Uma explicação da gripe suína, por Marcos Mesquita Filho

Quem conhece meu pai que é médico epidemiologista sabe que uma das melhores coisas do Brasil é passar um tempo batendo papo com ele. De preferência em um bar. E entre os vários assuntos que você pode conversar com ele  – como música, comida, política, curtição etc. – existem dois que andam bem em voga: epidemias e tira-gosto, quer dizer porcos – frangos nunca. O Mesquita dá o começo de uma conversa sobre gripe suína aqui no blog  e convida todos a opinar. Leiam e participem:


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E o porco paga o pato, quer dizer, o homem

A gripe suína é resultado de uma mutação genética. É altamente infectante e patogênica, ou seja invade facilmente nossos tecidos e as pessoas se tornam doentes com facilidade. É mais branda que sua parente aviária, apesar de também poder causar casos graves e fatais.

Mas os cientistas estão constatando que quando a gripe suína se difunde, ela vai perdendo sua força e os casos vão se tornando cada vez mais leves. Assim, matou muita gente logo que surgiu e, aos poucos, foi se tornando menos grave.

Ao mesmo tempo, a doença reponde bem à medicação anti-viral de rotina. Mas, num país pobre como o Brasil, o risco de qualquer doença epidêmica causar um grande estrago é muito alto pelas péssimas condições de vida e ausência de um sistema médico-sanitário que dê conta de situações de alto risco.

Parece que no México houve uma sensível diminuição da transmissão após o feriado do último fim-de-semana quando se recomendou a permanência da população em casa. De qualquer forma ela está longe de ser grave como a gripe espanhola do século 20.

O Mauro Santayana publicou um texto interessante no Jornal do Brasil da quinta-feira passada (1/5/2009):

A gripe dos porcos e a mentira dos homens

Mauro Santayana

O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods. La Glória é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.
Os moradores de La Glória – alguns deles trabalhadores da Carroll – não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos. A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou. Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país. É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata.

O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão. A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala – no nível da exploração familiar – tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.
Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.
As Granjas Carroll – como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos – mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade. A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada “ação social”. Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam – como ocorre, no Brasil, com a Daslu – argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.
O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Glória, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína. O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll – com a cumplicidade da OMS.”

14 comentários sobre “Uma explicação da gripe suína, por Marcos Mesquita Filho

  1. Tudo bem, tudo bom, mas há de chegar a hora que o grande Dr. Mesquita revele dados sobre suas pesquisas na área de nadegologia…

  2. Iuuupiiiiii! Agora me sinto mais a vontade para dar um “pitaco” nesse espaço tão habitado de “crânios”. Nossa Mesqs, você nos falou da gripe suína de uma maneira tão didática, que, agora, já consigo ter dicernimento sobre sua extensão. Meninos, aproveitem mais do seu pai e o insiram mais vezes nesse blog. Saibam que procuro esse espaço todos os dias e só não fiz nenhum comentário até agora por medo de “dar bola fora”. Bjocas a todos.

  3. então é gripe suína e ponto.
    acho incrível como essas questões não ficam a céu aberto na mídia.
    quanto mais a gente mexe, mais fede.

  4. Nossa, tmb achei muito didático. E tmb tem essa parte ” Mas, num país pobre como o Brasil, o risco de qualquer doença epidêmica causar um grande estrago é muito alto pelas péssimas condições de vida e ausência de um sistema médico-sanitário que dê conta de situações de alto risco”. Achei muito legal do Mesquitão ter comentado, infelizmente vários países têm a mesma situação do Brasil.

  5. Esclarecido o assunto, será que dá pra tocar aquele samba, Mesq? Abração.

  6. Obrigado pelos comentários. Acabou de sair na Internet: Confirmaram dois casos dos que estavam de quarentena.Duas vítimas são de São Paulo, uma do Rio de Janeiro e outra de Minas Gerais. Os quatro são adultos e apresentam quadro clínico estável. Só o do Rio continua internado.
    Enquanto nos EUA e outros países do primeiro mundo os diagnósticos já vêm acontecendo a tempos, com excessão do México, berço da Pandemia só serão encontrados os seguintes países pobres: Á Colômbia (1), Costa Rica (1), El Salvador (1), Guatemala (1). Todos com apenas um caso. Para entendermos esse disparate, pois México e EUA já têm muitíssimos casos, o Canadá tem 201, devemos lembrar que o Ministério da Saúde só conseguiu receber o kit para realização do exame essa semana.

  7. Mas será que o Brasil tá com tantos casos assim Mescas? O trânsito entre EUA e MÉxico e EUA e Canadá é muito mais intenso do que o trânsito Brasil México não é pai?

    Existe alguma lógica na multiplicação de casos de uma pandemia como essa?

    O mais louco é que eu li em algum blog que depois do Ebola e da gripe aviária esse tipo de epidemia Bem que você podia escrever alguma coisa depois sobre a gripe espanhola tb né?

    Abraços, beijos e muito obrigado pelo texto.

  8. Muito obrigado pelo texto e muito origado pelas visitas. Não temam as bolas fora, o medo paralisa e essse blogue quer curtir com todo mundo
    beijos

  9. O que eu quis dizer Lauro é que os países de terceiro mundo além de outros problemas, tem maior dificuldade em diagnosticar doenças novas por falta de tecnologia apropriada. Os quatro casos que foram divulgados ontem estavam esperando por um diagnóstico desde abril. Imagina se a doença fosse mais brava: esse pessoal teria morrido e a confirmação viria só na autópsia. Nesta hipótese, a gravidade da situação podia ser outra. Mas se Brasil tem mais que quatro casos eles são poucos em comparação aos outros países da América do Norte e todos, provavelmente, estão sendo seguidos.
    Lauro, na primeira frase do terceiro parágrafo de seu comentário parece que a frase está faltando um pedaço. Complete para que eu possa entender.
    Beijos

  10. Opa desculpa pai, sou um mestre da desatenção. Vamo lá:

    O mais louco é que eu li em algum blog que depois do Ebola e da gripe aviária esse tipo de epidemia tende a se tornar cada dia mais comum. (http://veja.abril.com.br/blog/denis-russo/saude/acostume-se-com-as-super-gripes/#more-161729)

    Apesar do texto da Veja ser bem fraquinho, ele aponta umas coisas que são verdade mesmo, a urbanização acelerada em países sem nenhuma estrutura podem trazer doenças e novos problemas que agora ficam muito mais fáceis de se espealhar pelo mundo não é?

    Acho que esse assunto ainda rende viu…

  11. Urbanização, consumo, industrialização …
    Aquecimento global será?! A terra é um ótimo lugar para proliferação de vírus e bactérias. Nossa, isso é muito apocaliptico. Parei!

  12. Tutu
    Chainsaw Now não, é o I know a.
    Uma hora que for autorizado pela Real Sociedade Nadegológica da Dinamarca dissertarei sobre esse importante tópico esteto-médico-filosófico que é a Nadegologia. Enquanto isso vamos ter que nos contentar com o último número da publicação científica Anais Anais.

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