Quebra-quilos, por Arthur Dantas Rocha

Hoje e amanhã , o Teatro Alfenim, da Paraíba apresenta o seu espetáculo Quebra-quilos no Teatro Coletivo em São Paulo. Eu bem que gostaria de estar por lá pra prestigiar o trabalho do excelente diretor Márcio Marciano. Como não vou conseguir, o Arhur, amigo de fé e irmão camarada do Guaci, escreve um textinho pra nós. Vale a pena ler…

A hora dos que não falam

Arthur Dantas Rocha

Cena de Quebra-quilos
Cena de Quebra-quilos

“(…) Quebra-Quilos, mais precisamente, o projeto do Teatro Alfenim, grupo que aposta na pesquisa continuada e na construção de uma dramaturgia própria voltada para os temas que se referem ao sujeito brasileiro em formação” – Márcio Marciano, Caderno de Apontamentos do espetáculo.

Quem me conhece sabe que não sou homem de teatro. Um fruidor muito distante, vá lá. Dentro dessa constatação, porém, tem um grupo que sempre mobilizou minha atenção e do qual vi todos os espetáculos até hoje: a Companhia do Latão. Uma das peças fundamentais do grupo era o diretor/dramaturgo/cenógrafo/teórico Márcio Marciano.

Acontece que Márcio foi dar aula na Universidade da Paraíba, em João Pessoa, e como não é bobo nem nada, e tem uma escrita particularíssima no que tange ao fazer teatral, continuou suas pesquisas e tratou de montar um novo grupo, o Teatro do Alfenim (“alfenim” é um docinho típico da Paraíba). Com esse grupo, trouxe à IV Mostra Latinoamericana de Teatro de Grupo o espetáculo “Quebra-Quilos”. Para mim, que fiz o jornal diário do evento, um dos destaques – o que não é pouca coisa em uma programação farta, com ícones do teatro latino (Yuyachkani do Peru, com uma das peças mais bonitas que já vi na vida, e o El Galpón do Uruguai, 60 anos de história e de luta) e brasileiro (um ensaio aberto do próximo espetáculo do Galpão de BH).

O grupo fará duas apresentações nesta quarta e quinta no Teatro Coletivo, em São Paulo, às 21 horas.

Muito se assemelha ao Latão: expedientes brechtianos, um humor “ruim”, a catarse em contenção, sempre à espreita, o texto dialeticamente servindo ao propósito de “desmontar” o espectador, colocando mais dúvidas do que certezas, e, acima de tudo, buscar na história algo que ilumine as contradições da vida vivida. Tematicamente, guarda sobremaneira a idéia sempre recorrente no Latão da mercantilização de subjetividades, de forma que não possibilite uma convulsão social, já que qualquer ideia de projeto coletivo é jogado em um horizonte irreal e irrealizável.

A trama da peça é curiosa e simples: Mãe e filha (duas atrizes fantásticas, Sôia Lira e Zelita Matos, comemorando 50 anos de palcos com esta peça) que, em fins de século 19, são obrigadas a abandonar o lugar em que vivem no interior da Paraíba por força da violência do proprietário das terras, um senhor de engenho às voltas com a modernização do sistema açucareiro e do sistema métrico e de pesagem, que acaba gerando uma revolta de matutos, conhecida como Quebra-quilos.

O curioso é que o conflito, que aparentemente seria o tema do espetáculo, desde o nome, é um personagem que não entra em cena. Marciano, de forma curiosa, coloca um cego pedinte, a mãe solteira, a dona da estalagem, a escrava prostituída que choca os valores de então: tal qual almeja o poeta e ensaísta Hans Magnus Enzensberger, é hora de falar dos que não falam.

É curioso que tal premissa vem ganhando muita força na literatura feita por escritores de esquerda radical na Europa, em relação aos movimentos anabatistas e os ludditas na Inglaterra. É tirar de revoltas tidas como “descabidas”, “agitação do lumpesinato” ou “sem consistência ideológica” ensinamentos ou reflexões necessárias, já que os grandes momentos do “socialismo real” despertam mais desconfianças e descontentamento por aqueles que buscam um horizonte possível para um mundo mais justo. Historiadores como Christopher Hill e Roger Darnton tem uma perspectiva histórica muito interessante nesse sentido. Pra mim, que curti meu couro na tradição da esquerda antiautoritária/anticapitalista, me parece algo muito salutar.

Nesse sentido mais especificamente, parece que o diretor conseguiu avançar em relação ao seu antigo grupo. Como ele falou em uma mesa de debates da Mostra, a perspectiva em João Pessoa, uma metrópole que se ressente em relação aos centros de poderes e, paradoxalmente, espelha o mesmo comportamento em relação ao resto do Estado, abriu-lhe um horizonte e uma orientação nova em seu trabalho.

É como que, dentro da perspectiva épica brechtiana, procurasse um tom menor, o avesso do avesso da epicidade. A ausência de ilusionismo, da quebra da encenação, recurso caro ao Latão, ganha novos contornos aqui. O crítico Edgar Olimpio de Souza disse que “o que importa nessa vigorosa e inteligente montagem é a leitura dramática e não mera e linear contação do episódio, que exibe claros ecos no mundo atual (…). A encenação avança seguindo a linha do mínimo que significa máximo. O tempo todo o público é instado a lembrar-se de que a medida do comércio não é a medida do homem.”

Afora tudo isso, impressiona como a montagem é linda. É absurdo o desenho cênico das cenas, o cenário mínimo mas definitivo, quase um personagem no espetáculo. e não há uma única cena que a posição dos atores na cena não revele algo. É um lance de gente grande e que tem muita gana de se comunicar, de falar do que há de mais intrínseco ao Brasil.

Enfim, são apontamentos de um zé mané que saiu realmente transtornado da peça e com vontade de ouvir mais. E acho que é um programa pra todo mundo que tiver de bobeira em São Paulo e quer pensar um pouco sobre si mesmo e o país. De resto, arte serve pra isso não?

Se alguém quiser os PDFs das edições do jornal da Mostra com críticas, textos de opinião etc., mandem um mail: velot.wamba@gmail.com .

2 comentários sobre “Quebra-quilos, por Arthur Dantas Rocha

  1. Rapaz, eu bebum aqui, li o texto imaginando o Tutu falando e ri demais.
    Essa coisa de ressentimento com os centros de poder é uma coisa que, praticamente, define o “ser brasileiro” fora do eixo São Paulo – Rio – Brasília, né não ô?

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