Los de abajo

O poeta e escritor Liao Yiwu
O poeta e escritor Liao Yiwu

Se tem algo em comum entre as narrativas da “modernização” – o complexo processo social, histórico, econômico, político, religioso e cultural ligado à industrialização e à urbanização ou, em uma palavra, de desenvolvimento do capitalismo – , como os romances de Charles Dickens e Balzac ou a obra de Karl Marx, é o retrato da modernidade capitalista como um processo de dispossessão total: por um lado, a dispossessão material completa dos indivíduos humanos (os cortiços de Dickens, a pobreza iludida dos personagens de Balzac) e, por outro, o que poderíamos chamar de dispossessão espiritual, apesar do tom meio carola da expressão, para caracterizar a desarticulação das formas de vida tradicionais, e seus conteúdos culturais. O capitalismo como realidade social que destrói o que se lhe opõe e não coloca nada no lugar.

As histórias recolhidas pelo escritor chinês dissidente Liao Yiwu em The corpse walker (alguma coisa como “os condutores de cadáveres”, homens que, na China pré-Mao, viviam de transportar cadáveres do local de falecimento até a terra natal do falecido ou da falecida, profissão ligada às complexas tradições funerárias chinesas e à qual estão associadas diversas superstições e tabus), publicado em inglês pela Pantheon Books em 2008, pertencem a essa linhagem de representação do mundo moderno como catástrofe humana. Seus personagens são indivíduos que vivem no limiar da marginalidade, ou para além dela: zeladores de banheiros públicos, criminosos, pequenos funcionários urbanos de todo tipo, por um lado, e, por outro, indivíduos cujas vidas estão atreladas de alguma forma a tradições da China “antiga”, sistematicamente perseguidos e reprimidos pelo governo comunista: um músico de funeral, um mestre de feng-shui, dois irmãos condutores de cadáveres.

A trajetória do próprio Liao Yiwu poderia aparecer entre as histórias do livro. Filho de um professor acusado de contra-revolucionário durante a Revolução Cultural, foi ele próprio preso diversas vezes desde 1990. O poema que lhe deu projeção, “Massacre”, foi escrito em uma noite sob o impacto dos protestos da Praça da Paz Celestial, e é a um tempo uma condenação da ação da polícia e do exército chineses e a expressão da impotência dos manifestantes:

Nasceste com a alma de um assassino,

Mas quando é preciso agir,

Estás confuso, e  nada fazes.

Não tens espada que possa empunhar,

Teu corpo uma bainha enferrujada.

Tuas mãos tremem,

Teus ossos apodrecem,

Teus olhos aguçados não são capazes de atirar.

As histórias recolhidas e recontadas por Liao Yiwu podem ser lidas como expressão das tensões entre a China “tradicional” – ela mesma, como na história do aliciador de moças, fonte de diversas formas de violência – e a China “moderna” da Revolução e seu ódio por tudo que remete ao passado.

(Para não me estender demais, volto ao livro de Liao Yiwu em um próximo post. Leia aqui uma entrevista com o tradutor da edição em língua inglesa Wen Huang.)

4 comentários sobre “Los de abajo

  1. me interesso muito por essa redefinição da tradição, seja como apagamento, seja como mitologização. Hoje, acho que muitos artistas lidam com a tradição como um espectro, algo qu sumiu dos horizontes. Na literatura, acho que o Will Self trata a tradição como algo meio cadavérico e que começa a feder

  2. Como sempre, demais o texto Jay. O que eu acho interessante é como esses personagens na China têm um significado muito forte de uma situação social que acontece em uma ebulição impressionante. No Brasil, muitos escritores tentam emular uma marginalidade beatnik que soa mais como mitologização da nova realidade urbana do que qualquer outra coisa.
    Muita gente do século 20 retratou essa tensão de uma maneira muito rica (Antônio Callado, Nelson Rodrigues…), mas acho que o João Antônio é quem coloca esse acerto de contas com a vida de antes e a de agora de forma mais clara, não é?

    O que vc acha Jay? E escreva mais sobre o Liao Yiwu, fiquei muito curioso.

  3. Então, Laurão, eu acho que é por aí. Duas coisas no livro do Liao Yiwu são muito interessantes: primeiro, o fato de que a marginalidade de seus personagens nunca tem um sentido único. No caso do beatnik “poser”, a marginalidade é sempre beatífica, expressão de uma individualidade autêntica. Duas das histórias (aliás, elas são reportagens, registros de entrevistas e conversas – o Liao Yiwu, tendo de se virar com outra coisa que não escrever para viver, foi caminhoneiro) mostram isso. Numa delas (da qual eu estou traduzindo uns trechos para colocar no Guagua logo logo), ele entrevista um traficante de mulheres. A conversa é dura, e o Liao Yiwu não esconde o incômodo dele com o cara. Em outra, ele conversa com um camponês de uma aldeia quase intocada pela modernização maoísta, e os relatos de barbaridades supersticiosas e de instituições arcaicas de punição são aterradores. Lembra a descrição nada romãntica do Japão feudal do Akira Yoshimura (“Naufrágios”), ou da “Balada de Narayama” do Imamura.
    Outra coisa legal, e talvez reminiscente do status tradicional do escritor na China, é que os seus interlocutores reconhecem que ele, enquanto escritor, está de certa forma livre dos destinos mais trágicos de seus personagens. Na história do gerente de banheiro público, o gerente diz: “O que você, um intelectual, quer aqui?”. E o Liao Yiwu não esconde a condição dele de homem letrado em um país pobre, coisa que os nossos beatniks da Mercearia São Pedro não gostam de fazer.

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