai contratou, de fato, um capanga que, de fato, espancou um sujeito… Ou seja: a história toda é meio aquela coisa de um movimento pendular violento, sem matizes, aos olhos dos filhotes Simonal… E, na minha opinião, no fim, ficou meio mal pros caras, porque o filme dá espaço pro cara que apanhou… É o velho ditado: quem bate não se lembra, mas quem apanha nunca se esquece…

  6. Também assisti o filme e achei muito bom, apesar de que os caras não quiseram ir a fundo . Eu perguntaria pro Nelson Motta por exemplo: Por que vc não marcou a data dos shows dele? Outra pergunta que fica no ar é: se ele fazia tanto sucesso no exterior por que não tentou a carreira lá. Também acho que o documentário falha a não tentar saber o que aconteceu com os músicos do Som 3 nessa época. Nessa semana coloco um texto com as minhas impressões.

  7. É muita hipótese, mas será que o Simonal agüentaria mais uma década de sucesso? Mais; como as gravadoras e emissoras de televisão entravam nesse esquema?

  8. No filme o Boni deixa claro que as gravadoras e canais de TV não chamavam o Simonal para programas por causa dos diretores de programa que achavam que chamar ele para qualquer coisa era comprar uma briga e uma dor de cabeça com muita gente que tinha raiva do sujeito (que também era um pavão). Nas casas noturnas o pessoal ligava dizendo que se o Simonal tocasse, eles não tocariam mais.
    Era um país marcado por uma ditadura violenta (apesar dos revisores da Barão de Limeira acharem que a coisa foi branda). Em um primeiro momento, por burrice e ignorância, o Siumonal disser que conhecia as pessoas do governo, quis se fazer influente pra calar o pessoal que o acusava de ter contratado o Dops para torturar seu contador e obrigá-lo a assinar uma confissão onde ele admitia ter desfalcado o cantor.
    A entrevista com o contador inclusive é o pulo do gato do filme e é o que faz dele um documento interessante.

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