Fios soltos, fios desencapados, Rob Mazurek e a sua orquestra

a orquestra
a orquestra

Quem estiver em São Paulo na sexta ou no sábado devia tentar ir ao SESC Vila Mariana assistir o Roscoe Mitchell tocar com a Exploding Star Orchestra. Já falamos do Roscoe Mitchell aqui. Para mim, ele merece todos os epítetos que dizem respeito à música e ainda é pouco. A orquestra também não é brincadeira.

A Exploding Star é um dos projetos mais ambiciosos, senão o mais, do instrumentista, compositor e artista multimedia Rob Mazurek (só falta dançar e catar no gol). Com ela, bem como em seu recente disco Sound is, Rob atinge sua maturidade musical. Lá ele articula um maior número de elementos, compõe com mais rigor e lida com um escopo complexo de questões.

Além disso, com a orquestra ele se soltou de duas prisões que podem ser o inferno de quem trabalha com música de vanguarda: o gênero e, mais do que tudo, o seu estilo de tocar (que pode virar, para o bem, uma marca registrada e, para o mal, uma cadeia).

O percurso de Rob Mazurek pela arte de vanguarda e a composição contemporânea é recente. O músico vem de uma tradição jazzística bastante convencional e na década de noventa se aproximou, ao mesmo tempo, das linguagens mais pop e dos desafios da nova música.

Enquanto fazia isso, aprofundava a sua pesquisa nas artes visuais e usava tinta, imagem eletrônica, som e televisões como material. Acho que a convergência entre o que ele propõe ao ouvido e ao olho se encontram nas partituras da Exploding Star.

Rob Mazurek gosta de elementos mais neutros: timbres suaves e cores discretas. Sua música possui pouca violência e a sua pintura trabalha com cores muito rebaixadas. Mesmo quando grita, sua corneta não ultrapassa certos limites, mas quando ela é colocada com outras coisas do lado, as coisas mudam de figura. Ele gosta de sobrepor camadas de som, de tinta, de luz. Essa junção dá a esses elementos mais neutros um aspecto irregular. Sobra som para todo o lado e a sobreposição de camadas de tinta deixa a superfície manchada e marcada.

Elementos regulares, mais ou menos homogêneos, quando sobrepostos começam a soar até o ponto que essa ressonância se transforma em ruído. O artista não quer deixar os fios soltos, mas compor com eles. Esse trabalho de harmonizar os tais fios soltos é uma constante em tudo que Mazurek quer fazer. Por isso, quando ele pinta ou faz instalações, procura utilizar os elementos mais neutros e fluídos possível e ver, em que medida, eles são heterogêneos.

O artista não quer deixar os fios soltos, mas compor com eles. Esse trabalho de harmonizar os tais fios soltos é uma constante em tudo que Mazurek quer fazer. Por isso, quando ele pinta ou faz instalações, procura utilizar os elementos mais neutros e fluídos possível e ver, em que medida, eles são heterogêneos.

Rob Mazurek "3 proctions of light"
Rob Mazurek "3 proctions of light"

Em um trabalho audiovisual, Rob Mazurek trabalhou sobre interferências sonoras que a televisão faz ao mostrar uma intensidade de branco muito grande na tela. O artista tentava compor visualmente e musicalmente aqueles ruídos.

Ele tomava a idéia de White Noise (ruído branco) literalmente. Esse ruído é a soma de freqüências miúdas que geram interferência e fazem o que parece uma luz de nada zumbir. Assim, uma mistura de freqüências pequenas gera um som ou imagem que não se controla. O artista combinava, ao mesmo tempo, sons de várias freqüências sonoras e emissões de luz branca. Essa relação entre som e imagem passa a pontuar o silêncio.

A ausência de imagem do branco vira música, que se torna parte de uma peça tocada. Uma música sutil, que espera o som interromper longos intervalos, ao modo de um dos seus maiores inspiradores: o compositor norte-americano Morton Feldman.

Na música, acredito que essa idéia de interferência tenha algo utópico. E é uma utopia construída em lugares pouco prováveis. Tal como alguns pensadores iluministas ele parece buscar uma medida justa, um modo, mesmo que seja só um horizonte, onde a divergência seja possível e que, mesmo em meio ao ruído, todos possam viver em paz.

Quem teve a chance de ver as suas partituras, sabe que isso envolve desde a ordem em que cada instrumento entra na composição até o modo como Mazurek dispõe os instrumentos na sala. Acho que a melhor forma de checar essa promessa, muito norte-americana, é ir ver a turma tocar no SESC.

4 comentários sobre “Fios soltos, fios desencapados, Rob Mazurek e a sua orquestra

  1. Sabadão eu tô lá pra prestigiar o Maza, o primeiro disco e o com o Bill Dixon são uma coisa seríssima mesmo como o Tiago escreveu. Acho que o show vai dar o que falar por aqui.

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