Edgar Rodrigues (1921 – 2009)

memória da fase heróica do movimento operário
memória da fase heróica do movimento operário

Na minha adolescência, o gosto por política e por formas mais ousadas de criação artística eram compatíveis quando sob o guarda chuva de uma ideologia antiga, que misturava uma desconfiança das instituições políticas formais e uma fé na capacidade do homem se refazer ao abandonar as convenções e desfazer a opressão capitalista. Essa é a profissão de fé do anarquismo. Na época, tal posição política já não era factível e nem trabalhava na melhoria das condições de vida da classe operária. No entanto, permitia a criação de meios autônomos de convivência que reuniam gente de idades, origens e destinos diferentes. Uns aprendiam com os outros.

Me formei politicamente nessas desorganizadas fileiras. Em um movimento que se anunciava apenas como o contraponto de se fazer política na década de oitenta e noventa. Foi ali que aprendi a discutir e por causa do anarquismo eu viajei muito pelo interior para encontros, debates e festivais.

Além disso, foi aí que aprendi a importância vital de se desconfiar das narrativas históricas e de não embarcar na idéia de distinção. Foi o anarquismo que me ensinou o quão perverso é o esforço que alguns fazem para não fazer parte da manada. Aprendi  quão cruel era aguém que quer se colocar em posição de superioridade.

Em tais reuniões anarquistas, a menção ao fracasso da república espanhola era quase obrigatória. Meninos e meninas de diferentes classes sociais (com uma maioria proletária absoluta) e raças discutia de forma desenbaraçada os passos heróicos de Durutti Buenaventura e sua queda. Bem como da ascenção de um fascismo que perdurou depois da segunda guerra nos países ibéricos, na América Latina e serviu como combustível para a expansão da sociedade produtora de mercadorias.

O tom era o da inevitabilidade da decadência das instituições formais da política na perseguição e despropriação dos sujeitos que ela pretendia apoiar. A idéia da burocratização de uma instituição que se volta contra os cidadãos e se torna um aparelho opressivo que funciona por si próprio e para si próprio, como um um autômato.

Muitos jovens aprendemos isso a partir dos textos de militantes intelectuais mais antigos: como o sociólogo Maurício Tragtenberg e, sobretudo, pelos livros e artigos de Edgar Rodrigues

Nascido em 1921, Rodrigues foi exilado para o Brasil em 1951, por sua atuação no movimento antifascista português. Aqui divulgou o pensamento anarquista e contou uma porção de histórias da militância ibérica que serviram de inspiração para muita gente.

Alguns de meus amigos viam naquelas histórias de operários como uma possibilidade de dar à vida deles um sentido mais ativo. E, de fato, embora ninguém mais seja anarquista, essa promessa fez muito bem a todos. Isso aparecia em livros dele como Os Libertários: Idéias e Experiências Anárquicas, O Ressurgir do Anarquismo e O anarquismo no banco dos réus e os seus artigos no letralivre. Muitos meninos de 15 anos, com o primeiro grau incompleto, começaram a se interessar pela história, pela escrita e pela possibilidade de uma vida diferente através de texto que falavam das promessas de uma ideologia já bem embolorada.

Hoje, soube que Edgar Rodrigues morreu na quinta-feira. Em homenagem, só posso postar algumas cantigas revolucionárias. Espero que consiga o agradecer por ter me ensinado a ser uma pessoa melhor.

4 comentários sobre “Edgar Rodrigues (1921 – 2009)

  1. Belo texto. Rendeu uma bela e merecida homenagem ao Edgar. Vivi essa época também e me identifiquei bastante.
    A diferença é só que ainda sigo insistindo…
    Abraços.

  2. Valeu Rodrigo, acho que o Edgar foi um dos últimos representates da geração de revolucionários da primeira metade do século a nos deixar. Penso nele, Tragtenberg, Apolônio, Jacob Gorender etc

  3. Não, ainda tem o Diego Jimenez, 97 anos, que lutou na Guerra Civil Espanhola e o Chico Cuberos, irmão do saudoso Jaime Cuberos.

    É, até onde sei, o Fernando B.U, um dos “jovens ideólogos” dessa nossa geração era ligado a algum desses grupelhos anarcossindicalista. Eu mesmo estou no rol dos “irmãos espirituais do anarquismo” como disse o G.W Sok sobre sua banda, o The Ex, em uma entrevista. Tudo que eu acredito como valores imprescíndiveis a uma pessoa que resolva desenvolver alguma luta política no mundo tem bases sólidas na idéia simples do Nem Deuses Nem Mestres. E todo o movimento anticapitalista que explodiu no mundo ocidental a partir da virada do século XXI tem uma ligação muito forte com o anarquismo de alguma forma.

    Agora, não deixa de ser muito legal o texto. Engraçado que semana passada eu fui no teatro com o Rodrigo “Barretos”, baterista do Ordinária Hit e esse sim anarquista de carteirinha, e conversamos um monte sobre o Edgar Rodrigues. Desses caras que faziam de sua ética pessoal uma profissão de fé – se isso vale de alguma coisa em nossos dias, que admiremos o sujeito. Sem contar que está em um rol muito interessante dos militantes que, em função de suas crenças políticas, se autoeducam: o Edgar, assim como o Tragtemberg e o Jaime Cuberos, não tinham nem o ginásio completo. E isso não os fez menos capazes como intelectuais ou seres humanos. Tive o prazer de manter algum tipo de contato com os três, e são das pessoas que mais admirei/admiro na vida.

  4. Na minha biblioteca tenho vários volumes da vasta obra histórica de Edgar Rodrigues, um velho anarco-sindicalista, homem de grande superioridade moral, combate e resistente antifascista e anti-salazarista, a cujo memória me curvo e preito de respeito e homenagem.

    No Brasil, onde estava exilado, foi operário da construção civil, bibliotecário, historiados, cronista, fundador de editoras, pesquisador e sempre, sempre anarquista.

    Nunca o conheci, nem mesmo quando vivi no Brasil, mas Edgar Rodrigues e, em especial, a sua obra foram sempre companheiros dilectos.

    Lembro aqui alguns do seus livros, que li com sofreguidão e prazer absoluto: “Na Inquisição de Salazar” (1957), “A Fome em Portugal” (1958), “Breve História das Lutas Sociais em Portugal” (1977), “O Despertar Operário em Portugal” (1980), “A Resistência Anarco-Sindicalista em Portugal” (1981), “A Oposição Libertária à Ditadura” (1982), “ABC do Sindicalismo Revolucionário” (1987).

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