Agências, imprensa e blogs, necessariamente nessa ordem

E nem vai deixar saudade
E o pior é que nem vai deixar saudade

Só pra aproveitar esse clima de inferno astral, eu entro (só hoje) numa egotrip blogueira e comento algo que sempre é repisado na Internet: a confiabilidade da imprensa X a utilidade dos blogs. Estimulado por uma sugestão do Tiago e por um post do hermenauta, eu já há muito tempo pensava sobre os limites dos blogs e do jornalismo atual.

É bem verdade que raramente os blogs apurem ou levantem informações. No geral, quase todos os blogueiros nos informam a medida que comentam (criticamente ou não) os conteúdos produzidos pelos outros. Os textos  podem fornecer substrato histórico ou crítico do que se publica ou fala por aí, mas é raro que um blog seja o local onde as informações são apuradas e levantadas.É raro que o furo venha dos blogs.

No geral, quando isso acontece, os blogs são bancados por algum grande órgão de imprensa. Existem algumas exceções, lembro de cabeça o Blog do Sakamoto que é primoroso na cobertura contra o trabalho escravo e em favor de melhores condições trabalhistas.

Mas é complicado que um blog com reportagens profundas e levantamento de dados se mantenha na atual configuração dos grandes grupos da imprensa. Se a imprensa desvinculada das grandes companhias já pena pra sobreviver, imagina o blog.

Mesmo por que quase todo blogueiro tem essa atividade por militância, vaidade, conveniência, falta de espaço (tudo isso junto ou separado). Mas no final, por mais horas que o sujeito passe em frente ao computador, ele tem que trabalhar e fazer outras coisa que não subsidiar um blog com informações o dia inteiro.

O problema é quando a lógica do reprodutor de conteúdo se transfere para as redações. A imprensa hoje, como escrevi ao hermenauta, funciona assim :

Caro Hermenauta, eu trabalho na imprensa há 12 anos e na minha opinião o maior problema dos jornais de muito tempo pra cá é exatamente a dependência de conteúdo alheio. Nas editorias internacionais brasileiras, muito pouca coisa é feita por repórteres, a dependência das agências internacionais é generalizada, mesmo na TV.

Na cobertura econômica, cada jornalista tem meia dúzia de agências do mercado que passam os conteúdos pra eles e eles reproduzem, fora a quantidade de repercussão que é feita de matérias das Economist e dos Wall Street Journals da vida. O problema que os blogs enfrentam, a imprensa também enfrenta por que conta com poucos recursos humanos no geral. Existe um filme muito interessante sobre a cobertura da guerra da Bósnia chamado “Os problemas que temos visto” em que ele retrata esse dilema das coberturas sempre estarem limitadas a poucas fontes e a expectativa do dono do veículo.

O New York Times é apontado também como uma exceção, mas são muito poucos os veículos que fazem a diferença. No geral todos reproduzem o mesmo conteúdo das agências, que reproduzem a voz (ou a assessoria de imprensa) que mais se esforça pra vender seu peixe em uma consonância interessante para as pessoas-chave nos veículo. Até algum tempo as redações contavam com alguns especialistas em alguns setores que tinham um discernimento maior na cobertura.

Hoje tudo é muito dependente das grandes agências de notícia, do peixe vendido pelas grandes assessorias  e da repercussão de veículos internacionais. Como eu disse são poucos os jornalistas e veículos que fazem diferença. Agora, como os blogs podem fazer diferença nesse cenário? Eu acredito que um primeiro passo é descobrir quais são essas fontes primárias das notícias e fazer um comentário bem feito do que sai na mídia e quais são os interesses envolvidos entre esses grupos.”

Intrigado, eu acabei encontrando uma pesquisa exatamente sobre o domínio das agências no noticiário da Internet. O texto é do professor de Jornalismo Internacional na Universidade de Leeds, Chris Paterson. A pesquisa, curiosamente levantada logo após os atentados do 11 de Setembro, aponta que apesar de estarmos expostos a uma quantidade inédita de notícias, nunca elas foram tão similares. Quando se trata de notícias internacionais, a dependência das agências é gritante em todo mundo.

O dinheiro tá acabando
O dinheiro tá acabando

De 2001 a 2006, a dependência de quase todos os veículos de imprensa cresceu consideravelmente, até mesmo em serviços onde, aparentemente, não haveria espaço para crescer. Se antes, as agências de notícias respondiam por cerca de 68% do conteúdo internacional, em 2006, o conteúdos de Reuters, AP e AFP saltou para 85% de tudo que era publicado sobre notícias internacionais na Internet americana.

Os sites dos grandes veículos de imprensa também vivenciaram um salto parecido. Neles, segundo a pesquisa de Paterson, a dependência das agências cresceu de 34% para 50% do material produzido. É importante registrar que o crescimento se deu principalmente na CNN, MSNBC , ABC e Guardian. O NY Times é o único caso curioso de um grande veículo diminuiu o conteúdo das agências de 47% para 32% em seu site.

No final, isso mostra que tanto os blogs quanto os grandes sites de informação utilizam as mesmas quatro fontes de informação (Reuters, AFP, AP e BBC) quando o assunto estampa as páginas internacionais de jornais, revistas, sites e programas de TV.

O precipício é logo ali
O precipício é logo ali

Não é sem motivo que as notícias sejam tão parecidas e quase sempre alinhadas com um mesmo ponto de vista. Os blogs são um espaço ótimo para a crítica e a reflexão sobre esse conteúdo padronizado, mas deve ir além se quiser se firmar como uma fonte de informação realmente valiosa. Enquanto isso, ainda precisamos dessas fontes de informação, nem que seja para desqualifica-las.

Acho que o assunto rende uma boa conversa.

16 comentários sobre “Agências, imprensa e blogs, necessariamente nessa ordem

  1. A última frase fecha bem com o texto Laurão. O formato é necessário, mas com os grandes veículos que aí estão, não dá pra contar. Eu defendo o boicote desde sempre, é o único jeito de forçar uma mudança de qualidade ou de abrir espaço pra novas alternativas.

  2. Ha algum tempo tenho feito do blog do guaci minha leitura diaria, não só por admirar a galera que ta sempre aí passando o conteúdo, mas também por encontrar aqui um ótimo filtro de informações e sempre com boas críticas, dessa forma acredito que um dos papeis dos blogs é formar esse filtro, aglutinar informações sob pontos de vistas diferenciados e a possibilidade de exposição das diversas opiniões dos frequentadores. Com relação a imprensa confesso minha ignorância sobre a dependência desta as agências de notícias, sobre isso penso que a preocupação maior é como são produzidas essas noticias já que elas serão na sua maioria repercutidas sem nenhuma crítica, multiplicando o poder de alguns poucos, o que pode ser um problema. Me preocupa, talvez de novo por minha ignorância na área, não conseguir visualisar outras altenartivas, já que essa parecer estar mais ligada a processos de enxugamento de custos, pelo qual, parecem ter que passar para a sua sobrevivência e, também, a falta de contraponto feito pelas agências produtoras de notícias, mas repito, isso é mera especulação fruto da minha ignorância sobre o assunto.

  3. Bom, poderia discutir horas. Edito internacional num suposto big jornal. Tudo procede, sou eu e mais um, não dá pra fazer nem uma diferença senão compilar bem (se possível, filtrar e introduzir didática e crítica) as agências. Isso, grande imprensa, status quo, terminal…
    Blog não consegue manter um repórter em Darfur (eu topo, amanhã) por três meses. A imprensa diária, também não topa.
    Resta fazer crítica a partir dos dados de agência.Isso já é um tanto, melhor que tudo que tem, mas nada que o Guardian não faça todo dia.
    Os caras aqui (money dudes, owners…) não vão por dinheiro em inteligência e vão se auto-extinguir por isso.
    Vamos sofrer um bom tempo´. Imagina ser pago por um blog como esse………
    R$ 2 pau por existir (Lauro e Tiago/cada-mês) + R$ 4 por ser inteligente e, sobretudo, do bem incondicional.
    Tô a fim de fazer um blog. Se for minimamente inteligente (rimou), tá bão!

  4. Ó já fico feliz que o tópico tenha gerado tantas opiniões interessantes. Valeu pelo link Natássia, o texto acaba tendo alguns pontos em comum com o que eu escrevi aqui memso, embora eu discoirde de muita coisa por lá.

    Essa inquietação do Gilson com a imprensa é uma das coisas que também me inspirou para escrever o texto. Na verdade, é um assunto que converso muito com ele e apesar dos pesares (que não são poucos) acho que ainda precisamos desses veículos.

    Quanto ao que o Pablo e o William falaram, eu acho que o problema é que tanto imprensa quanto blogs acabam atuando como filtros mesmo. É uma armadilha que os proprietários dos grandes veículos armaram para eles mesmos.

    Em tempo dos Google Readers, MP3, o acesso às informações é mais fácil e ao investir cada vez menos nas reportagens e numa análise mais aproximada, o jornalismo vai cavando sua própria cova. O problema não é os veículos terem sua opinião, é eles preferirem fofoca e diz que diz do que matéria e produção de informação (que é muito mais trabalhoso de se fazer.

    Eu acho engraçado como se faz seminários sobre jornalismo literário, sobre new journalism e o diabo a quatro e se esquece o básico que é o que a sociedade mais precisa: reportagem de verdade, apuração, mergulho nos documentos, investigação das fontes. Mas daí é que nem escreveu o Relatos da Invasão (http://www.youtube.com/watch?v=MwAWRukWEg8&feature=related):

    “A vaidade onde impera a miséria o plano mais fundamental pra destruir a favela é o que implantaram desde a infância ta nas crianças agora colhe nem vale a pena chorar”

    Pablo, você devia começar seu blog amanhã.Eu garanto a propaganda aqui no Gua Gua. Tem todas as qualidades e mais um monte delas como escrever muito bem e ser de uma generosidade sem par, fora que é informado pra diabo. Acho que seria um sucesso.

  5. eu tô com o Gilson: boicote neles. Eu tenho uma camiseta escrito Pare de Ler Jornais Capitalistas.

    É meio ingênuo, mas não é algo que de fato eu deixe de endossar…

  6. Legal Ale, valeu muito pelas dicas, vou dar uma olhada djá! Ainda nesse assunto, vale também a série Jornal, Blog e Twitter do Aomirante Nelson (http://twitter.com/aomirante):

    – Jornal: “Telas de Tarsila recuperadas ontem”. Blog: “Tela da Tarsila é igual moda: vai e volta”. Twitter: “Merda de quadro. Vou devolver”.

  7. A tristeza do proclamado fim do jornalismo impresso é saber onde vamos embrulhar nossos peixes….ou num pensamento mais doméstico, com que folhas vamos limpar os vidros de cada dia….

  8. Pô, Pablo, quero o meu caraminguazinho nessa história também. Sei que ando meio ausente do Guaciara mas, para ser sincero, estou pro Lauro e pro Tiago, em pique e capacidade de sacar rápido as coisas e escrever, como a minha vó na hidroginástica tá pro Michael Phelps na pisicina.

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